A Terra Está a Estabelecer Recordes de Temperatura. E Um Dia Vai Ficar Muito Mais Quente.

À medida que as temperaturas continuam a aumentar, prevê-se que o mundo fique ainda mais quente. Mas quão quente pode ficar?

Publicado 25/08/2020, 18:03
Eddie Lopez e o seu filho, Eddie Jr., brincam perto de uma conduta de drenagem no ...

Eddie Lopez e o seu filho, Eddie Jr., brincam perto de uma conduta de drenagem no rio San Gabriel, na Califórnia, durante a recente vaga de calor.

Fotografia de Robert Gauthier, Los Angeles Times/Getty Images

Em finais de agosto, quando uma vaga de calor assolou o oeste dos Estados Unidos, as temperaturas no Vale da Morte da Califórnia atingiram uns incríveis 54.4 graus Celsius, estabelecendo a temperatura mais quente registada em qualquer lugar na Terra desde 1931 e o terceiro dia mais quente de que há registo no nosso planeta.

Mas a Terra já viu dias mais quentes no passado e vai passar pelo mesmo no futuro. Durante os chamados períodos de estufa, quando a atmosfera estava sobrecarregada com gases de efeito estufa, o planeta era muito mais quente do que acontece atualmente e as piores vagas de calor eram correspondentemente aterrorizantes. Apesar de as emissões de carbono provocadas pelos humanos ainda não terem empurrado a Terra para um novo estado de estufa, as alterações climáticas estão a fazer com que as vagas de calor se tornem mais frequentes e severas, o que significa que as temperaturas extremas verificadas no Vale da Morte se podem tornar mais frequentes. A Terra não será tão escaldante e inabitável como acontece em Vénus assim tão cedo – as temperaturas em Vénus são elevadas o suficiente para derreter chumbo – mas com o passar do século, o calor que desafia os limites da tolerância humana irá ocorrer com mais frequência, dizem os cientistas.

E num futuro muito, muito distante, a Terra poderá eventualmente ficar semelhante a Vénus.


Passado abrasador
Para quem está na Califórnia ou no Japão neste momento pode não parecer assim, mas a Terra está atualmente a passar pelo que os geólogos consideram ser um clima glaciar: um período frio o suficiente para suportar um ciclo de idade do gelo, onde os grandes mantos de gelo continentais aumentam e diminuem perto dos polos. (Atualmente, o manto de gelo no hemisfério norte recuou para a Gronelândia.) Para ter uma ideia de como seria um mundo muito mais quente, precisamos de recuar pelo menos 50 milhões de anos, até ao início do Eoceno.

“Esse foi o último clima realmente quente que a Terra sentiu”, diz Jessica Tierney, paleoclimatologista da Universidade do Arizona.

Hoje, a temperatura média da Terra gira em torno dos 15.5 graus Celsius. Durante o início do Eoceno, estava perto dos 21.1 graus e o mundo era um lugar diferente. Os polos não tinham gelo e os oceanos tropicais atingiam os 35 graus Celsius. Palmeiras e crocodilos viviam no Ártico. E vários milhões de anos antes disso, no Máximo Térmico do Paleoceno-Eoceno, as coisas eram ainda mais quentes.

E houve períodos de estufa mais extremos nas profundezas do tempo geológico. Durante o “Cretáceo-Estufa”, há 92 milhões de anos, as temperaturas da superfície global aumentaram para cerca de 29.4 graus Celsius e permaneceram quentes durante milhões de anos, permitindo que florestas tropicais florescessem perto do Polo Sul. Há cerca de 250 milhões de anos, a fronteira entre o período Permiano e o Triássico foi marcada por um evento extremo de aquecimento global, onde a temperatura média da Terra rondou os 32.2 graus Celsius durante milhões de anos – de acordo com uma reconstrução preliminar do Instituto Smithsonian.

Durante este período infernal, a Terra passou pelo pior evento de extinção em massa da sua história. Os oceanos tropicais pareciam banheiras de água quente. Não existem dados meteorológicos diários do Permiano (ou de qualquer outro capítulo antigo da história da Terra), mas é provável que no vasto e seco interior do supercontinente Pangeia, a vaga de calor agora sentida no Vale da Morte da Califórnia fosse apenas mais um dia normal.

“Quanto mais quentes forem em média estas condições, mais frequentemente iremos assistir a eventos de calor realmente extremos”, diz Jessica Tierney. “Nos dias mais quentes, durante os períodos de maior calor, lugares como um deserto serão incrivelmente quentes.”

Futuro em aquecimento
Todos os períodos de estufa recentes da Terra parecem ter uma coisa em comum: foram precedidos por um pulso massivo de gases de efeito estufa na atmosfera, seja através de erupções vulcânicas que expelem dióxido de carbono, ou devido ao metano que borbulha debaixo do fundo do mar. Os humanos estão atualmente a impulsionar uma experiência planetária semelhante, queimando enormes reservas de carbono fóssil e aumentando os níveis de dióxido de carbono na atmosfera – a um ritmo nunca visto desde a extinção dos dinossauros, há 65 milhões de anos, e talvez até muito antes disso.

“Normalmente, quando observamos uma alteração rápida no clima [no passado], essa alteração é impulsionada por mecanismos semelhantes ao que estamos a fazer hoje”, diz Kristin Bergmann, cientista da Terra do MIT. “Há uma alteração bastante rápida nos gases de efeito estufa que aquecem o nosso planeta.”

Tal como aconteceu no passado, as temperaturas médias globais estão novamente a subir a um ritmo acelerado. E os dias extremamente quentes também estão a aumentar, com estudo após estudo a concluírem que as recentes temperaturas recorde teriam sido quase impossíveis sem a nossa influência.

É difícil prever exatamente o quão quente a Terra poderá ficar se continuarmos a libertar carbono na atmosfera, dizem os especialistas. Michael Wehner, investigador de climas extremos do Laboratório Nacional Lawrence Berkeley, diz por email: “O aumento nas temperaturas das futuras vagas de calor depende muito da quantidade de dióxido de carbono que emitimos.”

Mas uma investigação feita recentemente por Michael Wehner e pelos seus colegas oferece um vislumbre de como podem vir a ser as vagas de calor do futuro se não restringirmos as nossas emissões de carbono: Até ao final do século, as vagas de calor na Califórnia podem atingir temperaturas com mais cinco ou 10 graus do que as verificadas hoje.

Aquela temperatura que acontece uma vez por século e que foi registada no Vale da Morte em finais de agosto? “Creio que um evento com essa raridade, onde as temperaturas atingiram os 54.4 graus, atinja os 60 graus num futuro de alta emissão”, diz Michael.

Destino semelhante ao de Vénus?
Os mais pessimistas podem referir que isto não é nada em comparação com o que a Terra provavelmente irá passar num futuro distante. Os cientistas planetários previram há muito que, à medida que o sol envelhece e fica mais brilhante, a superfície da Terra irá aquecer até um ponto em que os oceanos começam a ferver. O vapor de água, um potente gás de efeito estufa, irá espalhar-se pela atmosfera, provocando um efeito de estufa descontrolado que, em mil milhões de anos, poderá transformar o nosso mundo em algo parecido com o que acontece em Vénus. Lá, debaixo de uma atmosfera densa, tóxica e sulfurosa, as temperaturas de superfície estão perto dos 475 graus Celsius.

“A teoria é a de que, à medida que o sol continua a brilhar de forma mais intensa, o mesmo acontece na Terra”, diz Paul Byrne, cientista planetário da Universidade Estadual da Carolina do Norte, acrescentando que há milhares de milhões de anos, o nosso vizinho planetário pode ter tido um clima e oceanos agradáveis.

Vénus pode nem sequer ter sido destruído pelo sol. Os modelos recentes sugerem que uma série de paroxismos vulcânicos, que provocaram “libertações bíblicas de CO2 na atmosfera”, podem ter sido os responsáveis, diz Paul Byrne. Mas qualquer um dos cenários – morte planetária devido ao calor do sol, ou devido a vulcões – aponta para um panorama em que eventos muito para além do nosso controlo podem alterar o futuro clima da Terra para algo terrivelmente quente.

“Saber se vai chegar exatamente aos 475 graus Celsius, eu não sei”, diz Paul, referindo-se à temperatura na superfície de Vénus. Mas se a Terra passar por uma transição semelhante à de Vénus, “vai ficar muito, muito quente”.

Mesmo que o nosso Berlinde Azul consiga escapar a um destino semelhante ao de Vénus, não há forma de evitar ser queimado dentro de cerca de cinco mil milhões de anos – quando o sol se irá expandir sob a forma de estrela gigante vermelha, envolvendo a Terra numa onda de fogo.

“A visão predominante é a de que o sol vai engolir a terra”, diz Paul. “Estamos [linguagem explicita excluída].”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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