Uma Forma de Combater as Alterações Climáticas: Criar os Próprios Glaciares.

À medida que a neve diminui e os glaciares recuam, os habitantes das montanhas do norte da Índia constroem cones de gelo enormes que fornecem água para o verão.

Thursday, July 9, 2020,
Por Arati Kumar-Rao
Fotografias Por Ciril Jazbec
As estupas de gelo funcionam como torres de água, armazenando a água que derrete no inverno ...

As estupas de gelo funcionam como torres de água, armazenando a água que derrete no inverno para o plantio da primavera. O grupo de jovens que construiu esta estupa em Gya, uma aldeia do norte da Índia, instalou também um café na base da mesma. Usaram os proveitos para levarem os idosos da aldeia numa peregrinação. "Ninguém os leva a lado nenhum", disse um dos jovens.

Fotografia de Ciril Jazbec


Ladakh, um planalto alto no extremo norte da Índia, para lá dos Himalaias, está sob ataque. O inimigo está a acabar com as suas fontes de água, a secar as suas terras agrícolas. Os agricultores, desesperados, que durante muito tempo criaram cabras de pashmina, trigo e cevada nos terrenos áridos, estão a fugir para Leh, uma cidade junto ao rio Indo. Sonam Wangchuk e eu fomos numa viagem de carro por entre desfiladeiros e vales acima dos 2700 metros para inspecionar aquilo que servirá de defesa: cones altos de gelo a que Wangchuk chama estupas.

"Este inimigo não usa farda, não estabeleceu alianças com nenhum estado-nação e não anda com armas automáticas", diz Wangchuk, um engenheiro que também fundou uma escola alternativa em Ladakh. "Irredutível no que respeita a fronteiras, não obedece a leis internacionais. Nós, os Ladakhis, estamos na linha da frente de uma guerra muito diferente.”

O inimigo são as alterações climáticas. Um aumento em cerca de um grau Celsius (1,8 graus Fahrenheit) das temperaturas médias durante o inverno nas últimas quatro décadas prejudicou uma ligação crucial no ciclo da água de Ladakh. Situado entre o Paquistão e a Índia, protegido pelos Himalaias a partir da monção a sudoeste, Ladakh tem uma pluviosidade média de 101,6 mm por ano. A sua força vital é a neve de inverno e os glaciares das montanhas. As épocas de neve, no entanto, tornaram-se inconstantes, e a neve derrete antes do plantio da primavera, enquanto os glaciares recuaram muito acima das montanhas e estão a derreter mais tarde.

"O intervalo entre o derretimento da neve no final do inverno e o derretimento do glaciar na primavera está cada vez maior", explica Wangchuk. Este hiato, esta seca da primavera, está a tornar a agricultura impossível. "Temos uma pegada de carbono negligenciável, mas estamos a suportar o impacto de um clima em mudança", disse. Os Ladakhis não podem travar as alterações climáticas — mas as estupas de gelo podem fazer com que haja alguma água na primavera.

Ao sairmos da autoestrada e começarmos a subir um desfiladeiro perto da fronteira paquistanesa, Wangchuk começa a contar-me a sua história. Em 2013, notou que o gelo, mesmo a baixa altitude e no auge do verão, congelava sob a sombra de uma ponte. Percebeu que poderia ajudar as aldeias a congelarem água no inverno para a usarem na primavera. Colocar à sombra vastas extensões de gelo era impraticável, mas um monte alto daria sombra ao seu próprio interior — e quanto mais inclinados os lados, melhor, porque reduziria a área exposta ao sol. "A matemática que aprendi na escola secundária ensinou-me que um cone era a resposta simples", diz Wangchuk, ao mesmo tempo que contorna uma curva sinuosa.

Os monges do Mosteiro de Phyang cuidam dos salgueiros e dos choupos mantidos pela água derretida proveniente da estupa. As árvores destinam-se a reflorestar a encosta despida de verde e a estabilizá-la, protegendo-a da erosão.

No Budismo, uma estupa é um monte de pedra ou lama que abriga relíquias veneradas. Wangchuk e os seus alunos construíram a sua primeira estupa de gelo em novembro de 2013. Desviaram um riacho perto de Leh, através de um cano descendo pela montanha abaixo, e, em seguida, enviaram-no para cima de um cano vertical para um bocal de pulverização. É o que é: a estupa não é high-tech. A equipa de Wangchuk abriu o bocal à noite, quando a temperatura estava abaixo de zero. À medida que caía, a água pulverizada congelava. Lentamente, ergeu-se um monte de gelo à volta do cano, afunilando em direção ao topo.

Este primeiro ensaio resultou numa estupa com cerca de seis metros de altura, e que continha cerca de 150 mil litros de água. Durou até maio. Desde então, Wangchuk ensina os habitantes da região de Ladakh a construir estupas. Em 2019, construíram 12, duas das quais tinham mais de 30 metros de altura. Este ano, construíram 26, tendo nove delas cerca de 30 metros.

As alterações climáticas não estão apenas a secar a primavera em Ladakh; estão também a causar inundações repentinas, devido a chuvas de verão inesperadas. De acordo com Wangchuk, é possível que a água para irrigação proveniente das estupas de gelo possa contribuir para a reflorestação das encostas para absorver as chuvas. "Se uma estupa tiver o tamanho e a localização ideais, ela poderá sobreviver ao verão e chegar ao inverno seguinte", afirma. "A estupa cresceria, ano após ano", tornando-se perene — tal como os glaciares.

Depois de conduzirmos ao longo do precipício, chegamos à aldeia de Karith. Wangchuk é bem-vindo como um herói pelos alunos do ensino básico. Eles construíram a primeira pequena estupa da aldeia em 2016. "Queremos que as crianças saibam o que está a acontecer no mundo e como isso nos está a afetar", diz o diretor Mohammad Ali. Wangchuk quer que o mundo saiba o que está a fazer a Ladakh. As estupas são "um alerta para mudar o estilo de vida da cidade com uso intensivo de carbono", diz ele.

A estupa da Karith, no ano passado, tinha 22 metros de altura. Protegida à sombra de um pico, durou até agosto, permitindo aos agricultores regar os seus campos. Este ano, agricultores e estudantes juntaram-se e construíram uma estupa ainda maior. "Um dia", diz Ali, "vamos construir uma estupa de gelo que continue a crescer.”

Esta estupa perto da aldeia de Shara Phuktsey ganhou o primeiro prémio na categoria de maior estupa numa competição de 2019. Os cerca de 75 milhões de litros de água armazenada ajudaram a irrigar campos em quatro aldeias. A estupa também atraiu turistas: escaladores de gelo vieram com o intuito de escalar os flancos íngremes desta.

 

Arati Kumar-Rao, escritora de Bangalore, Índia, foca-se em questões da água. Ciril Jazbec fotografou empresários de tecnologia na África e caçadores inuítes na Gronelândia para a revista.
A National Geographic Society, organização sem fins lucrativos que trabalha na conservação dos recursos da Terra, ajudou a financiar este artigo.

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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