Uma Vaga de Calor Derreteu a Tundra Siberiana. Agora, Está a Arder.

Uma vaga de calor implacável, provocada pelas alterações climáticas, deu origem a uma série de incêndios numa terra que normalmente está demasiado congelada para arder. Os cientistas temem que isto se possa tornar numa ocorrência regular.

Thursday, July 9, 2020,
Por Madeleine Stone
Uma floresta a arder na região centro de Yakutia, uma das regiões mais frias da Rússia. ...

Uma floresta a arder na região centro de Yakutia, uma das regiões mais frias da Rússia. Mais de 83% deste território é coberto por floresta; os cientistas estão surpreendidos com a presença de incêndios tão a norte.

Fotografia de Yevgeny Sofroneyev, TASS/Getty Images

A Sibéria está a ser assolada há meses por um calor extremo que se deve a uma combinação de fatores – tempo quente e alterações climáticas provocadas pelos humanos. Para além de dar origem a temperaturas árticas que atingiram os 37 graus em junho, o calor tem alimentado uma enorme vaga de incêndios florestais, incluindo fogos na tundra composta por pergelissolo – solo que normalmente é gelado, mas que este ano parece ter arrefecido mais.

Estes incêndios, em paisagens que tipicamente são demasiado geladas e húmidas para arder, estão a soar os alarmes para os ecologistas e cientistas climáticos que receiam que este seja mais um sinal de que o Ártico está a sofrer mudanças repentinas, mudanças que podem dar origem a uma série de consequências tanto a nível local como global.


Se os incêndios se tornarem numa ocorrência regular na tundra siberiana em degelo, os ecossistemas podem alterar-se de forma dramática, fazendo com que novas espécies assumam o controlo e, provavelmente, preparando o terreno para mais fogos. Estes incêndios podem exacerbar o aquecimento global, dado que atingem as profundezas do solo e libertam o carbono que se acumulou sob a forma de matéria orgânica congelada ao longo de milhares de anos.

“Ainda não estamos perante uma contribuição massiva para as alterações climáticas”, diz Thomas Smith, geógrafo ambiental da Faculdade de Economia de Londres, que tem acompanhado de perto os incêndios na Sibéria. “Mas é certamente um sinal de que está a acontecer algo diferente.”

Mais fogos superaquecidos

Uma imagem vista do espaço dos incêndios na tundra siberiana.

Fotografia de Joshua Stevens, NASA Earth Observatory

Não é inédito a Sibéria ter incêndios enormes durante o verão, incluindo fogos a norte do Círculo Polar Ártico, na enorme região de florestas boreais. Mas, para já, 2020 tem sido um ano que se destaca pelos graves incêndios no Ártico russo.

Mark Parrington, cientista do Centro Europeu de Previsão do Tempo a Médio Prazo, diz que os fogos se começaram a propagar pela Sibéria em meados de junho. Os níveis diários do “poder irradiante do fogo” – a medição do calor emitido pelos incêndios – são semelhantes aos níveis de 2019 (outro ano de fogos extremos) e excedem de longe tudo o que o Ártico testemunhou desde 2003. A Agência Florestal Russa estima que, no leste da Sibéria, arderam milhões de hectares nas regiões da República de Sakha, Chukotka e Magadan.

Para além da intensidade e alcance de propagação das chamas, os cientistas estão surpreendidos por verem incêndios tão a norte, e pelos tipos de ecossistemas em ignição. Smith tem investigado esta situação utilizando um conjunto de mapas terrestres e dados de satélite, e constatou que, para além dos inúmeros incêndios que lavram pelas florestas boreais, muitos estão localizados ainda mais a norte, na tundra, e em turfeiras ricas em carbono. Em todos estes casos, os ecossistemas que estão a arder ficam por cima de solos congelados que integram o pergelissolo.

Apesar de não ser a primeira vez que a tundra está a arder – na história recente, os cientistas já documentaram fogos enormes na região norte do Alasca – não é normal existirem tantos fogos ao mesmo tempo e numa área tão vasta, diz Smith.

Muitos destes incêndios podem até estar a estabelecer recordes geográficos. De acordo com Annamaria Luongo, especialista em deteção remota por satélite, o satélite Sentinel-2 da Agência Espacial Europeia detetou em finais de junho uma série de incêndios em latitudes perto dos 73 graus norte – os registos de fogos mais a norte desde 2003. O incêndio mais recente, avistado pelo Sentinel-2 no dia 30 de junho, aconteceu a poucos quilómetros da costa do Mar de Laptev, que faz parte do Oceano Ártico.

“Fiquei um pouco chocada por ver um incêndio 10 quilómetros a sul da baía do Mar de Laptev, que é uma espécie de fábrica de gelo do mundo”, diz Jessica McCarty, investigadora de incêndios da Universidade de Miami, em Ohio. “Quando eu era estudante e frequentava as aulas de ciência de fogo, se alguém me dissesse que eu iria estudar os regimes de fogo na Gronelândia e no Ártico, eu teria rido na cara dessa pessoa.”

O calor é a causa subjacente destes incêndios. Desde dezembro, as temperaturas na Sibéria têm-se mantido muito acima do normal devido a uma camada persistente de pressão de ar elevada na região, produzindo tempo quente e derretendo de forma precoce a neve. O calor diminuiu um pouco em meados de junho, quando a cidade siberiana de Verkhoyansk testemunhou um dia em que a temperatura atingiu um recorde de 37 graus, mas o tempo quente ainda se mantém – no mesmo dia em que um incêndio foi avistado na costa do Mar de Laptev, as temperaturas do ar na região atingiram os 36 graus.

“Para mim, o que é realmente chocante é o quão quente está em relação à média durante tantas semanas e meses”, diz Zack Labe, cientista climático da Universidade Estadual do Colorado.

Uma comunidade no sul da Sibéria coberta de cinzas de um dos vários incêndios que lavram na região de Novosibirsk.

Fotografia de Kirill Kukhmar, TASS/Getty Images

Tudo isto faz parte de uma tendência de aquecimento a longo prazo, impulsionada pelas alterações climáticas, que está a fazer com que o Ártico aqueça duas vezes mais do que a taxa média global.

McCarty diz que o clima quente e seco provavelmente secou a vegetação na tundra, preparando-a para arder. As camadas de material orgânico parcialmente decomposto no solo também estão a aquecer e a secar. Smith suspeita que este calor também pode ter provocado um degelo adicional e uma secagem ainda mais profunda no pergelissolo, que contém uma “camada ativa” de degelo sazonal que normalmente permanece congelada o ano inteiro. “A vaga de calor coloca a paisagem numa situação em que pode arder”, diz Smith.

Libertar o carbono
Uma das grandes preocupações dos cientistas em relação ao Ártico prende-se com o facto de estes incêndios estarem a queimar não só a superfície da tundra, mas também o solo – através de camadas de matéria orgânica rica em carbono que foi acumulado ao longo de vários séculos.

“Mas dadas as dimensões e as temperaturas no solo, eu diria que podem arder”, diz Amber Soja, investigadora associada do Instituto Nacional Aeroespacial e especialista em incêndios siberianos. À medida que os incêndios avançam pelo subsolo, os gases de efeito estufa são libertados na atmosfera, provocando mais aquecimento no Ártico e mais degelo no pergelissolo. “Para já, os incêndios no solo estão a emitir calor, e isso pode gerar um degelo e queima adicionais do pergelissolo”, diz Amber.

Embora ainda não se saiba qual é a quantidade de carbono que está a ser libertada pelos incêndios deste ano, ou a quantidade de pergelissolo que está derreter pelos mesmos motivos, os cientistas querem investigar estas questões. A longo prazo, os incêndios também podem degradar o pergelissolo, removendo as camadas superiores do solo que atuam como uma barreira isolante, um processo bem documentado nas florestas boreais. A deterioração do pergelissolo também pode fazer com que o solo colapse e o gelo derretido se acumule na superfície dos lagos, algo que os cientistas testemunharam na sequência de um enorme incêndio na tundra da encosta norte do Alasca em 2007.

Saber como é que estes incêndios podem afetar o delicado equilíbrio ecológico do Ártico é outra questão ainda em aberto. Amber Soja diz que as florestas boreais severamente queimadas podem transformar-se em “tundra pirogénica”, depois de um incêndio matar as árvores e queimar as sementes armazenadas no solo –  permitindo que as ervas assumam o controlo. Enquanto isso, os incêndios na tundra podem facilitar o estabelecimento de arbustos, escurecendo a paisagem, absorvendo mais calor e aumentando as probabilidades de incêndio no futuro. E como as alterações climáticas continuam a impulsionar o movimento da linha das árvores para norte, as paisagens do Ártico continuam a receber mais combustível para arder.

“Em termos de ecologia, não sei o que vai acontecer”, diz Amber Soja. “São zonas muito a norte. Creio que os danos são extensos. Acho que vão demorar muito tempo [a recuperar]. E talvez nem sequer dê para recuperar.”

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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