Troglomyces twiterii: Nova Espécie de Fungo Descoberta Através do Twitter

Troglomyces twiterii é um fungo que só existe na América do Norte, descoberto num mil-pés, por uma bióloga portuguesa na rede social Twitter.

Thursday, June 25, 2020,
Por National Geographic
Uma espécie de milípede fotografada na Quinta dos Malvedos, no Porto.

Uma espécie de milípede fotografada na Quinta dos Malvedos, no Porto.

Fotografia de Joel Sartore, National Geographic Photo Ark

Já sabemos que o poder das redes sociais é de longo alcance. Nestas redes, como o Facebook, Instagram, Twitter, entre outras, as pessoas conversam, interagem e partilham as notícias do mundo em constante mudança.

É habitual muitos cientistas utilizarem o Twitter para promover e partilhar pesquisas, assim como fazem algumas revistas científicas como a PLOS Biology, demonstrando a sua eficácia num estudo publicado em 2013.

Se noutras situações as fotografias em bancos de dados online como o iNaturalist já haviam divulgado imagens de novas espécies de insetos, plantas, novos hospedeiros e parasitas, agora conduziram a uma nova descoberta.

O fenómeno das partilhas
O efeito das partilhas, que inclusive promove a interação entre amadores e cientistas, conduziu à descoberta de uma nova espécie científica, resultado de uma observação casual de uma fotografia partilhada.

Pela partilha de Derek Hennen na sua conta de Twitter, a bióloga Ana Sofia Reboleira, que trabalha no Museu de História Natural da Dinamarca e é docente na Universidade de Copenhaga, identificou, num mil-pés, um fungo agora batizado de Troglomyces twiterii, numa referência à rede social onde foi descoberto.

Após a partilha, que se tratava de um mil-pés do género Cambala, característico pela disposição peculiar dos seus olhos, a bióloga reparou na presença de um fungo a parasitar o milípede, apenas presente na América. Derek Hennen acabou por fornecer uma cópia com melhor resolução da mesma imagem para uma melhor análise.

Com a descoberta, Ana Sofia Reboleira e Henrik Enghoff, da Universidade de Copenhaga, analisaram microscopicamente os exemplares do género de mil-pés, confirmando então a descoberta. A investigação contou também com a colaboração do professor Sergi Santamaria, da Universidade Autónoma de Barcelona. A equipa colabora frequentemente no estudo destes fungos em mil-pés, tendo descoberto, desde 2014, mais de 23 novas espécies de fungos que vivem exclusivamente nestes animais.

Durante a última década, o número de espécies associadas a milípedes aumentou de 8, antes de 2014, para um total de 30 espécies coletadas na Europa, Macaronésia, Médio Oriente, África, Sudeste Asiático, Indonésia, Austrália e Nova Zelândia. Até ao momento ainda não tinham sido relatadas espécies americanas.

As características do Troglomyces twiterii
Este parasita combina gerações sucessivas de adultos que se sobrepõem no tempo. As suas populações são grandes e estáveis, e habita em ambientes húmidos. Depende do seu hospedeiro, que é artrópode, para sobreviver, e vive numa relação de dependência similar à dos vírus relativamente aos seus hospedeiros.

Contudo, contrariamente aos vírus, este parasita tem o seu próprio metabolismo e reproduz-se por si mesmo. O fundo ectoparasito da ordem Laboulbeniales, encontra-se em três espécies de mil-pés.

A maioria das quase 2200 espécies conhecidas de hospedeiros Laboulbeniales são insetos, principalmente Coleoptera e Diptera, mas também outros artrópodes como ácaros, centopeias e opiliões.

Os Laboulbeniales são fungos associados a artrópodes altamente especializados. A sua investigação é negligenciada, porque geralmente se desconhece a sua presença, em parte devido ao seu tamanho pequeno e à falta de colaboração entre entomologistas e micologistas. O estudo também é dificultado por questões técnicas como a dificuldade em isolar o seu ADN.

A transmissão do parasita ocorre pelo contacto próximo entre hospedeiros, no qual o novo hospedeiro fica infetado pela dispersão de ascósporos com apenas duas células, dentro de um envelope gelatinoso que adere facilmente à superfície do novo hospedeiro.

Os artrópodes vulgarmente conhecidos por mil-pés desempenham um papel importante na decomposição da matéria orgânica acima e abaixo do solo. Têm pouca capacidade de dispersão e apresentam altos padrões de endemismo, convertendo-se em excelentes modelos para o estudo dos padrões biogeográficos de Laboulbeniales.

A bióloga responsável pela descoberta
Ana Sofia Reboleira conta com um vasto currículo como professora associada no Museu de História Natural da Dinamarca, da Faculdade de Ciências da Universidade de Copenhaga, desde 2017, professora associada convidada na Universidade Macquarie, em Sydney, no ano de 2018, professora convidada na Universidade de Harvard em 2016, e investigadora externa na Universidade de La Laguna, em Espanha, desde 2012.

O seu interesse por entender a vida em ecossistemas subterrâneos levou a que fosse apelidada “mulher das cavernas”, aquando da descoberta do mil-pés mais profundo do planeta.

Continuar a Ler