Um dos Cometas Mais Brilhantes em Décadas Está de Passagem Pela Terra. Eis Como o Pode Observar.

O cometa NEOWISE está a deliciar astrónomos profissionais e observadores amadores de estrelas, e vai ficar visível nos céus do Hemisfério Norte até meados de agosto.

Wednesday, July 15, 2020,
Por Dan Falk
Longe das luzes da cidade de New Hampshire, o cometa NEOWISE deu um espetáculo no dia ...

Longe das luzes da cidade de New Hampshire, o cometa NEOWISE deu um espetáculo no dia 12 de julho. A cauda do cometa era visível a olho nu, mas estava mais difusa e mais pequena do que vemos nesta exposição de 15 segundos.

Fotografia de Babak Tafreshi

Um cometa chamado NEOWISE está a fazer uma visita às redondezas da Terra este mês, e os astrónomos dizem que este cometa pode acabar por ser classificado como um dos mais brilhantes alguma vez observados nos nossos céus em mais de uma década.

Neste momento, o cometa já é brilhante o suficiente para ser visto a olho nu, se soubermos onde procurar. Já está a encantar os observadores de estrelas por todo o Hemisfério Norte que se levantam antes do amanhecer para contemplar o viajante celestial.


Chris Schur, astrofotógrafo sediado em Payson, no Arizona, diz que o cometa é “lindo”. Quando Chris usou os seus binóculos na manhã do dia 7 de julho, calculou que a cauda do cometa tinha cerca de cinco graus de comprimento, cerca de 10 vezes o tamanho aparente da lua cheia. Se a cauda continuar a crescer, algo que os astrónomos dizem ser possível, “pode ficar ainda mais espetacular”, diz Chris Schur.

Durante a próxima semana, o NEOWISE só estará visível antes do amanhecer. Para o observarmos, devemos sair pelo menos 45 minutos antes do nascer do sol e olhar para cima do horizonte nordeste. A estrela brilhante Capela pode servir como um ponto de referência – o cometa está logo por baixo – enquanto o planeta Vénus está visível a leste. Dentro de uma semana, o cometa vai fazer a transição para o céu noturno, facilitando ainda mais a sua identificação. A partir de meados de julho, o cometa ficará visível no céu noroeste depois do pôr do sol, arqueando lentamente para cima debaixo das estrelas da Ursa Maior.

Ivan Vagner, cosmonauta da Roscosmos, publicou esta fotografia no Twitter, que foi captada a partir da Estação Espacial Internacional.

Fotografia de Ivan Vagner, Roscosmos

Planear com antecedência ajuda a melhorar as probabilidades de vislumbrar este visitante celeste. “Não basta olhar para cima e ali está ele!”, diz Dave Schleicher, astrónomo sénior do Observatório Lowell, em Flagstaff, no Arizona. “É necessário ter uma boa noção de onde procurar – e uns binóculos também ajudam.”

Ainda assim, a julgar pelas fotografias publicadas nas redes sociais durante os últimos dias, o cometa já está a proporcionar um bom espetáculo – provavelmente o melhor desde que o cometa Hale-Bopp iluminou o céu noturno em 1997. O cometa McNaught, que passou pela Terra em 2007, também era mais brilhante do que o NEOWISE, mas só era visível maioritariamente no Hemisfério Sul.

“O alarido em torno deste cometa é justificado”, diz o fotógrafo Malcolm Park, que captou uma imagem do NEOWISE e respetiva cauda a partir de sua casa, em Ontário, na manhã de 5 de julho.

Perto do sol e da Terra
O nome do cometa é uma homenagem ao telescópio espacial que foi utilizado para o descobrir em finais de março, e o seu apelido oficial completo é C/2020 F3 (NEOWISE). O cometa esteve mais perto do sol, ou atingiu o periélio, no dia 3 de julho, e o facto de ainda estar visível fez com que os observadores de estrelas respirassem de alívio. Muitos cometas não sobrevivem ao calor de uma aproximação à nossa estrela anfitriã. Os cometas, geralmente descritos por “bolas sujas de neve”, são constituídos por rochas, poeira, gases e gelo – uma combinação que nem sempre se mantém em temperaturas extremas.

“À medida que se aproxima do sol, aquece, libertando todo o tipo de materiais e formando uma cauda espetacular”, diz Laura Danly, curadora do Observatório Griffith em Los Angeles. “Mas, por vezes, os cometas desintegram-se e desaparecem.”

O NEOWISE parece ser um sobrevivente, emergindo do seu encontro com o sol com uma longa cauda de gás e poeira. “Já ultrapassámos o maior ponto de aproximação ao sol e o cometa ainda está lá”, diz Danly. “Assim, podemos contar com mais um mês de boa visualização.”

O cometa NEOWISE fotografado nos céus do Líbano, numa imagem composta por fotografias tiradas no dia 8 de julho.

Fotografia de Maroun Habib

Há vários fatores que determinam o brilho do cometa. Depois de passar pelo sol, reflete menos luz da estrela na nossa direção, mas também se está a aproximar da Terra. A abordagem mais próxima do NEOWISE vai acontecer no dia 22 de julho, quando estiver a 100 milhões de quilómetros do nosso planeta. Depois, irá gradualmente desaparecer de vista enquanto regressa para os confins do sistema solar.

Para o conseguirmos observar, será que devemos acordar cedo esta semana, ou será que devemos esperar até ao final do mês, quando o cometa estiver melhor posicionado no céu noturno? Muitos observadores estelares, temendo que este espetáculo seja passageiro, sugerem que se acorde de madrugada para ver o cometa o mais depressa possível. E com muitas pessoas ainda fechadas em casa devido à pandemia, um cometa pode ser a desculpa perfeita para apanhar ar fresco e estar em contacto com a natureza, diz Danly.

“Acorde os seus filhos bem cedo, se os tiver, ou acorde cedo, e desfrute desta vista maravilhosa”, sugere Danly. “E também pode aproveitar para ver o nascer do sol.”

E em Portugal?
Segundo o astrónomo Ricardo Cardoso Reis, do Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço, durante os próximos dias, o cometa estará visível mesmo antes do amanhecer. Como está bastante baixo no horizonte, é preciso um local que tenha visão desimpedida para nordeste (NE).

O cometa está visível a olho nu, mesmo das cidades, desde que não tenham nenhum candeeiro público exatamente nessa direção. Claro que das cidades verão apenas uma pequena manchinha difusa no céu, por isso o ideal é observá-lo em locais com céus escuros, isto é, com pouca ou nenhuma poluição luminosa. De qualquer maneira, para desfrutar do cometa em todo o seu esplendor, o ideal é mesmo recorrer a uns binóculos.

Em alternativa, podem tentar fotografá-lo, já que ele deve ficar visível nas imagens mesmo com exposições curtas. Se tiverem um tripé e uma máquina mais avançada, o ideal será apontá-la para nordeste e fazer algumas exposições com uma grande angular. Depois de encontrar a direção exata em que está o cometa, tentar fotografá-lo com uma teleobjetiva.

Durante esta semana, o movimento aparente do cometa no céu vai levá-lo da constelação do Cocheiro para a constelação da Ursa Maior, por isso, a partir mais ou menos do dia 16, começa a ser preferível procurá-lo ao anoitecer, a noroeste (NO), debaixo da Ursa Maior.

No dia de maior aproximação à Terra, o perigeu, que ocorre no dia 23 de julho, o cometa estará cerca de 30 graus imediatamente abaixo da estrela Alkaid, a ponta da cauda da Ursa Maior. Para medir "a olho" estes 30 graus, basta esticar o braço para o céu, e à distância de um braço estendido, um punho fechado mede aproximadamente 10 graus, portanto, basta contar 3 punhos a partir de Alkaid, em direção ao chão.

A grande questão é: Vale a pena esperar uns dias, para o ver ao anoitecer, ou é melhor tentar vê-lo já, antes do amanhecer? Como diz o conhecido caçador de cometas David Levy: “Os cometas são como os gatos: Ambos têm caudas e fazem o que querem”.

O normal é que um cometa comece a perder brilho depois de se afastar do Sol, porque reflete cada vez menos luz. Mas este cometa quando foi descoberto, nem estava previsto ser visível a olho nu e aí está ele, portanto, quem sabe? Mas seja ao amanhecer ou ao anoitecer, não deixe escapar a oportunidade para observar este cometa, porque nunca se sabe quando é que o próximo será visível.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com e teve o contributo de Ricardo Cardoso Reis.

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