Sem Medidas Drásticas, o Lixo Plástico que Flui Para os Mares Pode Triplicar até 2040

Um plano ambicioso, em desenvolvimento durante dois anos, pode ter a solução.

Wednesday, July 29, 2020,
Por Laura Parker
Crianças brincam na costa da Baía de Manila, poluída por lixo doméstico, plástico e outros tipos ...

Crianças brincam na costa da Baía de Manila, poluída por lixo doméstico, plástico e outros tipos de lixo.

Fotografia de Randy Olson, Nat Geo Image Collection

A quantidade de lixo plástico que flui para os oceanos todos os anos pode quase triplicar até 2040 – para cerca de 29 milhões de toneladas anuais.

Esta estatística singular e incompreensivelmente enorme está no centro de um novo projeto de investigação de dois anos que ilustra o fracasso da campanha mundial que visa conter a poluição por plástico e prescreve um plano ambicioso para reduzir grande parte deste fluxo nos mares.


Ninguém sabe ao certo qual é a quantidade de plástico, que é praticamente indestrutível, acumulada nos oceanos. A melhor estimativa, feita em 2015, rondava os 150 milhões de toneladas. Supondo que as coisas permanecem na mesma, o estudo estima que esta acumulação pode atingir os 600 milhões de toneladas até 2040.

O projeto, desenvolvido pela Pew Charitable Trusts e pela SYSTEMIQ, Ltd., um grupo de reflexão ambiental sediado em Londres, exige essencialmente uma reformulação da indústria global de plásticos, alterando-a para uma economia circular de reutilização e reciclagem. Se esta transformação ocorrer – e este é um grande se – os especialistas da Pew dizem que o fluxo anual de resíduos plásticos nos oceanos pode ser reduzido em 80% durante as próximas duas décadas, recorrendo apenas a métodos e a tecnologia existentes. Um simples atraso de cinco anos permite que 80 milhões de toneladas de lixo adicional entre nas regiões costeiras.

O custo desta transformação ronda os 600 mil milhões de dólares, visando sobretudo a redução da utilização de plástico virgem. Isto significa 70 mil milhões de dólares a menos nos custos que se projetam se continuar tudo na mesma durante as próximas duas décadas. “Problemas que afetam todo o sistema exigem mudanças que abranjam todo o sistema”, diz o relatório da Pew Charitable Trusts.

As linhas gerais do “Cenário de Alteração de Sistemas” estão contidas num relatório do tamanho de um livro da Pew e num artigo científico revisto por pares na revista Science, ambos publicados no dia 23 de julho. A Pew observa que alcançar um nível de quase zero de resíduos plásticos nos oceanos requer novas tecnologias, gastos significativos e “ambições titânicas”, entre outros fatores.

Estes relatórios aparecem e desaparecem, mas o que diferencia o relatório da Pew Charitable Trusts é o facto de surgir num momento crítico da campanha que tem como objetivo conter o desperdício de plástico. Em apenas cinco curtos anos, a poluição por plástico no oceano alcançou o topo das preocupações ambientais globais, colocando em ação inúmeras campanhas em quase todos os países da Terra para reduzir a utilização de plásticos descartáveis. Por outro lado, a produção global de plástico está em vias de aumentar 40% até 2030, e centenas de milhares de milhões de dólares estão a ser investidos em novas fábricas de produção de plástico, mantendo tudo num impasse, segundo o relatório.

À medida que o plástico flui para os mares e a produção de plástico aumenta, também se torna cada vez mais evidente que as campanhas ambientais não estão a progredir o suficiente. Mesmo que todas as promessas da indústria e governamentais para reduzir o desperdício de plástico sejam alcançadas até 2040, a Pew alerta que provavelmente isso irá reduzir o escoamento anual de plásticos nos oceanos em apenas uma pequena fração.

“Chegámos a uma bifurcação na estrada”, diz Nicholas Mallos, que supervisiona o programa de detritos marinhos da Ocean Conservancy e que não participou no projeto da Pew. “A indústria está a dizer: ‘Vamos fazer melhor’. Os governos tomaram medidas. Para o mundo, esta será a primeira vez em que os nossos esforços atuais não serão suficientes. A trajetória global está a mover-se na direção errada. Precisamos claramente de repensar a nossa relação com este material.”

A procura por dados económicos concretos
A Pew iniciou esta investigação em 2018, depois de concluir que a peça que faltava na movimentação dos plásticos residia nos dados económicos que orientam a tomada de decisões no setor, diz Simon Reddy, que dirige os programas de plásticos oceânicos da Pew. Sem números concretos, não havia evidências ou informações suficientes para as empresas tomarem decisões informadas. “Temos de tomar decisões sobre a forma como queremos que seja o futuro do planeta”, diz Simon Reddy. “Mas descobrimos que não conseguíamos colocar os números nas coisas. Tínhamos insuficiência de dados.”

Para facilitar a perceção da situação global, a equipa usou um modelo económico pioneiro, criado pela Universidade de Oxford, no Reino Unido, para apresentar os cálculos e projeções. Reddy diz que o modelo fornece um “roteiro” para reduzir o desperdício de plástico em vários locais. Uma versão online deste modelo foi entretanto publicada, permitindo que governos e empresas avaliem as repercussões e soluções adaptadas às condições locais.

A equipa contou eventualmente com a contribuição de mais de cem especialistas, incluindo as colaborações da Universidade de Leeds, da Fundação Ellen MacArthur e da Common Seas, todas no Reino Unido.

O modelo analisa custos e avalia o escoamento de plástico no mar levando em consideração vários cenários que envolvem a utilização de plástico. Por exemplo, o uso de plástico pode ser reduzido em 47% através do aumento da utilização de outras soluções – incluindo a eliminação de plásticos desnecessários e a reutilização de recipientes (30%); compostagem e substituição de diferentes materiais, como a troca de sacos de plástico por sacos de papel (17%).

“Os sinais são bastante evidentes”, diz Andrew Morlet, CEO da Fundação Ellen MacArthur, uma organização sem fins lucrativos que trabalha na transição das indústrias globais para uma economia que reutiliza produtos e materiais. “Na verdade, temos de deixar o petróleo no solo, manter o fluxo de polímeros existentes no sistema e inovar.”

Como o desperdício de plástico invadiu o mundo
Embora não se saiba exatamente qual é a quantidade de plástico presente no oceano, sabe-se o que impulsiona o crescimento dos resíduos de plástico. O crescimento populacional global e a crescente produção de plástico são em parte responsáveis. O uso per capita está a aumentar, sobretudo nos países em desenvolvimento – como na Índia, por exemplo – com uma classe média em expansão e taxas reduzidas na recolha do lixo. Por fim, o plástico virgem barato permite uma mudança na produção de um número crescente de produtos plásticos de baixo valor que não são recicláveis, aumentando o excesso de plásticos que não são recolhidos.

Martin Stuchtey, cofundador e sócio-gerente da SYSTEMIQ, espera que o projeto traga clarividência ao debate global sobre as soluções, que muitas vezes são contraditórias, impraticáveis ou insustentáveis. Por exemplo, a incineração e a queima aberta de plástico estão a aumentar e, se nada mudar, pode aumentar de 49 milhões de toneladas em 2016 para 133 milhões de toneladas em 2040.

A reciclagem é um dos meios mais eficazes para reduzir a utilização de plástico virgem, mas primeiro este plástico precisa de ser recolhido. Atualmente, dois mil milhões de pessoas não têm acesso a sistemas de recolha de lixo. Até 2040, este número vai duplicar para os quatro mil milhões, maioritariamente nas áreas rurais de países onde os salários são mais baixos. A Pew descobriu que, para o lixo ser recolhido e reencaminhado para um sistema de tratamento, exigiria o envolvimento de 500 mil pessoas por dia, todos os dias, entre agora e 2040. Esta é uma perspetiva inconcebível, mas que ainda assim foi incluída no relatório para transmitir a gravidade dos problemas envolvidos na contenção dos resíduos a uma escala global.

“Boa sorte com isso”, diz Yoni Shiran, gestor de projetos da SYSTEMIQ e um dos coautores do artigo da Science. “E se isso não vai acontecer, a solução é criar um sistema mais sensato.”

Garrafas de plástico enchem uma instalação de reciclagem em Valenzuela, nas Filipinas.

Fotografia de Randy Olson, Nat Geo Image Collection

A pandemia de coronavírus só veio contribuir para o problema. A queda dos preços do petróleo tornou a produção de plástico virgem mais barata do que nunca. A demanda por bens de consumo compostos por plástico descartável disparou à medida que os compradores procuravam proteção contra o vírus. Ainda assim, Martin Stuchtey consegue ver alguma luz ao fim do túnel. Antes da pandemia, os resistentes da indústria argumentavam que as mudanças sistémicas eram demasiado grandes, difíceis, dispendiosas e morosas para serem realizadas. A COVID-19 colocou a mentira presente nestes argumentos a descoberto, depois da escassez de papel higiénico e de outros produtos ter perturbado o sistema de abastecimento e suspendido as linhas de exportação.

“Agora vemos a rapidez com que as cadeias de abastecimento podem realmente mudar e ser reconfiguradas, e estamos a começar a ver a descrença a transformar-se em crença”, diz Martin Stuchtey.

Mudar corações e mentes
Winnie Lau, gestora da Pew que supervisionou o projeto, diz que não está preocupada com os titãs do setor que poderão resistir. “Não espero que, por mais surpreendentes que sejam os nossos resultados, consigamos mudar o coração de todos. O nosso objetivo é mudar o coração dos principais participantes, e eles serão os líderes na preparação do cenário para novos padrões de funcionamento nas empresas, e partiremos daí.”

Para esse fim, Alan Jope, CEO da Unilever, esteve entre os dignitários presentes na comemoração da conclusão do projeto em Londres. No ano passado, esta gigante de bens de consumo prometeu reduzir para metade a utilização de plástico virgem e ajudar a recolher e a processar mais embalagens plásticas do que as que vende. É um começo.

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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