Plasma Sanguíneo Anunciado Como Avanço no Combate à COVID-19. Mas Será que Funciona?

Os EUA concederam uma autorização de emergência para o uso de plasma convalescente, mas a ciência em torno deste tratamento ainda não reúne consenso.

Wednesday, August 26, 2020,
Por Michael Greshko
O plasma convalescente é usado há mais de um século para combater doenças infecciosas, mas será ...

O plasma convalescente é usado há mais de um século para combater doenças infecciosas, mas será que está pronto para combater a COVID-19?

Fotografia de Sergei Bobylev, TASS via Getty Images

No início deste ano, havia a esperança de que a transferência de plasma sanguíneo de pacientes recuperados de COVID-19 para pessoas com a doença pudesse ser uma forma de tratamento para os piores casos. Antes da pandemia de gripe de 1918, os médicos já contavam com este tratamento tradicional – conhecido por plasma convalescente – para combater surtos. Dado que o plasma sanguíneo está repleto de anticorpos que se focam nos germes invasores – como o coronavírus – esta terapia tem sido usada há muito tempo como uma forma simples de partilha de imunidade.

Mas meses depois do início deste esforço, os dados sobre plasma convalescente ainda não confirmaram a sua eficácia no tratamento da COVID-19, apesar de decorrerem mais de 70 estudos clínicos pelo mundo inteiro. Agora, uma destas investigações encontra-se no centro de uma tempestade política e académica.

No dia 23 de agosto – um dia depois de acusar a agência Food and Drug Administration (FDA) dos EUA de avanços lentos nas terapias e vacinas para o coronavírus – o presidente Donald Trump anunciou uma autorização de emergência da FDA para o plasma convalescente ser usado no tratamento da COVID-19. O movimento mais recente da administração Trump na corrida para aprovar tratamentos para a pandemia baseia-se em grande parte nos resultados preliminares positivos divulgados no início de agosto pela Clínica Mayo, um centro médico de renome mundial sediado em Rochester, no Minnesota. O estudo, que ainda não foi revisto por pares, informa que a infusão de plasma dentro do prazo de três dias de hospitalização reduziu a taxa de mortalidade dos pacientes em 3.2%.


Embora este estudo tenha recebido milhões de dólares federais e envolvido dezenas de milhares de pacientes nos EUA, tem uma falha gritante. O estudo carece de um grupo de controlo – pessoas que não receberam plasma – para servir como ponto de comparação. Este problema faz com que as descobertas da Clínica Mayo sejam mais difíceis de interpretar e integra uma tendência mais ampla de falhas recorrentes nos estudos iniciais sobre plasma convalescente.

“Tenho esperança de que as instituições e indivíduos reconheçam que esta questão está longe de estar resolvida”, diz Daniel Culver, pneumologista da Clínica Cleveland em Ohio. Embora Daniel concorde que a investigação com plasma convalescente seja promissora no geral, ele e outros especialistas estão preocupados que a autorização da FDA seja encarada como uma aprovação total, fazendo com que mais pacientes e médicos solicitem um tratamento que ainda não foi comprovado.

Sobrecarga de uso compassivo
O projeto da Clínica Mayo cresceu a partir de um esforço generalizado feito por médicos de todo o país, que projetaram duas formas para implementar de imediato o plasma convalescente. Uma das formas envolvia ensaios clínicos bem escrutinados. Para a outra, a equipa imaginou uma rede de programas de “uso compassivo” ou de “acesso alargado” que forneceria plasma a pessoas com sintomas de COVID-19 em perigo de vida, fora das aprovações tradicionais da FDA.

Porém, um destes conceitos acabou por ofuscar o outro. Enquanto que os programas de acesso alargado excederam as expectativas dos seus proponentes, a falta de financiamento e infraestrutura acabou por abrandar os esforços focados nos ensaios clínicos.

“O que aprendi com esta experiência foi que o sistema não está atualmente desenhado para lançar rapidamente um ensaio”, diz Liise-anne Pirofski, especialista em anticorpos e chefe da divisão de doenças infecciosas da Faculdade de Medicina Albert Einstein de Nova Iorque. “Não é que não existisse um protocolo, investigadores empenhados ou pacientes – não havia era financiamento, e não havia uma supervisão organizada.”

Conforme publicado pela revista WIRED no dia 21 de agosto, os programas de acesso alargado nos EUA cresceram rapidamente em mais de 2.700 hospitais, alguns dos quais não tinham as configurações ou conhecimentos para realizar ensaios clínicos. Mas o programa da Clínica Mayo recebeu 48 milhões de dólares do Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos EUA para usar plasma convalescente em pacientes hospitalizados.

“A sua popularidade dava a sensação de que se tratava de um líquido dourado que tinha a cura, mas há imprecisões”, diz Mila Ortigoza, especialista em doenças infecciosas do centro médico Langone Health da Universidade de Nova Iorque. “A verdade é que existem sinais por aí – todos os estudos não aleatórios mostram atualmente um sinal positivo para o plasma – mas não temos a confiança para dizer que funciona.”

O padrão de ouro nos testes médicos é um enorme ensaio no qual os indivíduos com uma doença recebem aleatoriamente uma terapia real ou um placebo como parte de um grupo de controlo. Mas, até agora, os investigadores de todo o mundo fizeram apenas pequenos ensaios ou estudos observacionais, como o da Clínica Mayo, que dispensam o uso de um placebo. Sem um grupo de controlo, é difícil saber se as pessoas melhoraram por si só, ou se obteriam os mesmos resultados sem receber plasma convalescente.

“Sinceramente, no fim de tudo isto, não fazemos ideia se as dezenas de milhares de pessoas que receberam plasma convalescente foram ajudadas, prejudicadas ou se não fez diferença. Não há forma de o saber.”

por MARTIN LANDRAY, UNIVERSIDADE DE OXFORD

“Sinceramente, no fim de tudo isto, não fazemos ideia se as dezenas de milhares de pessoas que receberam plasma convalescente foram ajudadas, prejudicadas ou se não fez diferença. Não há forma de o saber”, diz Martin Landray, professor de cardiologia em Oxford e coautor dos ensaios RECOVERY COVID-19 do Reino Unido.

No dia 30 de julho, um grupo liderado por Michael Joyner, da Clínica Mayo, enviou um artigo de revisão para a medRxiv onde argumentava que, quando os resultados dos estudos em pequena escala são combinados, sugerem um benefício na utilização de plasma convalescente em pacientes com COVID-19. E num memorando de 17 páginas, a FDA racionalizou as suas ações, citando os mesmos ensaios e estudos, bem como os resultados mais abrangentes da Clínica Mayo. Liise-anne Pirofski, coautora do artigo de revisão, diz que a autorização se justifica pelos méritos, apesar da pressão visível sobre a FDA.

“Eu acredito na ciência, acredito em dados, e tenho todos os motivos para acreditar que esta decisão dependeu disso”, diz Liise-anne. “Tem havido uma convergência de eventos que tem sido realmente infeliz.”

O que significa a decisão da FDA
A autorização de emergência da FDA não é a mesma coisa que uma “aprovação da FDA” – um limite rigoroso que nenhum tratamento para a COVID-19 alcançou até agora nos EUA. A FDA disse através de comunicado que, “com base nas evidências disponíveis atualmente, o plasma convalescente COVID-19 ainda não representa um novo padrão de tratamento, mas é razoável concluir que os benefícios conhecidos e potenciais [do plasma convalescente] superam os riscos conhecidos e potenciais.”

Ainda assim, o apoio da administração Trump ao plasma convalescente – e a defesa anterior da agora desacreditada hidroxicloroquina – levantou questões entre os cientistas sobre se o presidente poderá pressionar a FDA para acelerar as aprovações antes das eleições presidenciais de 2020. No dia 23 de agosto, o Financial Times informou que os funcionários da administração Trump estavam a considerar acelerar uma vacina contra a COVID-19 para este outono, muito antes de se esperar que os ensaios clínicos em grande escala estejam concluídos. No dia 20 de agosto, a agência Reuters informou que um alto funcionário da FDA prometeu renunciar ao cargo caso a agência aprovasse prematuramente uma vacina não comprovada. E o governo federal já destinou 8 milhões de dólares para publicidade em meios digitais e na rádio pedindo aos americanos para doarem plasma, apesar da ausência de uma aprovação.

Por enquanto, Christian Bime, investigador da Universidade do Arizona e diretor médico de UCI, não está preocupado com a pressão política, porque confia nos cientistas envolvidos no processo.

“Confio que os cientistas vão fazer o que é correto.”

por CHRISTIAN BIME, UNIVERSIDADE DO ARIZONA

“Confio que os cientistas vão fazer o que é correto”, disse Christian através de um email enviado à National Geographic. “Os riscos são demasiado elevados e as consequências demasiado terríveis para os cientistas não seguirem as melhores práticas.”

A confusão em torno do plasma convalescente destaca um dos inúmeros obstáculos na resposta dos EUA à COVID-19 – a ausência de um processo de ensaio clínico coordenado a nível nacional.

Liise-anne está atualmente a conduzir um ensaio aleatório e controlado de plasma convalescente que já recrutou 190 pacientes. No dia 17 de abril, quando este ensaio começou na cidade de Nova Iorque, não havia financiamento federal. Apesar de Liise-anne, Mila Ortigoza e colegas se terem apressado para recrutar pacientes, os casos na cidade de Nova Iorque diminuíram algumas semanas depois do início do ensaio, abrandando muito o seu progresso. Só agora, meses depois, é que surgiu financiamento por parte dos Institutos Nacionais de Saúde dos EUA para expandir o ensaio a regiões como o Connecticut, Flórida e Texas. “Temos estado sempre a remar contra a maré”, diz Liise-anne.

Os médicos entrevistados pela National Geographic dizem que aguardam por ensaios clínicos aleatórios que confirmem a eficácia do plasma convalescente.

“Existem riscos teóricos e reais em relação às infusões de plasma humano e, possivelmente, riscos adicionais de plasma de grau reduzido [plasma com baixos níveis de anticorpos] que não foram avaliados de forma adequada”, diz Daniel Culver. “Este [risco] só pode ser avaliado através de ensaios clínicos controlados.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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