Nova Família de Microalgas Descoberta por Cientistas Portugueses

Cientistas portugueses da Universidade de Coimbra descobriram uma nova família de microalgas de água doce com interesse biotecnológico. Referimo-nos à Neomonodaceae, a nova linhagem de microalgas.

Wednesday, August 26, 2020,
Por National Geographic
Células de Characiopsiella minima ACOI 2426, vistas em microscopia ótica.

Células de Characiopsiella minima ACOI 2426, vistas em microscopia ótica.

Fotografia de Raquel Amaral

O estudo, que teve a duração de três anos, foi conduzido por uma equipa de investigadores da Universidade de Coimbra, em colaboração com a Universidade de Carlos, em Praga, a Universidade de Ostrava e o Instituto de Biologia do Solo da Academia Checa das Ciências, na República Checa, e a Universidade de Ozarks, nos Estados Unidos.

Para além de permitir concluir que existe uma nova família de microalgas de água doce, a investigação possibilitou identificar e descrever a nova linhagem deste organismo, que possui interesse comercial, pertencente à classe Eustigmatophyceae. A mesma tem também interesse biotecnológico, na medida em que é reconhecida devido a algumas espécies serem ricas em antioxidantes, carotenoides e lípidos de valor nutricional e com interesse para biodiesel.

O valor biotecnológico é promissor, uma vez que estas algas se revelam fáceis de cultivar e não requerem uso de terreno arável, embora ainda acarretem custos elevados de produção.


Tal como acontece com outras famílias da mesma classe, os géneros de microalgas descobertos no decorrer da investigação, demonstram potencial para dar origem a compostos de interesse farmacêutico, cosmético ou para aquacultura.

Coleção de microalgas contribuiu para a designação da nova linhagem
No decorrer da investigação, tornou-se fundamental o estudo de estirpes de microalgas mantidas em cultura na Algoteca de Coimbra (ACOI), uma das maiores coleções de microalgas de água doce do mundo.

No recurso a essa coleção, sete estirpes contribuíram para a nova linhagem genética de microalgas, constituindo dois dos novos géneros. Um deles foi denominado Munda, em homenagem ao rio Mondego (Munda, em romano), de onde provém a maioria destes organismos.

Células de Munda aquilonaris ACOI 2424, observadas em microscopia eletrónica de transmissão.

Fotografia de Lília Santos

A observação morfológica e genética para a determinação filogenética de dez novas estirpes, que resultou na descoberta de três novos géneros desta classe, foi objeto de estudo da tese de doutoramento de Raquel Amaral, investigadora no projeto.

A Algoteca de Coimbra está instalada no Departamento de Ciências da Vida da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra e é coordenada pela Professora Lília Santos, orientadora da tese de doutoramento de Raquel Amaral.

As microalgas são unicelulares e organismos microscópicos
Em biologia aquática, chamam-se microalgas, as algas unicelulares que crescem em água doce ou salgada, variando o seu tamanho em poucas centenas de micrómetros. 

As espécies incluídas na nova família são organismos unicelulares, com uma forma alongada. A maioria demonstra um pé, por onde se fixam ao substrato. As espécies distinguem-se pela ausência de uma estrutura celular intitulada de pirenoide, para além das diferenças genéticas que originam a sua segregação das outras famílias de Eustigmatophyceae.

Os métodos de base genética revelam-se cruciais no presente estudo, uma vez que os organismos são microscópicos e, muitas vezes, as espécies diferentes podem ser muito parecidas.

Lília Santos, reitera a importância do estudo destas algas unicelulares na medida em que “as microalgas são o material biológico do futuro, a matéria-prima para novas descobertas, novas aplicações em áreas tão diversas como: a alimentar, farmacêutica, cosmética, das energias alternativas, da biorremediação e mesmo espacial. Conhecem-se cerca de 30 mil espécies, mas apenas cerca de 50 estão relativamente bem estudadas, e menos de 20 são exploradas comercialmente, por isso as possibilidades futuras do seu uso são inúmeras. As microalgas são atualmente vistas como uma das fontes mais promissoras de novos compostos e aplicações.”

Os benefícios associados a estes organismos ainda vão mais longe. “Sem microalgas não haveria vida no Planeta, tal como o conhecemos. As microalgas são a base das cadeias alimentares nos sistemas aquáticos; são responsáveis pela maioria do oxigénio libertado para a atmosfera, que a maioria dos organismos usa para respirar; estão presentes em inúmeras associações simbióticas; a sua biomassa é utilizada em alimentação humana e animal (particularmente em sistemas de aquacultura); compostos de grande valor são extraídos da biomassa algal e usados em diversas indústrias. Lília Santos acrescenta ainda que "numerosos estudos mostram a capacidade antioxidante, antimicrobiana, anticancerígena e antivírica de diferentes tipos de microalgas, pelo que há toda uma potencialidade para o isolamento de novas moléculas e o seu uso futuro na área da saúde e no combate a muitas das doenças mais letais.”

Para além do suporte a este estudo, a Algoteca de Coimbra desempenha diversas funções importantes. Lília Santos explica que “é um centro de recursos biológicos microbianos com experiência em ficologia, que desenvolve trabalho científico e didático com microalgas. Visa promover a sustentabilidade e melhorar a qualidade de vida através de microalgas, desenvolvendo pesquisas fundamentais e aplicadas, fornecendo paralelamente produtos e serviços de alta qualidade. As instalações incluem salas de cultivo com a maior das coleções de microalgas vivas a nível mundial e quatro laboratórios bem equipados.”

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