O Dinossauro Mais Pequeno de Que Há Conhecimento é Na Verdade Um Antigo Lagarto Peculiar

Um fóssil envolto em âmbar que parecia ser de um dinossauro do tamanho de um beija-flor foi agora reclassificado como um lagarto de olhos grandes.

Wednesday, August 19, 2020,
Por Michael Greshko
Há cerca de 99 milhões de anos, onde atualmente fica Mianmar, a resina de uma árvore ...

Há cerca de 99 milhões de anos, onde atualmente fica Mianmar, a resina de uma árvore sepultou o Oculudentavis khaungraae, um animal enigmático agora classificado como lagarto.

Fotografia de STEPHANIE ABRAMOWICZ (ILUSTRAÇÃO)

Um fóssil preservado em âmbar recentemente descrito revela que uma criatura com 99 milhões de anos, chamada Oculudentavis, que tinha sido anunciada como um dinossauro do tamanho de um beija-flor, era muito provavelmente um tipo bizarro de lagarto.

Em março, o primeiro crânio conhecido envolto em âmbar de um Oculudentavis foi noticiado pelo mundo inteiro, aparecendo na capa da revista científica Nature e recebendo uma ampla cobertura na imprensa, incluindo na National Geographic. Os cientistas interpretaram o crânio de 14 milímetros de comprimento como sendo os restos preservados de uma ave primitiva com dentes e olhos de lagarto. Como estes tipos de aves pré-históricas estão enquadrados na árvore genealógica dos dinossauros, a descoberta foi considerada o fóssil de dinossauro mais pequeno alguma vez encontrado.


No entanto, o fóssil original era apenas um crânio, desconhecendo-se a aparência do resto do corpo. Agora, uma equipa de paleontólogos identificou um segundo fóssil de Oculudentavis que inclui um crânio e porções adicionais do corpo. Este fóssil confirma que o animal era na verdade um lagarto – embora um pouco estranho.

“Temos esta coisa esquisita de olhos grandes e com uma espécie de nariz com uma crista que, à primeira vista, não se parece nada com um lagarto”, diz Susan Evans, paleontóloga da University College de Londres e coautora do estudo. “É estranho, mas é um lagarto.”

Este pedaço de âmbar cortado e polido contém o segundo espécime conhecido de Oculudentavis, o primeiro fóssil a conter partes do corpo deste animal para além da cabeça.

Fotografia de Adolf Peretti, PMF

Apesar de o termo “dinossauro” vir do grego para “lagarto terrível”, os verdadeiros lagartos e dinossauros divergiram uns dos outros há aproximadamente 270 milhões de anos. Os olhos grandes e a anatomia do maxilar do Oculudentavis sugerem que este animal era ativo durante o dia e que mordia as suas presas, como pequenos insetos, com uma dentada rápida, mas fraca. Estes traços semelhantes aos das aves também sugerem que o lagarto e as aves suas contemporâneas enfrentaram pressões evolutivas semelhantes: talvez um gosto partilhado por insetos ou uma vida partilhada nas árvores. A evolução moldou gradualmente o Oculudentavis e as aves, suas parentes distantes, de formas semelhantes – um processo muito parecido com o que conferiu aos mamíferos marinhos corpos aerodinâmicos semelhantes aos de peixes.

“O crânio do Oculudentavis é notavelmente diferente de qualquer lagarto conhecido e representa um exemplo surpreendente de evolução convergente”, escrevem os investigadores numa pré-impressão que descreve o novo fóssil.

Redefinir uma criatura antiga
Tal como o fóssil original de Oculudentavis, o novo espécime também vem das minas de âmbar do estado de Kachin, no norte de Mianmar. Lado a lado, os dois fósseis não são exatamente iguais: o focinho do espécime original parece mais afunilado, ao passo que o focinho do novo espécime parece ter uma crista central. Para alguns paleontólogos externos, é uma diferença suficiente para sugerir que podem pertencer a espécies diferentes. “Este tipo de precisão mais exata está ligeiramente aberta a interpretações”, diz Ryan Carney, paleontólogo da Universidade do Sul da Flórida que não participou nos estudos.

Porém, os autores do novo estudo dizem que, comparando osso a osso, os dois fósseis são anatomicamente semelhantes o suficiente para justificar a classificação de ambos na mesma espécie – Oculudentavis khaungraae. As diferenças entre os dois espécimes podem dever-se à forma como cada fóssil se deformou ao longo do tempo, ou talvez porque um é macho e o outro é fêmea.

Analisando o formato dos ossos do maxilar e as aberturas na parte de trás do crânio, o novo fóssil de Oculudentavis tem muitos traços característicos de um lagarto. Embora os crânios sejam parecidos com os das aves, o Oculudentavis não tem muitos dos traços específicos dos dinossauros, como um par de orifícios na zona frontal das órbitas oculares que costumam surgir nos terópodes, o grupo de dinossauros que deu origem às aves. E, ao contrário dos dentes encrustados dos dinossauros, os dentes do novo crânio fóssil estão fundidos nos limites internos do maxilar, como acontece com os dentes dos lagartos. O novo fóssil também preserva escamas e uma região no ombro semelhante à de um lagarto.

A descrição do novo fóssil de Oculudentavis foi submetida à revista científica eLife, mas ainda não foi revista por pares e formalmente publicada. Os investigadores afirmam que divulgaram as suas descobertas antecipadamente para responder aos rumores generalizados de um segundo espécime. “Chegámos a um ponto em que pensámos que seria melhor [publicar uma pré-impressão] para acabar com a especulação”, diz Evans.

Usando raios-x de alta frequência de um acelerador de partículas, os investigadores analisaram o novo fóssil de Oculudentavis para observar detalhes tão pequenos quanto um glóbulo vermelho humano.

Fotografia de Edward L. Stanley

A nova pré-impressão não é a primeira a sugerir que o Oculudentavis era um lagarto. No início de junho, com base na anatomia incomum do crânio original, uma equipa externa de paleontólogos chineses publicou as suas suspeitas de que o Oculudentavis não era um dinossauro. Agora, com o segundo fóssil em mãos, os cientistas que originalmente descreveram o Oculudentavis como sendo uma ave com dentes concordam que a criatura não era um dinossauro.

“Eu acredito realmente que [os investigadores do novo artigo] estão corretos, trata-se de um lagarto”, diz Jingmai O’Connor, coautora do estudo original e paleontóloga do Instituto de Paleontologia e Paleoantropologia de Vertebrados da China. “Este espécime mostra conclusivamente que o Oculudentavis não é uma ave.”

No dia 22 de julho, o estudo original que descrevia o Oculudentavis foi retirado da Nature para “evitar que informações imprecisas permanecessem na literatura”.

“É chocante... é realmente uma coisa em grande”, diz Mark Scherz, especialista em répteis e investigador de pós-doutoramento na Universidade de Konstanz da Alemanha. “Por outro lado, é a coisa certa a fazer.”

Os erros de identificação não são invulgares na paleontologia. O registo fóssil é difícil de interpretar, sobretudo quando se trata de espécimes incompletos. Este tipo de ações diretas dentro deste campo são raras, mas há exemplos recentes que envolveram falsificações de fósseis.

Para O’Connor, o Oculudentavis representa uma história de advertência. “Mesmo no estudo, pensávamos que o espécime tinha olhos de lagarto. Portanto, são coisas que reconhecemos anteriormente, mas acabamos por ter uma visão adulterada em relação às aves. Em retrospetiva, é mais fácil de avaliar.”

Fósseis controversos
A atenção global dada ao Oculudentavis também destaca a ética em torno do estudo do âmbar birmanês. As áreas de mineração ficam dentro de uma região que vive fustigada por um conflito de longa data entre os militares de Mianmar e os rebeldes que lutam pela independência do estado de Kachin. De acordo com o Kachin Development Networking Group, foi feita uma ofensiva militar em 2018 para assumir as áreas de mineração de âmbar e que deslocou milhares de indígenas de Kachin. Em 2019, um relatório do Conselho dos Direitos Humanos das Nações Unidas descobriu que o conflito na região era motivado em parte pelo desejo da exploração de recursos naturais, incluindo ouro, jade e âmbar.

“Até então, a maioria das pessoas na comunidade [da paleontologia] não tinha noção de como é que aquele âmbar chegava ao mercado e da quantidade de problemas que isso acarretava”, diz Scherz.

Em abril, a Sociedade de Paleontologia de Vertebrados distribuiu uma carta pelas revistas científicas, pedindo inicialmente uma moratória sobre a publicação de descrições de fósseis de âmbar birmanês comprados depois de junho de 2017, para evitar quaisquer materiais associados à ofensiva de 2018. O crânio original do Oculudentavis foi adquirido em 2016.

No entanto, o relatório da ONU não recomenda uma moratória completa sobre a atividade empresarial em Mianmar. Em vez disso, pede que as empresas garantam que as suas operações e cadeias de abastecimento respeitem os direitos humanos e que não tenham ligações com as forças de segurança de Mianmar. No dia 22 de julho de 2020, a Sociedade de Paleontologia de Vertebrados enviou uma carta de acompanhamento com mais informações sobre o conflito, incluindo o relatório da ONU.

“Reconhecemos que alguns espécimes de âmbar podem não estar ligados ao comércio ilegal e aos abusos dos direitos humanos, mas a situação em Mianmar é demasiado complexa e os cientistas devem estar cientes de que o comércio de âmbar tem sido usado nos conflitos internos”, escreveu a Sociedade de Paleontologia de Vertebrados.

Os investigadores responsáveis pelo novo fóssil de Oculudentavis afirmam que trabalharam arduamente para obter o espécime de forma ética, que surgiu em finais de 2017, quando o gemólogo e colecionador de âmbar Adolf Peretti – um dos coautores do novo estudo – viu o fóssil durante uma visita humanitária a Kachin. Num email enviado à National Geographic, Peretti diz que um gemólogo birmanês local, com ligações às igrejas locais, recuperou o fóssil posteriormente. Em 2018, Peretti levou o fóssil em consignação, acabando por o comprar no ano seguinte.

Peretti é especialista em autenticação de gemas coloridas, um processo que ele espera aplicar ao âmbar birmanês. No estudo, Peretti afirma que “nenhum do dinheiro da venda deste espécime de âmbar foi direcionado para apoiar o conflito em Kachin”. E acrescenta que os fundos da venda foram distribuídos por instituições de caridade birmanesas.

A pré-impressão diz que o fóssil foi exportado legalmente para a Suíça e que agora é supervisionado pela Fundação Museu Peretti, uma organização sem fins lucrativos fundada recentemente por Peretti. De acordo com a lei suíça, todos os fósseis da fundação – incluindo o novo Oculudentavis – devem ser mantidos indefinidamente para a ciência. Peretti diz que os investigadores podem ver e estudar os fósseis na sede suíça da organização.

Para Juan Daza, coautor do novo estudo e paleontólogo da Universidade Estadual Sam Houston, o estudo pode oferecer um modelo sobre como obter âmbar birmanês de forma ética, mesmo com as complexidades do conflito na região. “Estamos a tentar fazer as coisas de forma correta”, diz Daza.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

Continuar a Ler