Por Que Razão as Mutações Deste Coronavírus Não São Motivo Para Alarme

Não existem evidências sólidas de que o coronavírus se tornou mais mortífero ou transmissível. Eis as razões pelas quais estes receios surgem com todas a epidemias.

Monday, July 20, 2020,
Por Monique Brouillette
Esta imagem de microscópio eletrónico de transmissão mostra o SARS-CoV-2 – o vírus que provoca a ...

Esta imagem de microscópio eletrónico de transmissão mostra o SARS-CoV-2 – o vírus que provoca a COVID-19 – isolado, de um paciente nos EUA. As partículas do vírus são mostradas a emergir da superfície de células cultivadas em laboratório. O nome coronavírus deve-se aos espigões em forma de coroa nas extremidades das partículas do vírus. Esta imagem foi captada e colorida nos Laboratórios Rocky Mountain (RML) do NIAID em Hamilton, Montana.

Fotografia de NIAID

As mutações parecem assustadoras. São um tema recorrente no nosso receio coletivo de radiações nucleares ou cancros dissimulados. E numa pandemia em que muita coisa permanece desconhecida, a simples sugestão de que o vírus está a mudar para pior, ficando mais infeccioso ou letal, aumenta a nossa ansiedade.

Portanto, não é de surpreender que as notícias tenham sido inundadas com informações assustadoras no início de julho, depois de um estudo publicado na Cell, uma prestigiada revista científica, alegar que uma estirpe mutante do coronavírus SARS-CoV-2 tinha dominado silenciosamente o mundo – possivelmente porque era mais transmissível.

De acordo com o estudo, no início de março, esta poderosa mutação aparecia em 10% das amostras recolhidas em pacientes do mundo inteiro. Mas em maio já tinha obtido o domínio global, com uma abrangência de 78%. Os investigadores disseram que as experiências feitas em laboratório sugeriam que a mutação em questão – uma única alteração na proteína “espigão” que envolve o vírus como uma coroa – poderia de alguma forma melhorar a capacidade de o vírus entrar nas células humanas e a sua reprodução.


Não há dúvidas de que os vírus sofrem mutações; é por isso que precisamos de uma nova versão da vacina contra a gripe todos os anos. Mas os cientistas duvidam seriamente do quão significativa é esta mutação específica para a pandemia de COVID-19. O artigo da Cell sugere que esta mutação permite que o coronavírus se ligue melhor e entre mais facilmente nas células humanas.

“Não há evidências para isto.”

por VINCENT RACANIELLO, UNIVERSIDADE DE COLUMBIA

“Não há evidências para isto”, diz Vincent Racaniello, virologista da Universidade de Columbia, que escreveu sobre os motivos pelos quais o artigo da Cell não fornece evidências para o aumento da transmissão humana com esta mutação do SARS-CoV-2. Por um lado, o estudo da Cell fez as suas experiências laboratoriais com um vírus “pseudotipado”, o que significa que os investigadores não usaram o verdadeiro vírus SARS-CoV-2. Para demonstrar que a mutação aumenta a transmissibilidade, precisamos de observar como é que a mutação real se comporta nas pessoas.

“Há uma enorme lacuna entre os níveis de infeção em laboratório e a transmissão entre humanos”, diz Nathan Grubaugh, epidemiologista e virologista da Universidade de Yale. “No mundo real, um vírus precisa de penetrar nos pulmões – atravessando o muco e as células imunitárias que revestem as vias respiratórias. E precisa de se replicar e sobreviver em gotículas que são depois expelidas para o ar.” O argumento delineado pelo estudo da Cell é plausível, diz Grubaugh, “mas existem muitas outras variáveis”.

Portanto, devemos ficar muito preocupados com as mutações do coronavírus? A National Geographic apresentou esta questão a alguns dos virologistas e médicos mais conceituados.

O que sabemos até agora sobre a mutação G614
Os autores do estudo da Cell, liderados pela bióloga Bette Korber, do Laboratório Nacional de Los Alamos, no Novo México, cortaram e colaram a proteína espigão do coronavírus – tanto a versão mutante, chamada G614, como a original – num germe completamente independente, chamado lentivírus.

Os “pseudovírus” resultantes oferecem uma forma segura e passível de reprodução que pode ser trabalhada e comparada com os diferentes espigões virais, explica Korber.

A equipa misturou depois estes pseudovírus em tubos de ensaio com diferentes tipos de células renais. Um lote foi extraído há 60 anos de macacos-vervet, enquanto que os outros foram recolhidos de humanos em 1973. Estas células também foram imortalizadas, semelhante ao famoso conto de Henrietta Lacks. Isto significa que foram modificadas natural ou artificialmente para viverem para sempre – ao contrário das células encontradas no interior do corpo humano. Da mesma forma, as células humanas usadas no estudo de Korber também foram geneticamente alteradas para serem mais facilmente infetadas por qualquer vírus portador da proteína espigão.

Neste cenário artificial de laboratório, os investigadores descobriram que o espigão com mutação era mais infeccioso. Juntando o facto de a mutação G614 ter alcançado um domínio em questão de meses, parecia que o vírus, que já de si era assustador, poderia estar a conseguir passar melhor de pessoa para pessoa. E as notícias nos órgãos de comunicação social explodiram.

Mas o que significam estes resultados para as pessoas neste momento?

“Não fazemos ideia”, diz Racaniello. Apesar de as experiências com pseudovírus serem uma prática comum na virologia, são um pouco como colocar dentes de tigre na boca de um coala. A dentada do coala mutante pode doer mais, mas a experiência não nos diz muito sobre a ferocidade dos coalas ou tigres fora do contexto laboratorial.

Korber reconhece as limitações dos resultados experimentais: “Não sabemos como se traduzem em transmissibilidade nos humanos, mas isso está atualmente a ser explorado em vários laboratórios.”

Entretanto, há uma explicação alternativa para o motivo pelo qual o vírus com mutação conseguiu invadir a população e dominar o surto – uma que tem pouco que ver com a própria mutação G614.

O efeito fundador
Os vírus podem sofrer mutações enquanto se replicam – cada ciclo representa uma espécie de lançamento dos dados ao nível genético. Muitas destas mutações podem não conferir uma vantagem ao vírus, mas são transmitidas até que se tornam frequentes na população. Este processo chama-se “efeito fundador”.

A mutação G614 foi detetada pela primeira vez na China em janeiro de 2020 – quando o novo coronavírus estava a entrar na Europa. Isto sugere que o seu domínio global pode dever-se simplesmente à propagação que aconteceu nos primeiros dias do surto na Europa, e que fomentou o seu alcance em grande parte do Hemisfério Ocidental. De facto, quando o Instituto de Genética da University College de Londres levou em consideração este efeito fundador – numa análise recente dos genomas de coronavírus recolhidos de 23 mil pacientes de todo o mundo – não encontrou evidências de um aumento na transmissibilidade proveniente de quaisquer mutações no SARS-CoV-2, incluindo a G614.

Embora Korber reconheça a possibilidade do efeito fundador, também acredita que a grande prevalência da G614 no mundo inteiro sugere que a mutação confere uma vantagem à condição viral – e, a seu ver, as evidências sugerem que está a ultrapassar a sua estirpe ancestral. “Quase todas as vezes, das dezenas e dezenas de vezes em que ambas as formas estavam a circular em paralelo numa região, o vírus mudou para frequências mais elevadas da forma [G614]”, diz Korber.

Mas um grupo separado de investigadores, chamado consórcio COVID-19 Genomics UK, está a rastrear a mutação G614 entre pacientes britânicos e analisou mais de 30 mil genomas virais até agora. “Embora a mutação G614 possa aumentar a taxa de transmissão entre pessoas, a diferença que vemos no mundo real é muito menor do que a diferença na infetividade celular medida em laboratório”, disse através de comunicado Erik Volz, epidemiologista do Imperial College de Londres e membro do referido consórcio.

O consórcio também não encontrou evidências de que a G614 esteja a tornar as infeções por coronavírus mais graves ou mais letais, um padrão também reconhecido pelo grupo de Korber e por cientistas do estado de Washington.

Embora seja teoricamente possível que um vírus atinja o “grande prémio” genético e se transforme em algo muito mais mortífero e fácil de propagar, as mutações que resultam em “alterações do tipo X-Men” também são extremamente improváveis, diz Tyler Starr, virologista do Centro de Pesquisa Oncológica Fred Hutchinson, em Seattle, Washington.

Um resultado muito mais provável, diz Kristian Andersen, imunologista da Scripps Research em La Jolla, na Califórnia, é o de que “o vírus vai continuar a sofrer mutações e a maioria destas transformações não vai surtir algum efeito – algumas serão ligeiramente prejudiciais na sua aptidão, e outras um pouco benéficas, mas isto é de esperar.”

Quando nos devemos preocupar com as mutações virais?
Para alguém que se lembre do surto de Ébola de 2014 em África, o debate atual sobre a G614 soa familiar. Na época, alguns especialistas sugeriram a terrível possibilidade de o vírus Ébola, que matou cerca de 50% das suas vítimas, mas que era transmitido apenas por fluidos corporais, se poder transformar numa doença transmitida pelo ar.

As primeiras investigações, realizadas três meses após o aparecimento do surto, mostravam que o vírus Ébola tinha adquirido mutações semelhantes às agora observadas no SARS-CoV-2 – uma única alteração de aminoácido na sua superfície que o tornou mais adequado para infetar células em experiências feitas em laboratório com pseudovírus.

Mas, no final, o Ébola não acabou por ser transmissível pelo ar. O surto foi contido através de boas práticas de saúde pública e cuidados médicos.

Os especialistas entrevistados para este artigo disseram que as preocupações públicas em torno de mutações surgem com quase todas as pandemias. Pode ser devido ao medo do desconhecido sobre esta doença perigosa ou simplesmente porque as mutações perigosas dão uma boa história.

“Existem muitas incógnitas em torno da COVID-19, e não conseguimos ver a história no seu todo. Mas, enquanto humanos, queremos ver a história completa, pelo que preenchemos as lacunas.”

por SEEMA YASMIN, STANFORD HEALTH COMMUNICATION INITIATIVE

“Existem muitas incógnitas em torno da COVID-19, e não conseguimos ver a história no seu todo. Mas, enquanto humanos, queremos ver a história completa, pelo que preenchemos as lacunas”, diz Seema Yasmin, diretora de educação e pesquisa da Stanford Health Communication Initiative. “Muitas vezes, preenchemos as lacunas com informações demasiado sensacionalistas e muito provocadoras ao nível emocional.”

Aumentar o espectro de uma mutação mortal “é uma coisa muito boa para suscitar o interesse das pessoas, porque é como um enredo de ficção científica de uma série de televisão”, diz Howard Markel, médico e historiador da Universidade do Michigan. “Por exemplo, vemos histórias muito populares sobre a gripe em artigos de revistas – dizem que a gripe de 1918 sofreu uma mutação e que ficou mais forte. Mas não existem evidências absolutamente nenhumas que sugiram isso.”

Uma mutação que altere por completo o comportamento do coronavírus é pouco provável. Tanto a gripe como o coronavírus são vírus RNA, e Racaniello refere outros exemplos desta classe – como o VIH e o sarampo – que não alteraram fundamentalmente o seu comportamento de transmissão desde que surgiram.

“Não há precedentes onde um vírus mudou a sua forma fundamental de transmissão” diz Racaniello.

No caso da COVID-19, é mais plausível que existam pequenas mutações que tornem o vírus subitamente irreconhecível para o sistema imunitário. Nesse cenário, as pessoas podem ser novamente infetadas e as vacinas – depois de desenvolvidas – podem ficar obsoletas ao longo do tempo. É o que acontece com a gripe sazonal. Todos os anos, o vírus muda um pouco e temos de ajustar as vacinas consoante as alterações.

O SARS-CoV-2 já se conseguia propagar bastante bem quando surgiu em Wuhan no final de 2019. O seu modo de transmissão – através de gotículas respiratórias e por vezes através de pessoas assintomáticas – já era suficiente para provocar uma pandemia devastadora.

Os especialistas dizem que o futuro desta pandemia vai depender mais das ações que tomamos, para impedir a propagação do vírus, do que das propriedades intrínsecas do próprio vírus.

Claus Wilke, biólogo estrutural da Universidade do Texas, em Austin, diz que as preocupações em torno da mutação G614 não levam em consideração as questões mais importantes: “Isto não vai afetar as duas questões principais. Como é que podemos evitar a propagação? E será que uma vacina vai funcionar?
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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