A Forma Surpreendente Como a Nostalgia nos Pode Ajudar a Lidar Com a Pandemia

Outrora considerada uma disfunção cerebral provocada por ruídos, a nostalgia está a ser adotada devido aos seus benefícios psicológicos em tempos de crise.

Friday, July 31, 2020,
Por Nicole Johnson
Uma gravura de 1778 mostra quatro mercenários suíços – alguns dos primeiros objetos de estudo de ...

Uma gravura de 1778 mostra quatro mercenários suíços – alguns dos primeiros objetos de estudo de relatórios médicos sobre nostalgia – a repousarem durante um momento de tranquilidade.

Fotografia de MUSEU NACIONAL SUÍÇO

Desde o início da pandemia de COVID-19 que Mary Widdicks, uma mãe solteira, ficou em casa com os seus três filhos pequenos, três cães e três gatos. Depois de meses com os filhos a estudarem em casa, enquanto Mary Widdicks também trabalhava em casa, ela sentiu que os dias se estavam a tornar todos iguais. Em finais de maio, Mary Widdicks colocou as crianças no carro e seguiu para o Harvest Moon Twin Drive-in, em Gibson City, no Illinois. Fã de longa data de cinema, Widdicks apreciou a pausa no confinamento, bem como as vibrações dos anos 1950 do local, que inclui intervalos com publicidade antiga de um cachorro-quente a dançar.

“A primeira vez que fui a um drive-in tinha nove anos, exatamente a idade que a minha filha mais velha tem agora”, diz Mary Widdicks. “Havia algo de incrivelmente reconfortante em contar histórias aos meus filhos sobre como eu tinha feito exatamente o mesmo quando tinha a idade deles.”


À medida que os cinemas e outras opções de entretenimento familiar encerravam devido ao coronavírus, os drive-in tiveram um ressurgimento, com versões improvisadas a surgirem por todo o país em parques de estacionamento de restaurantes e centros comerciais. Para muitos pais e avós, estes lugares permitem partilhar uma das alegrias da sua infância. Mas a ascensão dos drive-in é apenas uma das formas pelas quais abraçámos a nostalgia durante a pandemia.

“Acredito que muitas pessoas se estão a virar para a nostalgia, mesmo que não se apercebam disso conscientemente, como uma força estabilizadora e uma forma de ter em mente o que mais prezam”, diz Clay Routledge, professor de psicologia da Universidade Estadual de Dakota do Norte e autor de Nostalgia: A Psychological Resource.

Um estudo recente, que acompanha os efeitos da COVID-19 nas opções de entretenimento, revela que mais de metade dos consumidores encontrou algum tipo de conforto a revisitar os programas de televisão e as músicas da sua juventude. As reuniões virtuais online do elenco de séries como Táxi, Twin Peaks e Melrose Place oferecem um regresso às personagens queridas do passado. E cada vez mais estamos a adotar a nostalgia através de jogos de tabuleiro, na moda e até nos sonhos que temos durante a pandemia.

Krystine Batcho, professora de psicologia no Le Moyne College em Syracuse, Nova Iorque, encara o ressurgimento da nostalgia durante a COVID-19 como uma resposta natural. “Geralmente, as pessoas encontram conforto na nostalgia durante períodos de perda, ansiedade, isolamento ou de incerteza.”

A definição moderna de nostalgia é: “Um desejo sentimental ou um afeto melancólico pelo passado, tipicamente durante um período ou num local com associações pessoais de felicidade”. Mas a história da nostalgia é muito menos agradável e muito mais complexa. Outrora considerada uma doença, com opções de tratamento estranhas e potencialmente prejudiciais, a ciência mudou a visão que tinha sobre a nostalgia na última metade do século XX, e os estudos feitos nas últimas décadas revelam os seus efeitos psicológicos – bons e maus.

Chocalho ensurdecedor
Várias pessoas tentaram descrever clinicamente este sentimento específico de saudade e de mágoa a partir dos anos 1600, incluindo um diagnóstico médico que apareceu no final da Guerra dos Trinta Anos na Europa (1618-1648) que apelidou o fenómeno de el mal de corazon, que se traduz para “o mal do coração”. Mas foi o estudante de medicina suíço Johannes Hofer quem realmente cunhou o termo “nostalgia” na sua dissertação de 1688, combinando duas palavras gregas: nostos (“regresso a casa”) e algos (“dor”).

Johannes Hofer estudou os efeitos da nostalgia em mercenários suíços e concluiu que era uma “doença cerebral provocada essencialmente por razões demoníacas”. E descreveu os sintomas de nostalgia, que incluíam um desejo obsessivo pelo lar, perda de apetite, palpitações, insónia e ansiedade. Johannes Hofer acreditava que a obsessão pelos lares que os mercenários deixavam para trás permitia que os espíritos de animais entrassem nos seus cérebros e provocassem danos. Mais tarde, médicos militares suíços sugeriram que a nostalgia era causada pelo toque ensurdecedor dos chocalhos nos Alpes, que danificava as células cerebrais e os tímpanos dos soldados de forma a desencadear sintomas perigosos.

A nostalgia foi encarada como uma aflição neurológica durante os séculos XVII e XVIII. A determinada altura, alguns médicos pensaram que a presença de um “osso patológico” no corpo era a causa da nostalgia, embora nunca tenha sido localizado, é claro. Só no século XIX é que a ciência médica categorizou a nostalgia como uma aflição da psique.

A comunidade médica da época considerou a nostalgia um distúrbio psicopatológico – uma forma de depressão e melancolia. Quando os imigrantes inundaram os Estados Unidos nos séculos XIX e XX, os médicos referiam-se à nostalgia como “a psicose do imigrante” devido ao facto de as pessoas terem saudades dos seus países de origem enquanto tentavam processar a vida num país novo.

Ao longo dos séculos, os tratamentos para a nostalgia variaram entre opções tolas e mortíferas. Os pacientes resistiram a sanguessugas, purgas estomacais, hemorragias, ópio, “emulsões hipnóticas quentes”, assédio, ameaças, danos corporais e inclusive a morte. Em 1733, um general russo ameaçou que qualquer pessoa ao seu comando que sucumbisse às garras dos anseios nostálgicos seria enterrada viva. Quando este general cumpriu a sua promessa, os soldados deixaram de lado o passado e concentraram-se no presente demasiado real do campo de batalha.

Amortecedor existencial
Na segunda metade do século XX, a forma como o mundo olhava para a nostalgia mudou. Por um lado, os investigadores de marketing e publicidade começaram a documentar o poder da nostalgia nas preferências por produtos de consumo, de acordo com Clay Routledge.

“As investigações empíricas também foram muito importantes para esta alteração, pois a antiga visão da nostalgia enquanto doença baseava-se em especulações teóricas e observações não científicas”, diz Clay Routledge.

Em 1995, Krystine Batcho, do Le Moyne College, iniciou o Nostalgia Inventory, uma sondagem com mais de 200 participantes projetada para medir com que frequência e o quão profundamente as pessoas se sentiam nostálgicas. Os resultados ajudaram a preparar o terreno para as investigações cientificamente sólidas, e os benefícios psicológicos começaram a emergir.

Um conjunto de estudos publicados em 2013 descobriu que “a nostalgia neutraliza a falta de sentido que os indivíduos sentem quando estão entediados”. E uma revisão feita em 2018 concluiu que a nostalgia atua como um amortecedor contra as ameaças existenciais. A saudade é uma forma de nos oferecer esperança e inspiração, diz Clay Routledge.

“A nostalgia mobiliza-nos para o futuro. Aumenta o nosso desejo de alcançar objetivos importantes na vida e a confiança de que os conseguimos alcançar.”

Embora a nostalgia ofereça vários benefícios psicológicos, há possíveis desvantagens em ficarmos agarrados ao passado. Um estudo de 2012 publicado no European Journal of Social Psychology descobriu que as pessoas com “um forte hábito de preocupação”, quando expostas a algum tipo de estímulo nostálgico, “exibiam sintomas aumentados de ansiedade e depressão”, em comparação com as do grupo de controlo.

Krystine Batcho diz que é improvável que a nostalgia provoque depressão ou ansiedade, mas “uma pessoa que está clinicamente deprimida ou afetada por um transtorno de ansiedade pode ter mais probabilidades de ‘se perder’ na nostalgia, ficando presa no devaneio nostálgico como uma forma de escape”.

As diversas formas de nostalgia
Um fator crucial para se determinar se a nostalgia é uma força positiva ou negativa reside no tipo de nostalgia que uma pessoa está a sentir.

Os psicólogos reconhecem atualmente um tipo benéfico, chamado nostalgia pessoal, que acontece quando um indivíduo recorda detalhes do seu próprio passado, muitas vezes desencadeados por mudanças na vida e marcos como licenciaturas e casamentos. Por outro lado, a nostalgia histórica está ligada à valorização de aspetos de um período que aconteceu antes do nascimento de uma pessoa e reflete um nível de insatisfação com o que está a acontecer no presente.

“A nostalgia pessoal costuma estar associada a benefícios psicológicos, como o combate à solidão, promoção de sentimentos de pertença e estratégias saudáveis de sobrevivência”, explica Krystine Batcho. O mesmo não se pode dizer da nostalgia histórica.

A falecida Svetlana Boym, académica literária e professora, também definiu dois tipos de nostalgia – restauradora e reflexiva – no seu livro The Future of Nostalgia. A diferença está na forma como estes dois tipos de nostalgia olham para o passado, diz Hal McDonald, professor de línguas e literatura na Universidade Mars Hill, na Carolina do Norte.

“A nostalgia restauradora olha para trás com saudade – com inveja do passado e com o desejo de o recriar ou reviver no presente”, diz Hal McDonald. Portanto, a nostalgia restauradora permite que as pessoas fiquem presas no passado e anseiem por isso de uma forma que é derrotista e potencialmente prejudicial. “A nostalgia reflexiva, por outro lado, desfruta do passado com o pleno conhecimento de que é, de facto, passado e que nunca mais poderá ser revivido.”

Atualmente, com tantas investigações empíricas sobre nostalgia, os cientistas e profissionais de saúde estão a encontrar formas de a usar como tratamento médico. A terapia de reminiscência, que a Associação Americana de Psicologia define como “a utilização de histórias de vida – escritas, orais ou ambas – para melhorar o bem-estar psicológico”, usa fotografias e música para ajudar pessoas com Alzheimer e com outras doenças cognitivas e neurodegenerativas. Em 2018, os Centros Familiares George G. Glenner Alzheimer abriram a Town Square em Chula Vista, na Califórnia – uma recriação de uma cidade dos anos 1950, onde se usa a terapia de reminiscência para fortalecer as memórias dos pacientes com demência.

Para já, seja a ouvir músicas antigas ou a regressar às maravilhas da infância, a nostalgia parece estar a oferecer às pessoas uma forma de lidar com a pandemia. Mary Widdicks acrescenta que está grata porque o regresso a um dos seus passatempos favoritos também trouxe conforto aos seus filhos. “A minha filha chegou até a dizer que um dia também quer levar os seus filhos a um drive-in, e que me iria convidar.”

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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