Parente Misterioso de Crocodilo Pode Ter Andado Sobre Duas Patas

As pegadas estranhas, que chegaram a ser atribuídas a um pterossauro, parecem na realidade pertencer a um animal semelhante a um crocodilo que viveu há mais de 110 milhões de anos.

Thursday, June 18, 2020,
Por Tim Vernimmen
As pegadas encontradas no sítio arqueológico de Sacheon Jahye-ri, na Coreia do Sul, parecem ter sido ...

As pegadas encontradas no sítio arqueológico de Sacheon Jahye-ri, na Coreia do Sul, parecem ter sido feitas por um parente enorme dos crocodilos que andava sobre duas patas.

Fotografia de Kyung Soo Kim, Universidade Nacional de Educação Chinju, KYUNGNAM, COREIA DO SUL

Há mais de 110 milhões de anos, durante o Cretáceo, a área costeira do sul da Coreia do Sul, perto da cidade de Jinju, estava coberta por extensos lagos. As margens lamacentas eram habitadas por sapos, lagartos, tartarugas e por dinossauros que deixavam as suas pegadas na lama. Sempre que o nível da água subia, algumas destas pegadas eram preenchidas com areia, permitindo que uma fração ficasse preservada.

Hoje, podemos encontrar milhares de pegadas nesta região, conhecida por Formação de Jinju, diz Martin Lockley, paleontólogo especializado no rastreio de pegadas fósseis – ou icnólogo – na Universidade do Colorado, em Denver. Lockley e os seus colegas na Coreia do Sul estudam as pegadas de Jinju há décadas e, durante muitos anos, não conseguiram descortinar algumas das pegadas maiores.

Em 2019 descobriram finalmente as pegadas detalhadas de uma criatura, uma descoberta que foi publicada no dia 11 de junho na Scientific Reports. As pegadas fornecem uma imagem dos dedos das patas, das almofadas na parte inferior e até de um pedaço ocasional de pele. Estes detalhes convenceram Lockley e a restante equipa de que as pegadas provavelmente foram deixadas por crocodilomorfos, parentes dos crocodilos, com mais de 2,74 metros de comprimento. Aparentemente, eram crocodilos incomuns que deixaram apenas marcas das patas traseiras, sugerindo que eram bípedes.

“[As pegadas] parecem realmente ter sido feitas por crocodilianos enormes”, diz o icnólogo Anthony Martin, da Universidade Emory de Atlanta, que não participou neste novo estudo. “Para animais que andavam sobre as patas traseiras e em terra, isto é muito estranho. Mas, mais uma vez, o Cretáceo foi um período estranho e maravilhoso.”

Reconstrução do Batrachopus grandis, uma proposta para o crocodilomorfo que viveu há mais de 110 milhões de anos e deixou pegadas na Formação de Jinju na Coreia do Sul.

Fotografia de Anthony Romilio, Universidade de Queensland, Brisbane, Austrália (ilustração)

Pegadas misteriosas do Cretáceo
Antes de estas pegadas terem sido encontradas, os paleontólogos tinham apenas vestígios “muito mal preservados” deste animal, diz Lockley. “Eram apenas impressões ovais, com 25 a 30 centímetros de comprimento e 10 a 12 centímetros de largura.”

Em 2012, Lockley e os seus colegas levantaram a hipótese de que as pegadas encontradas na Formação de Haman, ali nas proximidades, podiam ter sido feitas por um enorme pterossauro – um réptil voador que viveu ao lado dos dinossauros – talvez enquanto este andava por águas rasas a tentar impedir que as suas asas se molhassem. Independentemente do que fosse, a marcha do animal e a ausência de marcas evidentes dos seus membros superiores sugerem que a criatura estava a andar sobre duas patas – e outras pegadas sugerem que os pterossauros usavam geralmente as quatro patas quando estavam no chão.

As pegadas encontradas em 2019 na Formação de Jinju ofereceram aos paleontólogos uma visão mais aprofundada sobre as patas do animal. “Quando Martin Lockley visitou o local em novembro de 2019, perguntei-lhe o que achava”, diz Kyung Soo Kim, da Universidade Nacional de Educação Chinju, em Jinju, cuja equipa descobriu as pegadas. “Ele sugeriu imediatamente que eram do tipo conhecido por Batrachopus, um crocodiliano. Naquele momento, não acreditei, porque não conseguia imaginar um crocodilo bípede. Mais tarde, porém, fiquei convencido pelos dedos, pelas almofadas e pelos detalhes da pele.”

Era um crocodilo diferente de qualquer coisa viva atualmente. Para além de andar sobre duas patas, deixava um trilho muito estreito, “colocava uma pata à frente da outra”, ao contrário do que acontece com os crocodilianos modernos, diz Lockley.

A ideia de um crocodiliano bípede pode parecer bizarra, mas não é completamente inédita. Alguns estudos feitos anteriormente revelam que os primeiros crocodilomorfos que viveram na América do Norte durante o Triássico também podem ter sido bípedes. Mas, dado o longo período de tempo entre a existência destes primeiros crocodilos e a criatura que deixou as pegadas enormes na Coreia do Sul, os paleontólogos não sabem ao certo se os crocodilos de duas patas sobreviveram durante este tempo todo sem uma presença no registo fóssil, ou se a capacidade de andar sobre duas patas evoluiu mais do que uma vez.

Assim sendo, os investigadores sugerem que este novo crocodilo bípede é uma nova “icnoespécie” – que se baseia apenas nas suas pegadas – e deram-lhe o nome de Batrachopus grandis.

Imagens das pegadas bem preservadas do Batrachopus grandis, um parente dos crocodilos.

Fotografia de Kyung Soo Kim, Universidade Nacional de Educação Chinju, KYUNGNAM, COREIA DO SUL

Crocodilo de postura vertical
Se há 100 milhões de anos alguns crocodilomorfos eram bípedes, porque razão é que os crocodilos da atualidade se arrastam sobre as quatro patas? Lockley acredita que no Cretáceo teria sido benéfico para algumas espécies ter um pouco mais de elevação nas patas, como acontecia com muitos dos dinossauros carnívoros. “A paisagem era muito plana, a área era boa para correr e caçar à vista.”

Uma possível explicação alternativa para as pegadas é a de que os animais estavam a flutuar na superfície de um lago enquanto avançavam com as patas. Mas Lockley acredita que, se fosse esse o caso, os animais não teriam deixado pegadas tão bem preservadas e espaçadas de forma tão regular. “Ninguém drenou um pântano para nos dizer como são as pegadas [subaquáticas] dos crocodilos. Mas, muitas vezes, os crocodilos fazem força com os dedos das patas traseiras, mas não colocam a pata toda no chão.”

“Nadar foi a primeira coisa que me veio à cabeça”, diz Ryan King, especialista em pegadas na Universidade Western Colorado, mas Ryan concorda que provavelmente isso deixaria pegadas dos dedos das patas e não de toda a pata. “Para além disso, a preservação das almofadas – e até de pele – faz com que seja mais provável que as patas tenham sido impressas num substrato húmido, em terra firme, do que debaixo de água.”

Apesar de este crocodilomorfo ter sido identificado como uma nova espécie com base nas suas pegadas, os cientistas ainda não associaram as mesmas a um esqueleto fóssil. Acredita-se que as pegadas foram feitas por crocodilomorfos extintos do género Protosuchus. Mas os cientistas não sabem ao certo. “Infelizmente, há poucos animais que morreram perto do local das suas pegadas, não deixando assim uma ligação inconfundível entre uma pegada e um corpo fóssil”, diz Lockley.

Os icnólogos gostavam que outros paleontólogos, que estudam ossos fósseis, prestassem mais atenção às pegadas que estas criaturas deixaram para trás. Afinal de contas, são os vestígios dos “animais vivos e do seu comportamento, quando ainda tinham pele nos ossos”, diz Lockley. Às vezes, os cientistas conseguem encaixar ossos numa pegada, “mas para muitos dos animais, não temos fósseis bons destas partes mais frágeis”.

Parece que os crocodilomorfos bípedes foram gradualmente superados pelos mamíferos de sangue quente. “Talvez seja por isso que hoje não vemos crocodilos a correrem atrás de antílopes na savana”, diz Lockley. Mas no Quénia e na Tanzânia, quando os gnus precisam de atravessar o Rio Mara, ainda há um predador com que precisam de se preocupar.

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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