Fóssil Impressionante Revela Predador Marinho de 4 Metros Dentro do Estômago de Outro

Acreditava-se que os ictiossauros, répteis parecidos com golfinhos, costumavam matar presas pequenas. Mas um novo fóssil sugere que estes animais podem ter sido os primeiros “megapredadores”.

Monday, August 24, 2020,
Por Jason Bittel
Esta ilustração mostra um grupo de Besanosaurus, um género de ictiossauros, antigos répteis marinhos parecidos com ...

Esta ilustração mostra um grupo de Besanosaurus, um género de ictiossauros, antigos répteis marinhos parecidos com golfinhos ou baleias. Um novo estudo revela que o fóssil de um parente próximo do Besanosaurus, o Guizhouichthyosaurus, preserva a sua refeição final.

Fotografia de FABIO MANUCCI (ILUSTRAÇÃO)

Há cerca de 240 milhões de anos, um réptil marinho enorme engoliu outro réptil um pouco mais pequeno e morreu pouco tempo depois. A criatura maior – um réptil parecido com um golfinho, conhecido por ictiossauro – fossilizou com o animal mais pequeno dentro do seu estômago.

Os dois répteis permaneceram aprisionados em rocha até 2010, quando cientistas no sudoeste da China começaram a escavar o fóssil. Agora, os cientistas dizem que muito do que pensávamos saber sobre a vida e morte no oceano pré-histórico pode ser alterado por este turducken de monstros marinhos. (Turducken é uma curiosidade culinária onde se cozinha um frango desossado dentro de um pato desossado que está dentro de um peru desossado.)


Neste fóssil único, a criatura mais pequena dentro do estômago do ictiossauro era um talattossauro, um antigo réptil marinho com um corpo longo e magro que se parecia mais com um lagarto do que com um peixe. Quando Ryosuke Motani, paleontólogo da Universidade da Califórnia, em Davis, percebeu que havia um torso quase completo de um talattossauro de quatro metros de comprimento dentro do estômago de um ictiossauro de cinco metros de comprimento, percebeu que a sua equipa tinha encontrado algo inédito. O estudo que descreve o fóssil foi publicado no dia 20 de agosto na revista iScience.

Um espécime de talattossauro encontrado dentro do estômago de um ictiossauro.

Fotografia de JIANG ET AL

Os ictiossauros respiravam ar à superfície e reproduziam-se ainda jovens. Enquanto que algumas espécies atingiam tamanhos que se aproximavam das dimensões de uma baleia-azul, os primeiros ictiossauros, como o Guizhouichthyosaurus examinado por Motani, eram mais pequenos, talvez com quatro a seis metros de comprimento. Acredita-se que estes antigos animais marinhos se alimentavam de cefalópodes semelhantes a lulas. Aliás, acreditava-se que nenhum dos animais aquáticos deste período atacasse presas grandes; a ideia era a de que esse tipo de monstro marinho só tivesse evoluído mais tarde.

Mas, de acordo com Motani, este novo fóssil sugere que os primeiros ictiossauros estavam entre os primeiros “megapredadores” da era mesozoica, ou animais de grande porte que atacavam outros animais de tamanhos semelhantes. “Eles alimentavam-se de animais maiores do que humanos”, diz Motani.

Crime pré-histórico por desvendar
Descortinar um evento que ocorreu há centenas de milhões de anos acarreta vários desafios. Para começar, Motani e a sua equipa precisavam de provar que o ictiossauro tinha realmente comido o talattossauro – o réptil marinho mais pequeno podia simplesmente ter fossilizado por cima do ictiossauro por mero acaso.

“Felizmente, neste caso, há uma forma de saber”, diz Motani. A caixa torácica do ictiossauro envolve a parte superior da presa, indicando que o talattossauro era de facto uma refeição. Mas que tipo de refeição era é outra questão importante. O ictiossauro pode ter ingerido a carcaça de um talattossauro que morreu por outros motivos.

Contudo, dentro do ictiossauro, Motani e os seus colegas encontraram o que acreditam ser duas secções longas e intactas das vértebras do talattossauro. Estes ossos fossilizados sugerem que a coluna vertebral ainda estava unida por tecidos e que não foi ingerida aos poucos como se fosse uma pasta em decomposição.

O crânio e a cauda do talattossauro não constam dos conteúdos estomacais. A equipa descobriu um pedaço da cauda do talattossauro a cerca de 20 metros de distância do ictiossauro – e apesar de não ser possível provar que pertence ao mesmo animal, “a questão é que o tamanho desta cauda encaixa perfeitamente”, diz Motani.

A equipa acredita que o ictiossauro atacou e matou o talattossauro, provavelmente à superfície da água. O predador terá depois tratado da carcaça, tentando engoli-la inteira ou em pedaços muito grandes, como um crocodilo a comer a sua presa. Através de alguma combinação entre mastigar e morder, o pescoço e a cauda mais finos do talattossauro podem ter-se separado e afastado, enquanto o ictiossauro se concentrava nos pedaços maiores e mais carnudos.

Esta imagem mostra o espécime de ictiossauro com o seu conteúdo estomacal a sair do corpo.

Fotografia de Ryosuke Motani

Como não podemos viajar no tempo para observar as refeições pré-históricas, os cientistas costumam observar os dentes fósseis para determinar o que um animal antigo poderia estar a mastigar. No caso dos primeiros ictiossauros, os seus dentes pontiagudos e em forma de cone sugerem uma preferência por refeições mais delicadas, ao contrário dos dentes afiados e serrilhados tradicionalmente associados aos predadores de topo.

Mas o novo fóssil sugere que os cientistas nem sempre podem confiar no formato dos dentes para perceber o que uma determinada espécie comia, diz Stephen Brusatte, paleontólogo da Universidade de Edimburgo, no Reino Unido, que não participou no estudo. Em vez de se ficarem apenas pelos cefalópodes, alguns dos primeiros ictiossauros podem ter sido ousados o suficiente para perseguir refeições mais substanciais.

“Por vezes, os detalhes de uma cena de um crime pré-histórico dizem-nos que uma arma poderia ser capaz de provocar mais danos do que pensávamos”, diz Brusatte.

Última refeição de um ictiossauro
Encontrar conteúdos estomacais fossilizados é extremamente raro, diz Jessica Lawrence Wujek, geóloga e paleontóloga da Faculdade Howard Community, em Maryland, que não participou no estudo. Lawrence Wujek examinou centenas de espécimes de ictiossauro e diz que apenas um ou dois tinham conteúdos estomacais fossilizados – chamados bromálitos.

“São raras as vezes em que encontramos conteúdos estomacais preservados, sobretudo coisas enormes como esta”, diz Lawrence Wujek. “É um fóssil impressionante.”

Os ossos do talattossauro não mostram sinais evidentes de terem sido digeridos, pelo que é provável que o ictiossauro tenha morrido quase imediatamente a seguir à sua refeição. O fragmento da cauda que assentou e fossilizou nas proximidades tem mais ou menos a mesma idade do ictiossauro, fornecendo outra pista de que o animal morreu pouco tempo depois da sua enorme refeição.

Apesar de o talattossauro ter quase o mesmo comprimento do ictiossauro, Motani estima que pesava apenas um oitavo. Ainda assim, era um animal que poderia dar luta.

“Isto é pura especulação, mas talvez durante aquela luta uma parte do pescoço [do ictiossauro] tenha sido danificada até certo ponto”, diz Motani. Embora não seja possível determinar com precisão o que aconteceu, este ferimento pode ter ficado ainda pior quando o predador se contorceu na tentativa de engolir a sua refeição arduamente conquistada.

A vida encontra um caminho
Para além do fascínio exercido pela imagem de dois monstros marinhos envolvidos numa batalha mortal, o fóssil também revela como os ecossistemas conseguem recuperar rapidamente, diz Aubrey Jane Roberts, paleontóloga que estuda répteis marinhos antigos na Universidade de Oslo, na Noruega, e que não participou no novo estudo.

“Houve uma enorme extinção em massa, particularmente no reino marinho, há cerca de 252 milhões de anos”, diz Aubrey, que também é Exploradora da National Geographic. “Cerca de 90% de todas as espécies marinhas morreram.” Considerando a magnitude desta perda, é incrível que a vida tenha sido capaz de recuperar e diversificar como o fez em apenas alguns milhões de anos”, diz Aubrey. Mas é particularmente impressionante que um comportamento de “megapredador” como o exibido pelo ictiossauro tenha surgido tão cedo após a extinção, já que os cientistas acreditam que os predadores de topo estão entre os últimos animais que se desenvolvem quando uma cadeia alimentar está em reconstrução.

“É por isso que este estudo é tão importante”, diz Roberts. “O estudo conta uma história sobre como os mares recuperaram da destruição basicamente total para um ecossistema completamente formado.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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