Quanto Tempo Dura o Coronavírus no Nosso Corpo?

Os investigadores estão focados em descobrir qual é a persistência do vírus no corpo humano e quão rapidamente as pessoas podem sofrer novas reinfeções.

Publicado 15/06/2020, 15:23 WEST, Atualizado 5/11/2020, 05:59 WET
Esta imagem 3D de dados de tomografia exibe sintomas da COVID-19 nos pulmões e os danos ...

Esta imagem 3D de dados de tomografia exibe sintomas da COVID-19 nos pulmões e os danos gerais do vírus no corpo. A imagem foi feita num hospital de Moscovo, na Rússia, no dia 22 de maio de 2020.

Fotografia de Sefa Karacan, Anadolu Agency via Getty Images


A sexta-feira, dia 13 de março, foi um dia infeliz para Fiona Lowenstein. Durante o fim de semana, Fiona, de 26 anos de idade, teve febre, depois começou a tossir e rapidamente ficou com falta de ar e sentiu dificuldades em falar. No hospital, Fiona acusou positivo para a COVID-19, foi internada e recebeu oxigénio suplementar. Passados dois dias, melhorou o suficiente para ir para casa – mas os seus sintomas não se ficaram por aí.

Fiona começou a ter diarreia, perdeu o olfato e sofreu dores de garganta e erupções cutâneas. Mais preocupante ainda, cerca de um mês depois dos sintomas iniciais, desenvolveu fadiga intensa e fortes dores de cabeça. Fiona começou a ter dificuldades em articular um discurso e não se conseguia concentrar, esquecendo o que pretendia dizer a meio de uma frase.

“Parecia que tinha sido atropelada por um camião”, diz Fiona. “Tinha dias em que conseguia fazer algum trabalho, mas nos dias seguintes quase não conseguia sair da cama.”

Os cientistas ainda estão a tentar compreender porque é que alguns pacientes de COVID-19, como Fiona Lowenstein, estão a passar por este tipo de reincidências – por vezes semanas ou meses depois de terem adoecido.

É possível que alguns pacientes estejam com dificuldades a longo prazo porque alguns dos coronavírus permanecem nos tecidos. Os investigadores estão agora a descobrir quanto tempo é que o germe permanece vivo dentro do corpo humano, uma situação conhecida por persistência viral. Isto pode ser diferente do período de tempo em que alguém que teve COVID-19 ainda pode ter fragmentos virais, que às vezes podem acusar falsos positivos nos testes de diagnóstico.

É importante compreender a persistência da COVID-19 porque permite determinar durante quanto tempo é que alguém é contagioso, quanto tempo é que os pacientes devem permanecer isolados e se é possível sofrerem uma reinfeção.

“Persistência é uma palavra complicada”, diz Mary Kearney, cientista que estuda a resistência do VIH aos medicamentos no Centro de Pesquisa Oncológico do Instituto Nacional de Oncologia dos EUA. “É particularmente complicada porque os cientistas não sabem como é que a persistência do coronavírus pode variar entre indivíduos ou mesmo de órgão para órgão.”

O coronavírus tem um genoma feito de RNA e não de ADN, diz Mary. Noutras famílias de vírus RNA, como a hepatite C, as infeções persistentes podem dar origem a doenças hepáticas ou cancro – e isto pode acontecer décadas depois da infeção original. “Onde existe persistência a longo prazo, podem existir consequências a longo prazo.” Portanto, apesar de estes resultados ainda não serem evidentes para a COVID-19 – dado que se trata de uma doença nova – devem ser investigados.

Persistência contra reinfeção
Os cientistas usam três categorias gerais para definir persistência. Com as infeções virais agudas – como os norovírus que afetam o estômago – as pessoas desenvolvem sintomas rapidamente e depois recuperam por completo em poucos dias. Mas há outros pequenos invasores que permanecem – entre eles, o vírus varicela-zoster, que inicialmente provoca varicela, mas depois fica latente nos neurónios de um paciente para toda a vida. E outros, como os poliovírus, são agudos em grande parte das pessoas, mas só revelam persistência em alguns pacientes que têm problemas em eliminar o vírus do corpo.

Um dos fatores agravantes para a COVID-19 passa pelo facto de muitos dos testes usados pelos médicos que rastreiam pacientes – ou pelos investigadores que analisam superfícies infetadas nos hospitais – usarem o método de reação em cadeia da polimerase (PCR). Este teste procura fragmentos genéticos do vírus que são expelidos na respiração de uma pessoa, nas fezes, urina ou por outras secreções. Um teste de PCR pode indicar se alguém apanhou a doença recentemente, mas não consegue distinguir entre um vírus vivo replicante e resíduos virais não infecciosos.

“Mesmo quando o vírus já não é infeccioso, existe um período em que ainda conseguimos detetar o seu RNA”, explica Andrew Karaba, investigador de doenças infecciosas na Universidade Johns Hopkins.

Para testar os vírus ativos, os investigadores cultivam-nos a partir de amostras em frascos de cultura de células ou em placas de Petri. Mas não é um processo fácil; as zaragatoas nasais podem secar demasiado ou não conseguir apanhar uma célula infetada. Noutros casos, as amostras podem não conter partículas virais suficientes para cultivar o seu crescimento. Para além disso, os Centros de Controlo e Prevenção de Doenças (CDC) dos EUA alertam que o vírus SARS-CoV-2 só deve ser isolado e estudado em laboratórios com níveis de biossegurança igual ou superior a 3.

Embora o número de estudos sobre vírus vivos SARS-CoV-2 ainda seja limitado, existem algumas investigações que oferecem indícios sobre o tempo que o vírus consegue persistir. Um estudo feito na Alemanha analisou nove casos ligeiros e descobriu que, oito dias depois do aparecimento dos sintomas, os vírus vivos já não podiam ser cultivados a partir de amostras de expetoração. Este trabalho também descobriu que as pessoas emitem enormes quantidades de RNA viral durante os primeiros dias de infeção.

Outro estudo publicado na Nature isolou o vírus vivo de nove pacientes com COVID-19 durante a primeira semana de sintomas. Um paciente tinha vírus que ainda podia ser cultivado passados nove dias; e os investigadores também encontraram fragmentos de RNA viral em várias amostras passados 31 dias. E outro estudo, publicado no dia 28 de maio na New England Journal of Medicine, que acompanhou 89 utentes de lares de idosos, também descobriu que os pacientes podem expelir o vírus vivo até nove dias.

Redução de reincidências
Descobrir o verdadeiro período de persistência viral pode ajudar a perceber se as pessoas estão a sofrer reinfeções de COVID-19, se desenvolvem uma imunidade duradoura – e, em última análise, durante quanto tempo é que as pessoas doentes devem permanecer em isolamento.

Até agora, nos casos em que os sintomas são aparentemente duradouros, a reinfeção não parece ser a causa. Os Centros de Controlo e Prevenção de Doenças da Coreia do Sul rastrearam recentemente os contactos de 285 pacientes que testaram positivo depois de um resultado PCR negativo. O estudo não encontrou evidências de que algum dos pacientes pudesse transmitir o vírus a outras pessoas, ou que tinham sofrido uma reinfeção pelos contactos de proximidade.

“Quando os vírus infetam células de vida longa, como os neurónios, o sistema imunitário não se pode dar ao luxo de as destruir.”

“Geralmente, quando as pessoas recuperam de infeções virais agudas, a resposta imunitária mata as células afetadas para eliminar o vírus”, diz Diane Griffin, virologista da Escola de Saúde Pública John Hopkins Bloomberg. Mas quando os vírus infetam células de vida longa, como os neurónios, o sistema imunitário não se pode dar ao luxo de as destruir. “Isto significa que não nos livramos de todo o genoma do vírus”, diz Diane; em vez disso, o vírus consegue esconder-se em partes do corpo durante longos períodos de tempo.

Se assim for, esta persistência pode ser realmente a chave para uma imunidade a longo prazo. Diane diz que, mesmo que o vírus não se esteja a espalhar de forma abundante, mas se as suas proteínas ainda estiverem a ser produzidas num pequeno número de células, os fragmentos podem forçar o corpo a manter uma resposta imunitária – impedindo que adoeçamos novamente.

O mesmo acontece com infeções como o sarampo, onde os neurónios de vida longa não são um alvo importante. Nos estudos feitos com macacos, Diane encontrou RNA viral em células do sistema imunitário – chamadas linfócitos – durante seis meses após uma aparente recuperação. E o vírus consegue persistir ainda mais tempo nas células humanas, diz Diane. Mas o sarampo produz imunidade para o resto da vida de uma pessoa, e Diane suspeita que o RNA persistente possa ajudar a explicar este efeito.

Há outros cientistas que concordam com esta opinião. “Alguns aspetos do sistema imunitário são como são porque somos infetados de forma crónica”, diz Skip Virgin, vice-presidente executivo e diretor científico da empresa de biotecnologia Vir.

Avindra Nath, diretor clínico do Instituto Nacional de Distúrbios Neurológicos dos Institutos Nacionais de Saúde dos EUA, diz que uma “possível função imunitária persistente” pode ser prejudicial para os pacientes com COVID-19 e que pode desempenhar um papel nas chamadas tempestades de citocina – processo onde o sistema imunitário fica excessivamente ativo e é prejudicial. Estas respostas imunitárias podem ajudar a explicar as possíveis reincidências e algumas das complicações emergentes a longo prazo, diz Avindra, que começou a desenvolver um estudo a longo prazo sobre este tópico.

Porém, há indivíduos que podem exibir diversos níveis de persistência viral e de imunidade, e isto pode dificultar o desenvolvimento e a implantação de uma vacina. “A mesma partícula viral não terá o mesmo efeito em todas as pessoas”, diz Santosh Vardhana, oncologista do Centro de Oncologia Memorial Sloan Kettering. É por isso que existem tão poucas vacinas que ofereçam uma imunidade universal, diz Vardhana, que está a investigar a forma como a imunidade adaptativa pode ajudar os pacientes com COVID-19.

Esta variedade de respostas imunitárias também pode dificultar as recomendações sobre o tempo que as pessoas doentes devem permanecer em isolamento. Atualmente, o CDC dos EUA recomenda que os casos de COVID-19 permaneçam em isolamento durante 10 dias após o início da doença, e três dias depois da febre desaparecer. Se a pessoa não tiver sintomas, a janela de 10 dias tem início após um resultado positivo nos testes para a COVID-19.

Vardhana diz que, “seja para desenvolver uma vacina, ou para tratar melhor os pacientes, precisamos de pensar na resposta imunitária à COVID com mais complexidade”.

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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