Nas Casas de Banho Públicas, Puxar o Autoclismo Não é o Único Risco de COVID-19

As plumas emitidas pela descarga do autoclismo podem lançar gotículas de germes no ar. Os especialistas partilham as precauções que devemos levar em consideração antes de utilizarmos uma casa de banho pública.

Thursday, June 25, 2020,
Por Sarah Gibbens
Uma funcionária coloca máscaras faciais na casa de banho de uma das suites do famoso Hotel ...

Uma funcionária coloca máscaras faciais na casa de banho de uma das suites do famoso Hotel Adlon Kempinski, em Berlim, no dia 26 de maio de 2020, um dia depois da reabertura ao turismo, quando as restrições devido à pandemia do novo coronavírus começaram a ser atenuadas.

Fotografia de Tobias Schwarz, AFP via Getty Images

Há poucas pessoas com resistência para tolerar bebidas, jantares ou viagens longas sem precisar de usar a casa de banho. Mas, à medida que mais restaurantes, bares e outros espaços públicos começam a reabrir, surgem questões sobre se a utilização de uma casa de banho pública se pode tornar num risco ainda mais grave para a saúde devido à COVID-19.

Estas preocupações vieram à tona em meados de junho, quando investigadores na China publicaram um estudo que sugeria que a descarga do autoclismo pode criar uma pluma de partículas carregadas com coronavírus, que são expelidas para o ar através do vórtice aquoso dentro de uma sanita.


Vários estudos feitos com testes genéticos detetaram o vírus SARS-CoV-2 em amostras de fezes, e pelo menos uma investigação revela que os coronavírus presentes nessas fezes podem ser infecciosos. Quando uma pessoa infetada com COVID-19 defeca, o germe instala-se primeiro na sanita. “Mas o processo de descarga pode levantar o vírus da sanita e provocar uma infeção cruzada entre as pessoas”, diz Ji-Xiang Wang, físico da Universidade de Yangzhou, na China, e coautor do artigo publicado no dia 16 de junho na revista Physics of Fluids.

O efeito de pluma das sanitas é estudado há décadas em relação a outras doenças, mas ainda há muitas questões em aberto sobre o papel que representa na propagação de germes, incluindo o germe que provoca a COVID-19. A Organização Mundial de Saúde e os Centros de Controlo e Prevenção de Doenças (CDC) dos EUA acreditam que é pouco provável que a COVID-19 se possa propagar desta forma – desde os movimentos intestinais ao consumo acidental de partículas virais – uma via denominada por transmissão fecal-oral.

Apesar das incertezas, os especialistas dizem que há precauções que devemos tomar antes de respondermos ao apelo da natureza numa casa de banho pública.

Quão perigosas são as casas de banho?
Para o estudo mais recente, a equipa de Wang usou modelos feitos em computador para mostrar como é que as pequenas gotículas – chamadas aerossóis – criadas pela turbulência da água a entrar na sanita podem ser lançadas até 90 centímetros no ar. No momento da descarga, a água é projetada para dentro da sanita, atingindo o lado oposto com força suficiente para gerar um vórtice que empurra com força, não só o líquido, mas também o ar dentro da sanita.

De acordo com as simulações, esta combinação lança aerossóis que podem permanecer no ar durante pouco mais de um minuto. Segundo a equipa de Wang, quanto mais água for usada numa sanita, maior será a força da descarga.

Portanto, o que é que isto significa se tivermos de usar uma casa de banho depois de alguém infetado com COVID-19 ter puxado o autoclismo? A resposta depende muito das capacidades de sobrevivência do vírus em estado infeccioso nas fezes humanas, e essa ainda é uma área de investigação em aberto.

Para começar, os estudos feitos sobre a MERS, parente do coronavírus que surgiu em 2012, indicam que este vírus em particular consegue sobreviver no trato digestivo humano, um sinal de que pode acontecer o mesmo com a SARS-CoV-2. Os vírus da gripe e os coronavírus são considerados “vírus envelopados”, porque são protegidos por uma camada fina, chamada membrana. Ao contrário dos norovírus, que são os culpados mais comuns das intoxicações alimentares, os vírus envelopados são facilmente degradados pelos ácidos, que os tornam vulneráveis às composições químicas do sabão e da bílis.

Uma das hipóteses, baseada em pesquisas feitas sobre a influenza, sugere que estes tipos de vírus conseguem sobreviver no intestino humano se o muco dos pacientes infetados proteger os germes durante a sua jornada pelo sistema digestivo. A questão passa por saber quanto tempo é que o vírus persiste na matéria fecal, e essa é outra área que também precisa de mais estudos, diz E. Susan Amirian, epidemiologista molecular da Universidade Rice, em Houston.

“É pouco provável que a transmissão fecal seja um dos principais meios de transmissão, mesmo que seja plausível”, diz Amirian por email. E salienta que a avaliação do CDC sobre transmissão fecal-oral cita um estudo em que os cientistas conseguiram detetar apenas pedaços do código genético do coronavírus nas fezes de pacientes infetados. Estes fragmentos genéticos são um indicador de que o germe já esteve presente no corpo, mas o vírus estava tão degradado que já não era infeccioso.

Porém, estes fragmentos virais degradados aparecem com bastante frequência nas fezes de pacientes com COVID-19. Outro estudo, publicado em abril, encontrou vestígios de SARS-CoV-2 na matéria fecal de mais de metade dos 42 pacientes testados. E um relatório publicado pelo CDC no dia 18 de maio encontrou SARS-CoV-2 viável e infecciosa nas excreções fecais de alguns pacientes.

Para além disso, outros estudos mostram que pode ter ocorrido transmissão fecal-oral durante o surto de SARS, em 2002-2003, outro parente do coronavírus que provoca a COVID-19. Acredita-se que, em 2003, a matéria fecal transportada pelo ar exacerbou um foco de 321 casos de SARS num complexo de apartamentos em Hong Kong. A investigação feita ao incidente encontrou um sistema de ventilação com deficiências, e o contacto entre vizinhos e os espaços partilhados, como os elevadores e as escadas, também contribuíram para o evento.

“Usar uma casa de banho pública, se mantivermos a distância física de outras pessoas e praticarmos uma boa higiene das mãos, provavelmente é menos arriscado do que ir a uma reunião com pessoas de outras famílias”, diz Amirian. E também enfatiza que “o principal meio de transmissão da COVID-19 é de pessoa para pessoa, através de gotículas respiratórias”.

O que podemos fazer para nos protegermos?
Ainda assim, menos arriscado não é o mesmo que sem risco, e saber exatamente como é que o vírus consegue sobreviver nas fezes, nas superfícies e no ar são questões que os cientistas ainda estão a tentar responder.

Um estudo publicado em abril no New England Journal of Medicine mostrava que o vírus consegue sobreviver em superfícies de aço e de plástico durante dois e três dias, respetivamente. Uma solução simples de água e sabão consegue destruir facilmente o vírus. Mas isto significa que, se as superfícies não forem cuidadosamente limpas, as casas de banho públicas podem ter germes de COVID-19.

“Ao final do dia, precisamos de nos lembrar que as fezes podem ser um reservatório para muitas doenças, e as pessoas às vezes não lavam as mãos tão bem quanto julgam”, diz Amirian. “Uma boa higiene, sobretudo a lavagem cuidadosa das mãos, é importante por razões que ultrapassam a COVID-19.”

Nas casas de banho públicas maiores, que não limitam o número de pessoas autorizadas a entrar, os grupos de indivíduos representam um risco adicional, pois o contacto de proximidade continua a ser a principal forma de infeção por coronavírus.

Joe Allen, diretor do programa Healthy Buildings de Harvard, investiga como é que os nossos escritórios, escolas e casas podem influenciar a nossa saúde. Allen já fez investigações em edifícios que afetam de forma adversa a saúde humana – “Eu estou sempre a dizer às pessoas para se lembrarem de verificar o ventilador da casa de banho.” E acrescenta que melhorar a ventilação que move o ar interno sujo para o exterior é uma das melhores formas de proteção contra uma casa de banho contaminada.

“As casas de banho públicas deviam ter sistemas de ventilação a trabalhar constantemente”, diz Allen.

E também recomenda, sempre que possível, que os estabelecimentos instalem equipamentos com sensores, como torneiras, dispensadores de sabonete e de toalhetes que se ativam com o movimento das mãos.

Na ausência de condições mais higiénicas, Wang aconselha a utilização de uma máscara facial nas casas de banho públicas. E uma das formas mais eficazes de impedir que qualquer tipo de aerossol infeccioso viaje pelo ar, acrescenta Wang, é simplesmente instalar tampas nas sanitas.

“Os fabricantes deviam projetar uma nova sanita onde a tampa se fecha automaticamente antes de puxarmos o autoclismo.”

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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