COVID-19: Grupos de Maior Risco Podem Ter Menos Propensão Para Responder a Uma Vacina

Os sistemas imunitários envelhecidos podem ser problemáticos para qualquer candidato a vacina, mas existem formas de superar este obstáculo.

Wednesday, July 22, 2020,
Por Roxanne Khamsi
Jenny Nelle, residente de um centro de idosos da AWO, em Kassel, na Alemanha, mede a ...

Jenny Nelle, residente de um centro de idosos da AWO, em Kassel, na Alemanha, mede a sua temperatura corporal.

Fotografia de SWEN PFÖRTNER, PICTURE ALLIANCE VIA GETTY IMAGES

Se quisermos identificar um órgão essencial no combate à COVID-19 – e para compreendermos porque é que esta doença é tão difícil para as pessoas mais idosas – basta passarmos um dedo pelo nosso peito até ao esterno. Aninhada atrás do osso, e entre os pulmões, está a glândula que cativou a curiosidade de Edith Boyd nos anos 1930: o timo.

Edith Boyd queria perceber como é que o envelhecimento afetava o tamanho desta glândula, e perscrutou os dados de 10 mil autópsias recolhidos na Universidade do Minnesota, onde era professora assistente, e também analisou as informações recolhidas por cientistas de quatro países europeus. Edith confirmou um padrão interessante: o timo, do tamanho de um pacote de pastilhas nas crianças, parecia aumentar durante a puberdade – e depois encolhia de forma consistente.


Passaram-se mais 30 anos até que os cientistas conseguissem descobrir a função do timo; foi o último órgão importante a ter a sua função encontrada. É a fonte de células T, um conjunto importante de combatentes de agentes patogénicos, alguns dos quais também ajudam o sistema imunitário a produzir defesas adicionais, como os anticorpos.

Esta descoberta, juntamente com as informações de anatomistas como Edith Boyd, revelou finalmente porque razão as doenças infecciosas emergentes como a COVID-19 podem ser um duro golpe para os adultos mais velhos. O envelhecimento esgota o arsenal de células T adaptáveis – à medida que o timo se enche de tecido adiposo. O nosso sistema imunitário fica assim mal equipado para combater novos vírus. Uma análise feita no dia 17 de julho a mais de 50 mil mortes por coronavírus nos EUA descobriu que 80% eram pessoas com 65 anos ou mais.

“Devido à COVID-19, os investigadores têm de prestar mais atenção do que nunca à forma como as vacinas atuam nas pessoas mais velhas.”

O envelhecimento do timo também pode complicar o desenvolvimento de uma vacina para esta pandemia. As vacinas fornecem instruções ao nosso sistema imunitário, instruções que as células T ajudam a transmitir. Aos 40 ou 50 anos, o timo já esgotou grande parte da sua reserva de células do tipo T que conseguem aprender a reconhecer patógenos desconhecidos – e que “treinam” outras células imunitárias para os combater. Muitas das vacinas dependem destas células T.

Devido à COVID-19, os investigadores têm de prestar mais atenção do que nunca à forma como as vacinas atuam nas pessoas mais velhas. A Moderna Therapeutics, por exemplo, que publicou os primeiros resultados da fase 1 de testes da sua nova vacina mRNA, está a fazer um segundo estágio especificamente para os adultos com 55 anos ou mais.

“Até muito recentemente, grande parte do foco da comunidade de vacinas estava em salvar as vidas de crianças mais novas”, diz Martin Friede, coordenador da Organização Mundial de Saúde para a pesquisa e distribuição de vacinas. “Mas as pessoas que mais precisam da vacina podem ser na realidade as pessoas em que a vacina pode não funcionar.”

Os testes em indivíduos mais velhos também são cruciais, porque nem todos envelhecem da mesma forma, acrescenta Friede. Não se trata apenas do timo: Algumas pessoas podem estar a caminho do campo de golfe, enquanto que outras estão demasiado frágeis para andar – e estas diferenças na vitalidade individual podem traduzir-se em diferentes respostas à vacina.

Os laboratórios que desenvolvem medicamentos podem ajustar as suas vacinas para aumentar as probabilidades de proteção nas pessoas mais velhas. Mas fazer estas modificações – e fazer com que os céticos das vacinas as aceitem – pode ser complicado.

Estimular uma imunidade envelhecida
Os fabricantes de vacinas adquiriram alguma experiência com a “imunosenescência” – a disfunção do envelhecimento do sistema imunitário – ao lidar com a gripe. As pessoas mais velhas são mais suscetíveis a este fator e as vacinas contra a gripe normalmente protegem-nas menos.

Por exemplo, para ultrapassar esta situação, a gigante Sanofi Pasteur criou uma vacina contra a gripe chamada Fluzone – para as pessoas com 65 anos ou mais – que contém quatro vezes mais ‘antígeno’ estimulante do sistema imunitário, um componente molecular de um patógeno que pode levar o organismo a produzir anticorpos protetores. Um estudo de 2014 descobriu que esta versão de alta dosagem era 24% mais eficaz do que a dose regular.

Outra forma de aumentar a eficácia das imunizações contra a gripe nas pessoas mais velhas é através da utilização de adjuvantes – ingredientes adicionados que fazem com que as vacinas estimulem o sistema imunitário mais vigorosamente. A vacina Fluad, por exemplo, contém o adjuvante MF59, que é parcialmente derivado do esqualeno, um óleo natural produzido pela pele e pelas plantas.

Os adjuvantes são usados há cerca de um século nas vacinas, não apenas para a gripe ou para as pessoas idosas. Mas mesmo as versões testadas e comprovadas são consideradas perigosas pelas pessoas anti-vacinas.

Por exemplo, foi usado um adjuvante à base de esqualeno chamado AS03, da empresa farmacêutica GSK, numa vacina implantada contra a pandemia de gripe suína de 2009. A vacina foi retirada do mercado após surgirem relatos de narcolepsia na Escandinávia, e nunca fui comercializada nos Estados Unidos. Mas um estudo feito em 2014 pelos Centros de Controlo e Prevenção de Doenças dos EUA, com 1,5 milhões de pessoas, não encontrou ligações entre a vacina e a narcolepsia – mas os grupos anti-vacinas continuaram a culpar o adjuvante, alimentando a noção de que provocava reações imunitárias excessivas.

Os médicos receiam que esta desinformação sobre os adjuvantes possa fazer com que as pessoas hesitem em serem imunizadas com uma vacina contra a COVID-19.

“Os grupos anti-vacinas estão à procura de todos os motivos para negarem uma vacina”, diz Wilbur Chen, que dirige os estudos clínicos para adultos no Centro de Desenvolvimento de Vacinas e Saúde Global da Universidade de Maryland. “O tema agora reside em torno da perigosidade dos adjuvantes”, acrescenta.

Mas Chen alerta que os criadores de vacinas não se devem deixar levar por isto: “O problema acontece porque, quando lhes damos importância, damos inadvertidamente legitimidade às suas preocupações, e depois dizem que afinal era uma preocupação real e que foi por isso que mudámos as coisas.”

A GSK afirmou que vai produzir volumes enormes do adjuvante AS03 para ser potencialmente utilizado pelos parceiros que desenvolvem vacinas contra a COVID-19. A empresa diz que a narcolepsia que afetou algumas pessoas, após receberem a vacina contra a gripe suína, foi desencadeada por uma reação ao próprio vírus da gripe H1N1 que circulava entre a população.

O que é velho não é novo
A velhice nem sempre determina os resultados da COVID-19. As notícias falam de pessoas centenárias que venceram a doença e de adolescentes que estão a morrer. Um novo artigo publicado na revista Science documenta uma série de respostas imunitárias à COVID-19, independentemente da idade, incluindo uma que era essencialmente uma não-resposta.

Esta ausência de resposta entre algumas das pessoas mais idosas presentes no estudo “pode estar ligada à imunosenescência”, especula Michael Betts, imunologista da Escola de Medicina Perelman da Universidade da Pensilvânia e autor do estudo. “Algumas pessoas obtêm melhores resultados do que outras e, neste momento, não sabemos necessariamente quais são os motivos.”

A imunosenescência não se trata apenas de um esgotamento de determinadas células T. – também enfraquece a resposta imunitária “inata”, a linha da frente de defesa que o corpo estabelece contra os micróbios invasores, mesmo antes de produzir anticorpos capazes de reconhecer um antígeno específico.

Para piorar a situação, a imunosenescência não é o único desafio dos investigadores que tentam desenvolver vacinas COVID-19 para idosos. Há evidências crescentes de que muitos idosos têm outro problema – o seu sistema imunitário está ocupado com a luta contra vírus que lhes provocaram infeções ao longo da vida, como o geralmente benigno citomegalovírus (CMV).

“Quando observamos os idosos, por vezes 20% do seu sistema imunitário está direcionado para o CMV”, diz David Kaslow, vice-presidente do departamento de medicamentos essenciais da PATH, uma organização sem fins lucrativos sediada em Seattle. “Suprimir todos estes vírus tem um custo.”

Os cientistas chamam a este processo “infla-envelhecimento” – o sistema imunitário está essencialmente preso num estado inflamatório. Isto pode fazer com que seja mais difícil para o corpo detetar um novo patógeno como a COVID-19, ou fazer com que seja estimulado por uma vacina contra a doença.

“É basicamente o mesmo que estar numa sala com demasiado barulho e alguém pedir ajuda”, explica Friede. “Não conseguimos ouvir o pedido de ajuda.”

Os investigadores que estudam os problemas do envelhecimento imunitário em laboratório enfrentam outro problema peculiar: a escassez de ratos em idade avançada. Manter os ratos mais velhos é dispendioso para os fornecedores, portanto não costumam ter muitos animais em idade avançada.

“Tentei encomendar ratos mais velhos no final da semana passada ao nosso fornecedor habitual”, diz Byram Bridle, imunologista viral da Faculdade de Veterinária da Universidade de Guelph, no Canadá. “Eles não têm ratos mais velhos e iniciaram recentemente um programa para permitir que alguns dos ratos envelheçam. E só vão ter ratos com 18 meses de idade disponíveis para investigação em janeiro de 2021.”

Por fim, os investigadores de vacinas enfrentam o problema fundamental da COVID-19 – nunca nenhum tinha lidado anteriormente com o novo coronavírus. As outras vacinas que foram adaptadas para as pessoas idosas, incluindo as vacinas contra a gripe e herpes zóster, são essencialmente vacinas de reforço, diz Friede, porque todas as pessoas foram expostas à gripe e a maioria dos idosos teve varicela, o vírus que também provoca a herpes zóster.

Para além disso, devido à exposição ao longo de uma vida a outros coronavírus que provocam constipações ligeiras, os idosos podem já ter um repertório de anticorpos que são atraídos pelo SARS-CoV-2, o vírus que provoca a COVID-19. Isto pode impedir o corpo de projetar anticorpos adequados para o combater. “E pode até ser pior para uma infeção”, diz Betts.

Mas as infeções anteriores por estes germes também podem ser benéficas. Há novas evidências de que a exposição ao surto de SARS de 2003, ou aos coronavírus de animais, fez com que algumas pessoas ficassem com uma resposta de células T contra o SARS-CoV-2. É necessário um estudo mais amplo para determinar a extensão desta proteção e o que isso pode significar para uma vacina, dado que o vírus pode ser completamente novo para muitos dos sistemas imunitários.

“Para a COVID-19, provavelmente teremos de preparar a população contra algo que nunca enfrentou antes”, diz Friede.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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