Última Refeição de Dinossauro ‘Blindado’ Preservada com Detalhes Impressionantes

Os conteúdos intestinais fossilizados revelam detalhes da vida quotidiana desta criatura pré-histórica – incluindo a estação do ano em que morreu.

Friday, June 12, 2020,
Por Michael Greshko
Há cerca de 110 milhões de anos, onde agora fica o noroeste de Alberta, no Canadá, ...

Há cerca de 110 milhões de anos, onde agora fica o noroeste de Alberta, no Canadá, um nodossauro Borealopelta markmitchelli comeu fetos numa paisagem recentemente queimada – esta imagem detalhada foi conseguida através de um novo estudo sobre o seu conteúdo estomacal.

Fotografia de Julius Csotonyi (ILUSTRAÇÃO)


Num dia de verão, há 110 milhões de anos, um dinossauro ‘blindado’ pode ter deambulado pelos resquícios de um incêndio, onde agora fica Alberta, no Canadá, e devorou os delicados fetos verdes que ainda espreitavam pelo meio das cinzas. Pouco tempo depois, o dinossauro morreu num rio desta paisagem do Cretáceo e acabou por ser arrastado para o mar. A criatura permaneceu sepultada nos sedimentos marinhos até 2011, ano em que um mineiro de areias petrolíferas descobriu por acaso os seus restos mortais: o dinossauro mais bem preservado do seu género alguma vez encontrado.

Este fóssil já tinha revelado informações sobre a aparência e a forma de funcionamento das estruturas endurecidas dos dinossauros blindados. Agora, os cientistas que estudam este extraordinário fóssil fizeram uma nova descoberta: uma bola de matéria vegetal nos intestinos do dinossauro que, para além de revelar a dieta do animal, também oferece detalhes sobre a estação do ano em que morreu.

Esquerda: O conteúdo intestinal do Borealopelta inclui seixos que o dinossauro ingeriu para ajudar a desfazer a comida.
Direita: Os cientistas embeberam alguns dos fragmentos do conteúdo intestinal em resina e conseguiram cortá-los para os estudar ao microscópio, revelando milhares de fósseis minúsculos de plantas.

Fotografia de Museu de Paleontologia Royal Tyrrell (esquerda) e Museu de Paleontologia Royal Tyrrell (direita)

“O excelente estado de preservação permite-nos realmente dizer algo sobre os conteúdos estomacais”, diz o autor principal do estudo, Caleb Brown, curador de dinossauros do Museu de Paleontologia Royal Tyrrell de Alberta.

A investigação, parcialmente financiada pela National Geographic Society, foi publicada no dia 3 de junho na Royal Society Open Science e revela uma visão sem precedentes do mundo em que este enorme dinossauro herbívoro viveu – incluindo pedaços de carvão que ingeriu.

“Isto revela uma imagem bastante sugestiva do ambiente por onde este dinossauro andou” diz Victoria Arbour, curadora de dinossauros do Museu Royal BC do Canadá. “Conseguimos perspetivar os eventos específicos que aconteceram na vida deste dinossauro, e eu penso que isso é deveras fascinante.”

Refeição pré-histórica
Em geral, é raro encontrar conteúdos intestinais fossilizados. E os fósseis que preservam inequivocamente as últimas refeições de herbívoros são ainda mais raros. As condições químicas que preservam os ossos também costumam desfazer as matérias vegetais, e os materiais das plantas podem frequentemente ficar incorporados no corpo de um animal durante a fossilização, dificultando a avaliação entre o que foi uma refeição e o que é preenchimento. Até agora, só foi encontrado outro dinossauro blindado, o Kunbarrasaurus australiano, com matéria vegetal digerida no estômago. Mas o dinossauro de Alberta, o Borealopelta markmitchelli, era maior, com cerca de cinco metros e meio de comprimento e quase 1360 quilos em vida, e o seu conteúdo estomacal está em melhor estado de preservação.

O Borealopelta era um nodossauro, um tipo de dinossauro blindado que, ao contrário do seu parente mais conhecido, o anquilossauro, não possuía uma massa óssea na cauda. Este nodossauro viveu há cerca de 110 milhões de anos onde atualmente fica o noroeste da América do Norte. E fossilizou em circunstâncias notáveis: de alguma forma, o animal acabou por morrer num rio e foi arrastado durante mais de 160 km até uma passagem que antigamente dividia a América do Norte em dois, desde o Golfo do México até ao Oceano Ártico.

A improvável zona de descanso final do dinossauro no mar, onde agora fica o norte de Alberta, preservou o seu corpo com detalhes impressionantes. Para além da armadura óssea permanecer intacta, muitos dos revestimentos de queratina que a cobriam também fossilizaram. Estas pistas estão a ajudar os cientistas a descortinar a aparência das placas do dinossauro e o seu funcionamento, e também fornecem possíveis evidências sobre a cor da pele. (Explore virtualmente em 3D o Borealopelta, incluindo os conteúdos estomacais do fóssil.)

O Borealopelta foi retirado do seu túmulo de pedra em 2011, quando uma escavadora da empresa Suncor, na Mina Millennium, uma exploração de areias petrolíferas no norte de Alberta, descobriu o fóssil durante as operações de escavação. Uma equipa do Museu de Paleontologia Royal Tyrrell de Alberta voou até ao local para escavar o fóssil, e Mark Mitchell, preparador do museu, passou os seis anos seguintes a remover meticulosamente o excesso de rocha com ferramentas manuais. O nome da espécie do dinossauro é markmitchelli em sua homenagem.

Quando o Borealopelta foi apresentado ao mundo em 2017, os cientistas ficaram maravilhados com o seu estado de preservação. Brown e o seu colega Don Henderson, curador de dinossauros do Museu Royal Tyrrell, suspeitavam que o fóssil ainda podia ter conteúdos estomacais. O lado esquerdo da cavidade torácica do dinossauro apresentava uma massa curiosa de seixos multicoloridos, exatamente na zona do estômago. Brown e Henderson usaram pequenos pedaços que se soltaram desta secção, embeberam-nos em resina e cortaram-nos em lâminas finas para os examinarem ao microscópio.

Horas depois de o Borealopelta ter desfrutado da sua última refeição, acabou por ser arrastado para o mar. O local de repouso submarino do dinossauro, onde agora fica o norte de Alberta, preservou a sua armadura – e os conteúdos estomacais – com detalhes extraordinários.

Fotografia de Robert Clark, Nat Geo Image Collection

Os dois investigadores reconheceram imediatamente os pedaços de matéria vegetal fossilizada, incluindo pedaços de folhas preservadas ao nível celular e os poros usados para absorver o dióxido de carbono. Mas Brown e Henderson são especialistas em dinossauros, não em plantas. Por isso, em 2017, contataram Jim Basinger e David Greenwood, dois dos especialistas mais experientes em plantas antigas na região oeste do Canadá.

“Como era esta paisagem? As plantas funcionam como uma máquina do tempo”, diz Greenwood, paleobotânico da Universidade Brandon. “Chovia muito? Era sazonalmente seco? Congelava no inverno? E claro, com este estudo, o que é que este dinossauro comia?”

Perscrutar as entranhas de um dinossauro
Entre meados de 2017 e finais de 2018, a equipa fez análises, liderada por Cathy, a esposa de Greenwood, uma especialista que catalogou minuciosamente milhares de fragmentos fósseis de plantas. Para compreender de forma mais apurada o ambiente em que o Borealopelta viveu, a equipa também analisou fósseis de plantas da Formação Gates, uma série de leitos de carvão que se formaram no oeste de Alberta na época de vida do Borealopelta.

Durante o Cretáceo, o clima no norte do Canadá era muito mais húmido e quente do que é agora, e a paisagem estava coberta de florestas exuberantes e de clareiras que tinham uma folhagem muito diferente da que se encontra atualmente na região – que agora está coberta por campos de trigo e florestas. Há 110 milhões de anos, as plantas com flor estavam a começar a espalhar-se e eram raras. As florestas eram dominadas por coníferas e por plantas parecidas com palmeiras, chamadas cycadeoids, e a vegetação rasteira era preenchida por fetos e pteridófitas.

Através da comparação entre os fósseis de plantas da Formação Gates e os do Borealopelta, a equipa concluiu que o animal de membros curtos procurava plantas de crescimento rasteiro. Mas, para surpresa dos investigadores, grande parte da sua dieta parecia englobar um tipo específico de fetos, ignorando outras vegetações disponíveis. Para além disso, cerca de 6% do conteúdo intestinal era composto por pedaços de carvão vegetal, um possível sinal de que o Borealopelta estava a pastar numa zona em crescimento que tinha sido recentemente atingida por incêndios.

E outras pistas encontradas nos anéis das árvores dos galhos que o Borealopelta comeu sugerem que o dinossauro ingeriu plantas que estavam a meio do processo de crescimento – algo que teria durado entre o final da primavera e o pico do verão. Os fetos que o Borealopelta comeu tinham esporângios maduros, que são os órgãos que expelem esporos na parte inferior das folhas. Analisados em conjunto, os dados sugerem que o Borealopelta comeu a sua última refeição entre o início e meados do verão – e morreu poucas horas depois.

Antigamente, os investigadores especulavam que os dinossauros blindados preferiam fetos e outras plantas de crescimento rasteiro, e que os animais de maxilares estreitos, como o Borealopelta, selecionavam a folhagem como acontece com os veados modernos. Agora, este novo fóssil vem confirmar essas teorias do passado, para além de estabelecer um padrão de avaliação para futuros conteúdos intestinais em estado fóssil.

“Este é um espécime em particular, e temos apenas uma fração de tempo ao longo de toda a sua vida, portanto não sabemos se é representativo”, diz Brown. “Mas, em teoria, se tivéssemos mais espécimes como este poderíamos identificar as diferenças entre uma dieta de verão e uma de inverno.”

O fóssil de Borealopelta de Alberta ainda pode ter mais segredos para revelar. O animal foi arrastado para o mar, pelo que os investigadores não sabem exatamente onde é que o dinossauro viveu – mas a equipa não tem apenas matéria vegetal, também tem seixos que o dinossauro engoliu para ajudar a desfazer a comida, chamados gastrólitos, como acontece com as aves da atualidade. Os cientistas sabem que os dinossauros como o Borealopelta viveram na Formação Gates – porque existem pegadas fósseis – e os testes químicos ainda podem rastrear os seixos presentes nos intestinos do dinossauro até aos seus afloramentos específicos.

Mesmo sem estes detalhes adicionais, o Borealopelta continua a oferecer uma visão impressionante de um dia de verão de há mais de 100 milhões de anos. “Nós habituámo-nos a encarar os [dinossauros] como coisas mortas, não como seres vivos”, diz Basinger, paleobotânico da Universidade de Saskatchewan. “Esta é uma forma muito importante de relembrar às pessoas que estamos a lidar com coisas que vagueavam pela paisagem e que comiam coisas... e que não são apenas ossos num museu.”

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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