Desinfetantes Adulterados e Bebidas Alcoólicas de Contrafação Estão a Envenenar Pessoas

Estas substâncias já contribuíram para o ano mais mortal de envenenamento por metanol de que há registo. Saiba como proteger-se.

Friday, August 21, 2020,
Por Carrie Arnold
Apesar de o maior perigo residir no consumo oral, o uso de desinfetantes para as mãos ...

Apesar de o maior perigo residir no consumo oral, o uso de desinfetantes para as mãos contaminados com metanol pode provocar náuseas, vómitos e problemas de visão.

Fotografia de Nick Oxford, Reuters

Muitos ficaram em estado de coma e os que permaneceram conscientes tiveram crises de náuseas, vómitos e hiperventilação. Pior ainda, algumas pessoas ficaram com problemas renais e até de visão – um mundo que outrora era visivelmente cristalino, parecia agora estar a ser transmitido por um canal de televisão com má receção, até que a visão falhou por completo.

Em finais de fevereiro, quando estes pacientes começaram a chegar às salas de urgência dos hospitais do Irão, os médicos tiveram dificuldade em compreender o que estava a acontecer. Mas Hossein Hassanian-Moghaddam, toxicologista clínico do Hospital Loghman Hakim de Teerão, já tinha visto isto anteriormente. Quando os casos do novo coronavírus começaram a devastar o Irão, uma segunda epidemia emergiu na sua sombra. Em meados de março, um surto de envenenamento por metanol atingiu o país.


Quando o coronavírus se começou a propagar por todo o Irão, começou a circular o boato falso de que a ingestão de bebidas com um alto teor alcoólico matava o vírus no corpo. Desesperadas para proteger as suas famílias, as pessoas que normalmente não bebiam bebidas alcoólicas começaram a procurar etanol, o ingrediente típico do álcool consumível. As cadeias de abastecimento aproveitaram a oportunidade para ganhar dinheiro fácil, e o Irão ficou rapidamente inundado por uma bebida venenosa.

Isto resultaria no maior – e mais mortífero – evento alguma vez registado pelos médicos, com 5.876 hospitalizações e pelo menos 800 mortes entre 23 de fevereiro e 2 de maio. Hassanian-Moghaddam diz que até as crianças mais pequenas começaram a aparecer nos hospitais com envenenamento por metanol, depois de ingerirem álcool contaminado que lhes tinha sido dado pelos seus pais, na esperança de combater o coronavírus.

“Nos Estados Unidos, estes incidentes são automaticamente classificados como consumo excessivo de álcool ou intoxicação por álcool. Nem sequer tentam perceber se é metanol.”

por KEMAL CANLAR, SAFEPROOF.ORG

Mas o Irão não está sozinho. De acordo com os dados recolhidos pelos Médicos Sem Fronteiras, 2020 já assistiu a quase 7 mil casos e 1.607 mortes relacionadas com o envenenamento por metanol – o suficiente para fazer deste o ano mais mortal de que há registo. Knut Erik Hovda, médico do Hospital da Universidade de Oslo e um dos melhores especialistas mundiais em envenenamento por metanol, diz que estes casos provavelmente representam apenas a ponta do icebergue.

“O envenenamento por metanol é um problema extremamente pouco reconhecido”, diz Hovda, “e também sabemos que só uma fração dos casos é diagnosticada”.

Países como o México, a República Dominicana e os Estados Unidos também enfrentam o envenenamento por metanol. O metanol, também conhecido por álcool metílico, é usado como solvente industrial. Como é muito barato e imita as propriedades do etanol, os fabricantes sem escrúpulos diluem muitas vezes o álcool mais caro com metanol. Este problema é mais comum em países com leis mais permissivas ou que dependem de bebidas alcoólicas vindas do mercado negro. As disrupções provocadas pela COVID-19 tornaram o etanol adulterado ainda mais comum, dando origem a um aumento no envenenamento por metanol, seja através de bebidas alcoólicas ou de produtos como desinfetante para as mãos.

“Muito do álcool presente no mercado estava contaminado”, diz Hassanian-Moghaddam sobre a situação no Irão, “e não havia falta de pessoas desejosas de comprar álcool barato”.

Química de um veneno
O metanol e o etanol são parentes químicos próximos. Enquanto que o etanol tem dois átomos de carbono, o metanol só tem um. Ambos são líquidos transparentes que se podem evaporar rapidamente e também têm um gosto semelhante. Mas depois de ingeridos, as semelhanças desaparecem. Se bebermos um shot de etanol de alto teor, podemos ficar ligeiramente atordoados. Mas se bebermos uma dose equivalente de metanol, podemos estar mortos na manhã seguinte. Menos de uma colher de sopa de metanol puro (10 mililitros) pode matar.

O fígado usa enzimas, incluindo enzimas chamadas álcool desidrogenase, que fazem com que o etanol passe de uma toxina leve para uma substância química inofensiva chamada acetato. O fígado também usa álcool desidrogenase para decompor o metanol – e é aí que começam os problemas.

Em vez de se tornar num bloco químico de construção inofensivo, o corpo metaboliza o metanol em ácido fórmico tóxico. O ácido fórmico interfere com a capacidade de produção de energia das células. Com o tempo, isto pode privar as células do oxigénio e da energia que necessitam – um problema enorme para os nervos óticos famintos de energia, deixando assim muitas das vítimas de envenenamento por metanol com cegueira permanente.

“Muito do álcool contaminado é uma mistura entre metanol e etanol... Dependendo da quantidade de etanol que uma pessoa bebe, pode demorar vários dias até que apareçam os sintomas de envenenamento por metanol.”

A decomposição do metanol também cria um desequilíbrio nos níveis estritamente regulamentados de ácidos e bases do corpo, explica Frank Edwards, médico do Centro Médico Arnot Ogden de Elmira, em Nova Iorque.

“Em caso de envenenamento por metanol, este desequilíbrio é criado pela acumulação de ácido fórmico.”

Embora os exames sanguíneos básicos consigam muitas vezes fornecer pistas sobre o envenenamento por metanol, o diagnóstico não é fácil de fazer. A maior parte do álcool contaminado é uma mistura entre metanol e etanol, e as enzimas álcool desidrogenase decompõem todo o etanol presente no corpo antes de começarem a decompor o metanol. Dependendo da quantidade de etanol que uma pessoa bebe, pode demorar vários dias até que apareçam os sintomas de envenenamento por metanol. Assim, um indivíduo pode não conseguir associar os sintomas ao consumo, e os médicos nem sempre o descobrem, diz Kemal Canlar, fundador da SafeProof.org.

“Nos Estados Unidos, estes incidentes são automaticamente classificados como consumo excessivo de álcool ou intoxicação por álcool”, diz Canlar. “Nem sequer tentam perceber se é metanol.”

O grande negócio da contrafação
Diagnosticar o envenenamento por metanol é no mínimo difícil, muitas vezes devido a questões culturais. Nos países islâmicos como o Irão, onde o álcool é ilegal, as pessoas geralmente têm relutância em revelar que beberam, porque receiam as repercussões, diz Hassanian-Moghaddam. O mesmo acontece com as pessoas que consomem deliberadamente produtos que contêm metanol, como o líquido de limpeza do para-brisas. E como o envenenamento por metanol costuma provocar alterações no discernimento de uma pessoa, pode ser impossível perguntar diretamente a um paciente o que aconteceu.

Mas se os médicos conseguirem fazer um diagnóstico antecipadamente, o tratamento pode salvar vidas. “Se chegarem com antecedência suficiente ao meu consultório, eu garanto que conseguem sair com vida”, diz Hovda.

Há um medicamento que pode ser receitado, chamado Fomepizol, que se liga à álcool desidrogenase e que a impede de transformar o metanol em ácido fórmico. Se não houver Fomepizol disponível, os médicos podem tratar o envenenamento por metanol com o próprio etanol. Ambas as estratégias permitem que o corpo consiga expelir o metanol antes de este se transformar em ácido fórmico.

A ideia de que o etanol é o principal antídoto para o envenenamento por metanol, para além de irónica, também é usada como desculpa para a adulteração que é feita por parte dos produtores desonestos, diz Canlar. “Os contrafatores acreditam que, se usarem algum etanol, ele irá neutralizar os efeitos nocivos do metanol. Outros simplesmente não sabem que o metanol é tóxico – ou não se importam.” A Euromonitor International estima que cerca de 25% do mercado global de álcool, no valor de 1.6 biliões de dólares, vem das vendas ilícitas. O álcool contrafeito pode variar entre a bebida mais barata que é vendida como um produto de qualidade e as misturas que usam metanol tóxico.

“Independentemente do quão barato se possa produzir álcool, é sempre possível obter metanol industrial ainda mais barato. Quando se mistura metanol num licor, é possível vender muito mais álcool e ganhar muito mais dinheiro com isso”, diz Hovda.

Esta questão atraiu a atenção da imprensa nos últimos anos, quando turistas que viajaram para a Indonésia, México e República Dominicana adoeceram ou morreram depois de terem ingerido álcool contaminado. Noutros países, onde a venda de álcool é proibida, a única fonte de bebidas alcoólicas é o mercado negro. E o etanol puro que é vendido para uso industrial também é por vezes enriquecido com metanol, aparentemente para evitar a sua utilização na contrafação de bebidas alcoólicas. Isto faz com que o álcool adulterado seja um grande problema em lugares como o Irão, de acordo com Hassanian-Moghaddam.

“Apesar disso, não há um único país que recolha normalmente dados sobre o número de casos de envenenamento por metanol, em grande parte porque este problema afeta maioritariamente os cidadãos mais pobres e marginalizados, muitos dos quais também bebem em excesso”, diz Hovda. São pessoas que muitas vezes não podem comprar opções mais seguras e que acabam por ficar vulneráveis às bebidas alcoólicas contaminadas.

Por esta razão, Hovda precisa de recolher informações sobre o envenenamento por metanol através das notícias, algo que faz com um orçamento apertado e com a ajuda de alguns colaboradores voluntários da organização Médicos Sem Fronteiras. O documento resultante desta colaboração é uma simples folha de cálculo Google, mas é a única fonte de dados que o mundo possui sobre os casos de envenenamento por metanol.

A faceta suja da desinfeção
Embora este fenómeno seja muito mais raro nos EUA do que noutros países, devido a regulamentações mais rígidas sobre a venda e distribuição de álcool, as pessoas que são afetadas pelo envenenamento por metanol nos EUA tendem a ser desproporcionalmente pobres e pertencem a minorias, diz Susan Smolinske, diretora do Centro de Informações sobre Intoxicações e Medicamentos do Novo México.

Foi isto que Smolinske descobriu em maio, quando recebeu um telefonema do seu colega Steve Dudley, do centro homónimo do Arizona, em Phoenix. Brooks recebeu relatórios de médicos de todo o estado do Arizona que diziam que algumas pessoas, a maioria homens na casa dos 30 e 40 anos, tinham dado entrada em hospitais com envenenamento por metanol. Depois de conduzir uma investigação semelhante no Novo México, Smolinske, Brooks e uma equipa de epidemiologistas dos Centros de Controlo e Prevenção de Doenças dos EUA identificaram 15 casos de envenenamento por metanol nos dois estados, entre o dia 1 de maio e 30 de junho. Quatro destes indivíduos morreram, e três ficaram com deficiências visuais permanentes. Smolinske diz que, em julho, mais quatro pessoas foram hospitalizadas no Novo México.

Todos os casos envolviam desinfetantes para as mãos à base de etanol – contaminados com metanol – produzidos no México. À medida que a pandemia começou a desviar o etanol para a produção de desinfetante para as mãos, os confinamentos impostos em ambos os estados também tornaram mais difícil a obtenção de bebidas alcoólicas por parte dos dependentes. Desta forma, as pessoas – quase todos homens com idades entre os 21 e os 60 anos e com problemas de alcoolismo – beberam o desinfetante para as mãos mais barato que conseguiram encontrar nas lojas e nos postos de abastecimento de gasolina.

Desde então, a Food and Drug Administration dos EUA já emitiu alertas sobre uma variedade de desinfetantes para as mãos devido a problemas com envenenamento por metanol. Smolinske acrescenta que o perigo reside principalmente no consumo oral destes desinfetantes, visto que a exposição da pele provavelmente não é suficiente para provocar grandes problemas.

No Século XIX Ir ao Médico Podia Matá-lo
A profissão médica americana era amplamente desregulada e perigosa antes da descoberta dos germes no século XIX. O saneamento não era sofisticado, os cadáveres eram manuseados perto de pacientes vivos e alguns médicos usavam uniformes ensanguentados como medalhas de honra. No entanto, a descoberta dos germes revolucionou a medicina, transformando-a na prestigiosa prática e área de estudo que conhecemos hoje.

“Mesmo com 100% de metanol, demoraria cerca de seis horas de imersão completa das mãos para atingir um nível tóxico de metanol”, diz Smolinske, citando um estudo feito em 1980 que mediu a rapidez com que o metanol é absorvido pela pele. Mas a utilização de desinfetante contaminado pode provocar náuseas, vómitos e problemas de visão – sem esquecer que o metanol é ineficaz na eliminação de micróbios.

Apesar de Hassanian-Moghaddam dizer que o surto devastador de envenenamento por metanol diminuiu no Irão nas últimas semanas, o documento de Hovda mostra um aumento no envenenamento por metanol noutras partes do mundo, incluindo no México, na Índia, na Indonésia e na República Dominicana. As notícias recolhidas por Canlar, da SafeProof.org, também revelam um aumento na apreensão de bebidas contrafeitas, muitas das quais contaminadas com metanol, em locais como o Camboja, a Turquia e a África do Sul.

Hovda espera que estes incidentes aumentem a visibilidade dos envenenamentos por metanol no mundo inteiro e que estimulem a produção de testes baratos e confiáveis para testar o álcool contaminado.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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