Uma Época Repleta de Furacões no Atlântico Pode Ser Sinónimo de Mais Incêndios na Amazónia

A água quente do oceano conduz os furacões para a costa leste dos EUA, mas a Amazónia pode sentir os efeitos do calor.

Wednesday, July 22, 2020,
Por Madeleine Stone
Nesta imagem captada no dia 27 de agosto de 2019 vemos uma área queimada de floresta ...

Nesta imagem captada no dia 27 de agosto de 2019 vemos uma área queimada de floresta na bacia amazónica, no estado do Pará, no Brasil. O aquecimento do oceano, que se espera poder impulsionar uma época repleta de furacões no Atlântico, também pode deixar a Amazónia mais seca, resultando em mais incêndios.

Fotografia de Joao Laet, AFP/Getty Images

A época de incêndios de 2020 na floresta amazónica pode ser muito pior do que a de 2019, dizem os investigadores, em parte devido às mesmas condições climáticas que estão a alimentar uma época ativa de furacões mais a norte.

Em agosto do ano passado, vários incêndios enormes deflagrados por humanos na Amazónia cobriram a cidade brasileira de São Paulo com uma nuvem de fumo, transformando o dia em noite e suscitando uma série de protestos a nível internacional. Embora estes incêndios fossem incomuns e alarmantes, a situação poderia ter sido muito pior se a Amazónia estivesse em período de seca.

Infelizmente, condições de seca abaixo da média é exatamente o que se prevê para o sul da Amazónia este ano, em parte graças a uma acumulação invulgar de calor no Atlântico Norte, a milhares de quilómetros de distância.


Este calor oceânico também deu origem a um início rápido da época de furacões no Atlântico, um presságio do que se prevê ser uma época invulgarmente agitada. Algumas investigações sugerem um nexo de causalidade entre os furacões e os anos de incêndios mais graves na Amazónia – mas esta matéria ainda é motivo de debate.

“Penso que o oceano está a forçar estas duas condições”, diz Chris Landsea, meteorologista do Centro Nacional de Furacões da Administração Oceânica e Atmosférica Nacional dos EUA. “Está a forçar anos de furacões ativos no Atlântico e ao mesmo tempo a provocar incêndios na Amazónia.”

Tempestade de fogo perfeita
Doug Morton, cientista da NASA e um dos cocriadores de uma previsão sazonal de incêndios para a Amazónia, diz que, com as condições de incêndio deste ano, a floresta tropical enfrenta a “tempestade perfeita”. Isto inclui um aumento da desflorestação – um dos fatores importantes para os incêndios na Amazónia – e padrões mais amplos nos oceanos e na atmosfera que podem levar à seca.

Durante os primeiros seis meses de 2020, estima-se que foram desflorestados 3.066 quilómetros quadrados de floresta – um aumento de 25% em comparação com o primeiro semestre de 2019. Segundo Jos Barlow, cientista de conservação da Universidade de Lancaster, se este ritmo acentuado de desflorestamento continuar, quase 15.500 quilómetros quadrados de floresta podem desaparecer até ao final do ano, dado que a estação mais intensa de exploração madeireira está apenas a começar. A acontecer, seria a maior taxa de desflorestação desde 2005.

Os proprietários de terras na Amazónia costumam usar os incêndios para limpar os terrenos para a criação de gado e para a agricultura, embora muitos dos incêndios também sejam deflagrados em florestas públicas por pessoas que tentam reivindicar novas terras. “Receio que tudo isto aponte para que este seja outro ano muito mau em termos de desflorestamento”, escreve Barlow por email. “Ao contrário do que aconteceu em 2019, estes incêndios que são usados para limpar florestas derrubadas provavelmente serão agravados por um clima mais seco do que o habitual”, o que significa que se podem propagar mais depressa, tornar-se mais difíceis de controlar e até mesmo atingir a floresta tropical virgem.

As previsões sazonais indicam que áreas enormes da Amazónia podem mergulhar na seca, à medida que a estação de seca progride – começa em junho e prolonga-se até novembro. Isto deve-se, em parte, às temperaturas oceânicas distantes mais a norte, que formam uma parte essencial da base da previsão de incêndios de Morton.

De acordo com Yang Chen, cientista da Terra da Universidade da Califórnia, em Irvine, que desenvolveu a previsão em parceria com Morton, as temperaturas na zona tropical do Atlântico Norte estão atualmente “muito acima da média”. Quando esta parte do oceano está particularmente quente, desencadeia uma alteração em direção a norte, na Zona de Convergência Intertropical – uma faixa de ar de baixa pressão que produz tempestades intensas de chuva nos trópicos. Se este cinturão de chuva se deslocar mais para norte antes da estação de seca no sul da Amazónia, fará com que esta estação comece mais cedo, ficando tudo ainda mais seco do que o habitual.

“Em anos anteriores, quando o norte tropical do Oceano Atlântico esteve quente – em 2005 e 2010 – provocou secas recorde na Amazónia”, explica Morton. “E com estas secas vieram os incêndios.”

Ligação direta com furacões?
As águas tropicais quentes do Atlântico Norte também alimentam os furacões, que enviam humidade para oeste e depois para norte, através dos ventos predominantes, em vez de para sul. De facto, a investigação publicada por Morton e Chen em 2015 mostra que as épocas ativas de furacões no Atlântico e as severas épocas de incêndios na Amazónia andam de mãos dadas. Apesar de ambos os fenómenos se correlacionarem com o calor no Atlântico Norte, estão mais fortemente ligados entre si.

Morton acredita que isto indica um nexo de causalidade entre ambos. “Quando as tempestades tropicais e os furacões se formam, levam consigo a humidade que, de outra forma, fluiria para o continente sul-americano... e levam a humidade para a Costa do Golfo e para a costa leste dos Estados Unidos. Essencialmente, afastam a humidade da Amazónia.”

Mas Chen não está completamente convencido de que os furacões no Atlântico desencadeiam diretamente a seca na Amazónia, apesar de concordar que ambos os fatores “partilham a mesma razão”, ou seja, o calor excessivo no Atlântico Norte tropical e o seu impacto nos padrões climáticos.

Chris Landsea, do Centro Nacional de Furacões, também não está convencido de que exista um nexo de ligação causal direto entre um maior número de furacões no Atlântico e a seca na Amazónia. Chris salienta que os furacões são “eventos transitórios que duram apenas alguns dias, e representam apenas uma pequena percentagem das chuvas nas Caraíbas.” Mas concorda que existe definitivamente uma associação entre ambos os fenómenos.

De qualquer forma, a época de furacões de 2020 deve servir como um alerta para a Amazónia – este ano já observámos seis tempestades tropicais nomeadas no Atlântico, um recorde para este ponto da época, que só começou no dia 1 de junho. À medida que o verão avança e o calor aumenta no Atlântico tropical, é de esperar que a atividade dos furacões também aumente.

“Estamos a antecipar uma época muito agitada”, diz Chris Landsea.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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