Por que Motivo Existem Sequer Casos Assintomáticos de COVID-19?

As autoridades de saúde estão preocupadas com o motivo pelo qual algumas pessoas que testam positivo para o coronavírus nunca se sentem doentes. Será que é uma bênção genética? Será que se deve à juventude? Ou será algo diferente?

Monday, July 27, 2020,
Por Sarah Elizabeth Richards
Estudantes de medicina cuidam de pessoas sem-abrigo num parque em Praga, durante a pandemia de COVID-19.

Estudantes de medicina cuidam de pessoas sem-abrigo num parque em Praga, durante a pandemia de COVID-19.

Fotografia de MILAN BURES, ANZENBERGER VIA REDUX

Os factos sobre a COVID-19 incluem esta realidade perturbadora: sabe-se muito pouco sobre quem está a propagar a doença.

Cerca de metade dos “propagadores furtivos” sente-se bem num sábado à noite – mas, quando na segunda-feira surgem os indícios reveladores, como tosse, febre e fadiga, podem potencialmente infetar várias pessoas. Enquanto isso, um grupo que pode ser ainda mais elusivo – pessoas infetadas com o coronavírus, mas que nunca se sentem doentes – são responsáveis por 40% das infeções nos Estados Unidos, segundo as estimativas dos Centros de Controlo e Prevenção de Doenças (CDC) dos EUA.


O que é particularmente intrigante é a razão pela qual estes dois grupos – os transmissores pré-sintomáticos e os casos assintomáticos – aparecem com tanta frequência. Os outros vírus, como a gripe e os que provocam constipações, também se propagam silenciosamente. Mas as características extremamente furtivas da COVID-19 dificultam o seu controlo.

Parte do problema deve-se ao facto de sabermos pouco sobre a forma como a doença se manifesta. Sabemos que as pessoas idosas, obesas ou com outras condições de saúde, como asma ou diabetes, têm mais probabilidades de desenvolver uma forma grave de COVID-19. Mas também é difícil compreender as razões pelas quais algumas pessoas infetadas conseguem escapar aos efeitos mais graves da doença.

Os investigadores estão apressadamente a tentar compreender a biologia destes casos furtivos e a desenvolver modelos que consigam prever como é que propagam a doença. As evidências emergentes sugerem que uma mistura entre genética, idade e individualidade no sistema imunitário de uma pessoa pode ser um fator para um caso ligeiro ou quase impercetível.

Difícil de avaliar
O maior desafio no estudo da transmissão assintomática é descobrir com que frequência isso acontece. Se não nos sentimos doentes, é provável que não façamos o teste, certo?

E mesmo em lugares onde se fizeram testes generalizados, como na China e na Islândia, é difícil obter dados confiáveis – talvez porque os estudos não acompanham os pacientes durante um período significativo de tempo após o teste, para se verificar se desenvolveram sintomas posteriormente. Um novo estudo publicado na Nature estima que 87% das infeções em Wuhan, na China, nos primeiros dias da pandemia, não foram detetadas porque as autoridades de saúde não sabiam da existência da disseminação pré-sintomática.

Em relação às pessoas que nunca se sentem doentes, não se sabe o quão contagiosas podem ser porque os investigadores têm dificuldades em documentar a sua transmissão. O CDC estima que os casos assintomáticos são cerca de 75% infecciosos – comparativamente aos sintomáticos – mas o centro alerta que esta suposição se baseia numa compreensão difusa do que se conhece por “derramamento viral”, no qual as pessoas, sem saberem, libertam vírus contagiosos na atmosfera.

Talvez as pessoas assintomáticas não sejam portadores de grandes quantidades de vírus, ou os seus sistemas imunitários se comportem como acontece com os morcegos. “Os morcegos têm estes vírus, mas não adoecem. Estes animais parecem ter uma resposta imunitária que lhes permite eliminar o vírus”, diz Stanley Perlman, professor de microbiologia e imunologia da Universidade de Iowa, na cidade de Iowa.

Estas teorias podem ajudar a compreender as novas investigações chinesas que mostram que, em geral, os indivíduos assintomáticos têm uma resposta imunitária mais fraca e produzem menos anticorpos, uma das armas do sistema imunitário.

Biologia desconcertante
Os investigadores também estão a tentar descobrir quem pode ter mais propensão para ficar infetado com uma “vertente furtiva” da COVID-19. Os jovens são geralmente poupados aos piores efeitos do vírus, de acordo com uma análise feita com cerca de 17.3 milhões de registos de saúde britânicos que relacionavam os riscos de morte do vírus à velhice.

Em relação à gravidade da doença, “o preditor mais poderoso é de longe a idade”, diz Paul Sax, diretor clínico da Divisão de Doenças Infecciosas do Hospital Brigham and Women's de Boston e professor de medicina na Faculdade de Medicina de Harvard. No entanto, o motivo é mais complicado do que o simples facto de as pessoas mais jovens serem geralmente mais saudáveis. Uma das teorias sustenta que as pessoas mais vulneráveis têm mais recetores ACE2, as portas celulares de entrada para o coronavírus. Os adultos mais velhos têm mais recetores ACE2 localizados por todo o corpo e no nariz, uma das grandes vias de entrada do vírus, do que os jovens. E as pessoas obesas também têm mais recetores ACE2.

“Os primeiros relatórios de Itália e Espanha alegam que alguns tipos sanguíneos aumentam o risco de hospitalização, mas outros estudos divulgados este mês contrariam essa ideia.”

Outra teoria que está ganhar força é a de que as pessoas mais jovens têm mais infeções virais respiratórias em geral; portanto, quando ficam infetadas com a COVID-19, o perigo é menor. “A exposição a múltiplos coronavírus oferece uma proteção parcial contra a COVID-19”, diz Sax. Um manuscrito revisto por pares, mas que ainda não editado, publicado em meados de julho na Nature, defende que as pessoas que recuperaram de determinados tipos de coronavírus podem ter “células T de memória” pré-existentes que afastam a COVID-19 ou que fazem com que tenham mais probabilidades de ter um caso ligeiro.

Outras investigações sugerem que as pessoas assintomáticas podem ter mais sorte em termos genéticos. Algumas pessoas têm variações nos genes ACE2 que as tornam mais suscetíveis à infeção pela proteína espigão da COVID-19, ou são mais propensas a inflamações, cicatrizes nos pulmões ou a vasos sanguíneos estreitos que as tornam mais vulneráveis à doença. Os primeiros relatórios de Itália e Espanha alegam que alguns tipos sanguíneos aumentam o risco de hospitalização, mas outros estudos divulgados este mês contrariam essa ideia.

Um pouco adoentado
Embora as pessoas infetadas com outras doenças conhecidas também as possam transmitir de forma assintomática, isso tende a ser esquecido entre os cientistas porque os estudos geralmente concentram-se nas pessoas que estão gravemente doentes.

Um estudo feito em 2019 tentou documentar esta disseminação silenciosa. O projeto testou 214 pessoas semanalmente em vários locais da cidade de Nova Iorque à procura de 18 vírus respiratórios diferentes, como a gripe, e uma série de germes que provocam constipações, incluindo alguns coronavírus. Ao longo de um ano e meio, os investigadores descobriram que 55% dos casos positivos eram assintomáticos, e para a maioria dos vírus, as taxas de infeção assintomática excederam os 70%.

No entanto, existe pouco consenso entre os investigadores, sobretudo entre aqueles que estudam a gripe, sobre o quão contagiosos são os casos silenciosos.

“Se houver menos casos assintomáticos verdadeiros do que pensamos, isso pode ter um impacto enorme nas nossas projeções e políticas de reabertura.”

por LAUREN ANCEL MEYERS, UNIVERSIDADE DO TEXAS EM AUSTIN

“Este debate arrasta-se há anos”, diz Ben Cowling, professor e chefe da divisão de epidemiologia e bioestatística da Escola de Saúde Pública da Universidade de Hong Kong. “Com a gripe, o período de incubação é de um a dois dias. A transmissão acontece rapidamente e a maioria dos casos é ligeira. Se encontrarmos pessoas com gripe e tentarmos rastrear como é que foram infetadas, é realmente difícil.”

Apesar dos desafios no rastreio da transmissão de COVID-19, Cowling diz que o período de incubação de 14 dias do coronavírus deu às autoridades de saúde mais tempo para ligar os pontos e tentar encontrar os casos assintomáticos. No entanto, o que é notável é que algumas pessoas, quando foram informadas de que estavam infetadas, concluíram que afinal não estavam completamente assintomáticas.

“Quando questionadas sobre os seus sintomas, perceberam que estavam a sentir qualquer coisa”, diz Cowling. “Há uma área cinzenta onde podemos sentir uma ligeira sensação de cócegas na garganta, ou dores de cabeça, e não sabemos se é um sintoma de uma infeção ou se é algo que aconteceu porque, por exemplo, não dormimos bem.”

Esta confusão sobre os sintomas clássicos da COVID-19 não é surpreendente, considerando que a lista dos sintomas está sempre a crescer. Agora, os sintomas incluem a perda de paladar ou de olfato, erupções cutâneas nos dedos dos pés e até problemas gastrointestinais, como náuseas ou diarreia. Um artigo publicado recentemente na Nature Medicine mostrava que as pessoas sem sintomas externos ainda podem sofrer danos nos pulmões.

Por outras palavras, o que os investigadores pensavam ser casos verdadeiramente assintomáticos, podem na realidade ser o que se conhece por paucissintomáticos, o que significa que os poucos sintomas são tão ligeiros que nunca se suspeita de uma infeção. “São coisas que nos fazem sentir de forma diferente, mas que não atribuímos à COVID-19”, diz Lauren Ancel Meyers, professora de biologia integrativa na Universidade do Texas em Austin, que estuda a modelagem de doenças.

Compreender melhor esta área cinzenta pode ser a chave para conter a propagação do vírus.

“Seria valioso perceber quais são os sintomas ligeiros comuns, para conseguirmos identificar e isolar mais rapidamente as pessoas”, diz Meyers. “Se houver menos casos assintomáticos verdadeiros do que pensamos, isso pode ter um impacto enorme nas nossas projeções e políticas de reabertura.

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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