O Silêncio nos Mares Devido à Pandemia Pode Reduzir o Stress e Melhorar a Saúde das Baleias

Os cientistas têm uma oportunidade rara para estudar um mundo marinho praticamente livre de humanos e das suas máquinas ruidosas.

Tuesday, July 21, 2020,
Por Craig Welch
Uma baleia-jubarte emerge nas águas quentes ao largo de Monterey Bay, na Califórnia.

Uma baleia-jubarte emerge nas águas quentes ao largo de Monterey Bay, na Califórnia.

Fotografia de Paul Nicklen, Nat Geo Image Collection

A pandemia acalmou as águas de Monterey Bay. As lanchas, os iates e os passeios de observação de baleias desapareceram. Os restaurantes e as docas encerradas mantiveram os barcos de pesca comercial longe do mar. As viagens de navios de cruzeiro também foram interrompidas.

No início deste ano, com os primeiros confinamentos devido ao coronavírus, Ari Friedlaender, cientista de baleias e Explorador National Geographic, viu uma oportunidade. Ari tinha acabado de regressar de um estudo de baleias na Antártida e encontrou poucos carros na estrada, praticamente nenhum barco na água e baleias-jubarte a chegarem à Califórnia vindas das suas zonas de reprodução de inverno no México. Um dos pontos de recreação costeira mais populares do estado da Califórnia estava agora subitamente livre dos ruídos produzidos pelos humanos que afetam as criaturas marinhas.


Ari Friedlaender obteve permissão para entrar nas águas de Monterey Bay. Enquanto as baleias-jubarte engordavam a comer sardinhas e anchovas, Ari recolheu rapidamente amostras de 44 baleias – amostras usadas para estudar os seus níveis hormonais, que aumentam e diminuem consoante o stress dos mamíferos marinhos.

Desde a Califórnia ao Alasca, incluindo as baías pantanosas do sul da Flórida, as disrupções provocadas pela pandemia de coronavírus estão a oferecer aos cientistas marinhos uma oportunidade única na vida para abordarem diretamente uma questão que muitos ponderam há décadas: Como é que a nossa vida ruidosa no mar altera realmente o mundo das criaturas marinhas?

Cacofonia nos mares
Não é segredo que o ruído humano pode afetar uma variedade de vida oceânica. Sabe-se que os sonares da Marinha provocam embolias nas baleias-de-bico, quando estas emergem rapidamente para fugir dos pulsos sonoros. O zumbido de baixa frequência dos navios de contentores abafa completamente as chamadas das baleias, fazendo com que muitos animais se mantenham em silêncio. E os botos-de-dall alteraram rapidamente os seus padrões de natação para evitar o ruído da passagem de navios.

Mas nos últimos anos os cientistas descobriram que o impacto do ruído no oceano não se limita aos cetáceos. O stress auditivo pode afetar focas, peixes, lulas – e até criaturas simples como ostras. Os motores de popa fazem com que alguns peixes castanheta parem de fugir do odor de predadores. Os ruídos podem fazer com que as vieiras fiquem com deformidades que reduzem as suas possibilidades de sobrevivência, afastam o bacalhau do Ártico das suas zonas de alimentação e obrigam cardumes de atum a dispersar, podendo alterar os seus padrões migratórios.

Mesmo a 800 metros de distância, o som de baixa frequência das armas sísmicas utilizadas no mapeamento do oceano e na prospeção de petróleo e gás pode matar por completo o minúsculo zooplâncton na base da cadeia alimentar oceânica, incluindo o krill larval que parece camarão.

Estas descobertas tornaram-se mais importantes à medida que a globalização gerou um aumento dramático no tráfego marítimo nos últimos 50 anos. De facto, aprendeu-se tanto sobre o impacto do ruído na vida marinha durante as últimas duas décadas que a Administração Oceânica e Atmosférica Nacional (NOAA) dos EUA adotou em 2016 um plano de 10 anos para mapear e estudar o aumento do ruído no oceano.

“Quase toda a vida subaquática depende do som”, diz Michelle Fournet, ecologista acústica da Universidade Cornell, que também dirige um grupo sem fins lucrativos de especialistas em ruído de vida selvagem, o Sound Science Research Collective. “Sabemos claramente que muitas das funções vitais ficam comprometidas quando está muito ruído.”

E, ao contrário da luz, o som move-se eficientemente pela água. Os hidrofones em Monterey Bay, que estão a centenas de metros de profundidade, conseguem detetar pingos de chuva na superfície do oceano. Na água, o estrondo provocado por um engenho chamado “bomba foca”, que os barcos de pesca comercial usam para afastar as focas e os leões-marinhos que atacam as suas redes cheias de lulas e anchovas, consegue viajar distâncias surpreendentemente grandes.

“Se estivermos no convés do nosso navio, só ouvimos um pequeno som abafado”, diz John Ryan, biólogo oceanográfico do Instituto de Pesquisa Monterey Bay Aquarium. Porém, debaixo de água, o som da detonação deste fogo de artifício consegue envolver a plataforma continental e mergulhar profundamente no Desfiladeiro Submarino de Monterey.

No entanto, compreender como é que todo este som pode afetar espécies individuais é uma tarefa complexa. As lanchas e os motores de popa criam sons agudos, ao passo que as grandes embarcações comerciais, como os enormes petroleiros e navios de contentores, criam sons de baixa frequência, como o ruído de fundo de uma cidade. Alguns sons que podem ser prejudiciais para uma espécie podem ser completamente inaudíveis para outra. Por exemplo, as baleias-azuis comunicam com alguns sons abaixo da frequência que os humanos conseguem ouvir, e os golfinhos conseguem emitir sons muito acima do nosso alcance auditivo.

Para compreender estas questões, a maioria das investigações sobre ruído oceânico era feita em laboratórios, ou em águas marinhas inundadas por sons humanos.

Até agora...

Silêncio – uma alteração monumental
Michelle Fournet estuda ecologia tropical e trabalha com uma equipa que colocou dispositivos de escuta subaquática na Baía da Flórida, no Parque Nacional Everglades. Nesta zona, Michelle rastreia o impacto do ruído nas trutas Cynoscion nebulosus, que comem camarão e peixe-sapo do Golfo – um pequeno peixe que vive na lama e que emite sons para atrair parceiros, que depois se aproximam e colocam ovos no ninho do macho.

Mas este ano Michelle está particularmente entusiasmada com o seu trabalho no sudeste do Alasca. Durante uma década, Michelle estudou o impacto do ruído produzido por enormes embarcações na comunicação das baleias-jubarte naquela região. Contudo, devido ao perigo de coronavírus, a presença de navios de cruzeiro e as visitas de observação de baleias em Juneau foram canceladas. As mudanças, diz Michelle, “são monumentais”.

A última vez que os cientistas conseguiram encontrar uma zona silenciosa para ouvir as baleias ao longo da Passagem Interior aconteceu durante três dias em 1976, quando o número das então ameaçadas baleias-jubarte tinha caído para cerca de 250 indivíduos. Agora, a população recuperou para os cerca de 3 a 5 mil indivíduos. “O que isto significa é que, para as baleias nascidas entre 1970 e agora, este será o primeiro verão tranquilo.” Será a primeira vez em que um número saudável de baleias pode comunicar sem perturbações – enquanto os cientistas escutam.

As baleias-jubarte são famosas pelas suas belas canções. Apesar de os machos em idade de acasalamento serem o grande destaque, as fêmeas e crias também comunicam com um repertório muito rico. As baleias gemem, rosnam e produzem sons que parecem gotas de água. Existem sons chamados “wup”, que se assemelham a um ronronar, e os “swops”, que parecem gargalhadas humanas. Outra das chamadas faz lembrar o som de um rodo a deslizar por uma superfície molhada.

Portanto, este ano, Michelle Fournet pediu aos seus colegas no Alasca para instalarem um hidrofone nas águas da capital de observação de baleias, Juneau, onde geralmente há demasiado ruído para se poder ouvir as baleias-jubarte. O objetivo passa por compreender como é a comunicação entre baleias quando os humanos e a sua maquinaria ruidosa não estão presentes.

Michelle acredita que a natureza destas interações acústicas vai mudar. Ela supõe que as baleias, que já não são abafadas pelo barulho dos barcos, podem ter formas mais complexas de comunicação.

“Se estivermos num concerto de música rock e tentarmos conversar com alguém, falamos mais alto, mais devagar e usamos palavras simples”, diz Michelle. Se estivermos a conversar enquanto tomamos chá no sofá da sala, tentamos transmitir pensamentos mais complexos. “Podemos usar uma linguagem muito mais rica e temos a capacidade de transmitir informações mais complexas nestas conversas.”

Menos stress para as baleias?
Em Monterey Bay, Ari Friedlaender está a tentar fazer algo um pouco diferente. Ari não está a tentar avaliar se as baleias alteram as suas comunicações ou movimentos. Ele está interessado no bem-estar geral dos animais. Será que o silêncio permite que as baleias tenham uma vida um pouco mais saudável – e será que os cientistas conseguem avaliar isso?

Os cientistas acreditam há muito tempo que o ruído está a aumentar os níveis de stress nas baleias. E sabem que o stress crónico pode ser tão perigoso para muitos animais como é para os humanos. Sabe-se que o stress crónico afeta o crescimento, a reprodução e a função do sistema imunitário, levando à morte precoce e ao declínio da população em espécies tão diversificadas quanto os lémures-de-cauda-anelada e as iguanas marinhas.

COMO OS OCEANOS SE TORNARAM HOSTIS PARA OS ANIMAIS

“Lá porque não vemos uma resposta comportamental, não significa que não existam consequências”, diz o colega de Ari Friedlaender, Brandon Southall, cientista de baleias que trabalhou durante anos na NOAA, em Washington D.C., colaborando diretamente com a Marinha dos EUA na investigação dos impactos do ruído na vida marinha.

Mas, apesar de recolherem regularmente amostras dos níveis de cortisol nas baleias, os cientistas raramente tiveram um grupo de controlo “de baixo ruído” apropriado para compararem os níveis hormonais. Talvez o grupo de controlo mais significativo até agora tenha surgido de uma coincidência trágica.

Durante os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001, dois grupos separados de cientistas estavam no mar da Baía de Fundy, no Canadá – um a fazer gravações de áudio de crias de baleias-francas-do-atlântico-norte e respetivas mães, e outro a recolher amostras fecais de baleias-francas-do-atlântico-norte. E os cientistas permaneceram no mar depois do tráfego de navios e aeronaves ter parado.

Os investigadores conseguiram demonstrar uma queda significativa nos níveis hormonais nas fezes das baleias, quando as águas ficaram fantasmagoricamente silenciosas. Nos anos que se seguiram, à medida que os níveis de ruído aumentaram, os cientistas descobriram que os níveis de stress nos animais tinham regressado aos níveis habituais.

Ari Friedlaender planeia regressar a Monterey Bay na próxima primavera para recolher mais amostras, dado que o tráfego de navios presumivelmente vai regressar ao normal. E como Ari também tem fotografias das barbatanas dorsais e caudais de muitos dos animais, vai tentar recolher amostras dos mesmos indivíduos. Como o instituto de pesquisa já tem um hidrofone na baía, a sua equipa pode conseguir correlacionar as diferenças nos níveis de stress devido às alterações nos ruídos produzidos pelos navios.

Ari espera que as suas descobertas espelhem o que aconteceu com o trabalho feito pelos cientistas depois do 11 de setembro. Mas os resultados podem ser um pouco diferentes porque os dois confinamentos de tráfego não são idênticos. Depois dos ataques de 11 de setembro, parou tudo – o tráfego de barcos e todo o tráfego aéreo. Na primavera de 2020, em Monterey Bay e noutros lugares, o tráfego de pequenas embarcações e de petroleiros parou, mas o tráfego de exportações marítimas continuou no mar.

“Só de olharmos para uma baleia não conseguimos perceber, mas estes animais são afetados pelo que fazemos”, diz Ari.

Este ano, Ari Friedlaender, Michelle Fournet e outros cientistas pelo mundo inteiro podem finalmente conseguir obter uma imagem mais detalhada do que está realmente a acontecer.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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