Por Que Razão Jeff Goldblum Está “Num Ciclo de Curiosidade Particularmente Intenso”

Com o lançamento da sua nova série documental, disponível em Portugal a partir de 15 de setembro, o ator, músico e indivíduo geralmente interessado fala sobre ciência, natureza humana, sobre ser curioso – e sobre o cérebro que gostaria de conhecer.

Publicado 24/08/2020, 10:19 WEST, Atualizado 5/11/2020, 05:59 WET
“Pensámos em explorar temas familiares nos quais pudéssemos encontrar algo inesperado.” Jeff Goldblum e uma autocaravana – ...

“Pensámos em explorar temas familiares nos quais pudéssemos encontrar algo inesperado.” Jeff Goldblum e uma autocaravana – um dos 12 temas que o ator explora na sua nova série documental da National Geographic.

Fotografia de NATIONAL GEOGRAPHIC / DISNEY+

Jeff Goldblum praticamente fervilha de curiosidade. Os olhos arregalados, a postura imponente, a boca aberta e a forma como gesticula com as mãos são qualidades que Goldblum famosamente emprestou a uma variedade de personagens no grande ecrã. E representou diversas personagens idiossincráticas e inteligentes, como o “teórico do caos”, Ian Malcolm, em Parque Jurássico, o técnico de eletrónica formado no MIT, David Levinson, em Dia da Independência, ou o infame génio do teletransporte, Seth Brundle, em A Mosca. Estes filmes exploram temas complexos – invasões alienígenas, a ressurreição ecologicamente questionável de dinossauros e até experiências científicas perigosas: mais do que o suficiente para suscitar o interesse de qualquer mente curiosa.

E Jeff Goldblum tem certamente uma mente curiosa. Referenciando constantemente os livros que está a ler, os conceitos que está a investigar, as coisas peculiares que aprendeu e a fazer perguntas – tudo isto articulado com os maneirismos exuberantes e talvez com um pouco de excentricidade – sobre temas que o mundo gosta de refletir. Este é o homem que em 2017 foi visto numa carrinha de venda ambulante chamada 'Chef Goldblum' a distribuir salsichas grátis em Sydney – talvez para “fins de investigação” (ainda não sabemos). E é o homem que supostamente manteve uma mosca viva como animal de estimação nos bastidores de A Mosca, para poder estudar os seus movimentos. E também toca piano todas as semanas com a sua banda de jazz, a Mildred Snitzer Orchestra, num restaurante em Los Angeles. O seu rosto também foi destaque na moda dos memes. E quando chegou a hora de comemorar o 25º aniversário de Parque Jurássico, a estátua erguida perto da Tower Bridge de Londres não era a de um T. rex, ou um conjunto de velociraptors furiosos – mas sim uma representação de oito metros de Goldblum reclinado sobre um cotovelo, vestido de preto e com a camisa aberta.

Agora, para um homem aparentemente interessado em tudo o que existe no planeta, Jeff pode ter encontrado o local perfeito para saciar a sua curiosidade. O ator e músico nascido na Pensilvânia – um homem de 67 anos que, segundo as suas próprias palavras, “ainda tem quatro anos em muitos aspetos” – vai libertar a excentricidade e curiosidade que lhe são características no novo programa no Disney+. Mas, em vez de se debruçar sobre temas de grande impacto, explora um conjunto eclético de assuntos: Esqueçam a política, as doenças e o crime. Pensem em bicicletas, piscinas e tatuagens. Este é O Mundo Segundo Jeff Goldblum – de acordo com Jeff Goldblum.

As bicicletas são um dos temas idiossincráticos que Goldblum explora no seu novo programa.

Fotografia de NATIONAL GEOGRAPHIC / DISNEY+

Os temas que explora – ganga, videojogos, gelados, churrascos e assim por diante – parecem bastante díspares, embora universalmente conhecidos. Porquê estes assuntos?
São díspares, ecléticos, mesclados, um pot-pourri, um empadão de carne com muitas surpresas. Recentemente, apresentei três episódios de um programa da National Geographic chamado Explorer – e adorei a experiência. Foi assim que este programa surgiu. Pensámos em explorar temas familiares nos quais pudéssemos encontrar algo de inesperado, algo de histórico, de científico e algo sobre a ligação humana, a nossa própria história, despoletada por estas coisas.

E também queríamos que despoletassem a minha própria odisseia junguiana divertida e pessoal de autodescoberta e criação de histórias. Nós não sabíamos o que ia ser. O título atrevido apenas evoluiu quando vimos no que o programa se tornou.

Está curioso sobre o que o torna curioso?
Tendo dois filhos, estou num ciclo de curiosidade particularmente intenso. Os meus filhos olham à volta e dizem: O que é isto, porquê isto? Talvez seja algo que transmitimos aos outros. Ou talvez a nossa espécie precise de ser curiosa para se relacionar com o mundo. Enquanto fazia este programa, li alguns livros de Yuval Noah Harari: Sapiens, Homo Deus e 21 Lessons for the 21st Century. Como diz Harari, as grandes questões, como as alterações climáticas, os perigos da proliferação nuclear e as disrupções tecnológicas só podem ser solucionadas com uma cooperação global. É verdade que a única razão pela qual a espécie humana proliferou e floresceu foi porque cooperámos em grupos e, portanto, tivemos curiosidade uns sobre os outros.

Participei recentemente num programa chamado Finding Your Roots. Não sabia nada sobre a minha família. Exceto de onde eram os meus dois avós, Áustria... e Rússia, o seu nome era Povartzik. Ele alterou-o para Goldblum quando veio [para a América]. Portanto eu seria Jeff Povartzik. Mas eles disseram que todo o meu povo era 100% judeu asquenaz da mesma região. Talvez exista algo peculiar sobre esse grupo...

Descortinar a história e os costumes do churrasco: um dos temas idiossincráticos explorados por Goldblum em O Mundo Segundo Jeff Goldblum.

Fotografia de NATIONAL GEOGRAPHIC / DISNEY+

Em ‘Piscinas’, Goldblum explora a história por trás da nossa paixão pelas piscinas domésticas.

Fotografia de NATIONAL GEOGRAPHIC / DISNEY+

“A minha jornada neste programa é muito terra-a-terra, algo que eu gosto.” As tatuagens são um dos temas mais práticos explorados no novo programa de Jeff Goldblum – onde o ator conhece vários fãs que tatuaram o seu rosto no corpo.

Fotografia de NATIONAL GEOGRAPHIC / DISNEY+

Você parece uma pessoa muito otimista... há alguma coisa que o deixe em baixo?
Oh, há muitas coisas que me estimulam e que me deixam irritado. Fico indignado, revoltado, triste. Mas há coisas pelas quais devemos estar otimistas. E geralmente, sabe... estamos todos aqui durante pouco tempo. Podemos considerar isso uma má notícia, mas sabemos que as coisas são assim, há algo de romântico nisso. Há algo que nos faz estar gratos na aceitação destes preciosos momentos em que nos encontramos. De qualquer forma, é assim que eu opto por ver as coisas.

O explorador Alexander Von Humboldt, o livro Sapiens de Yuval Noah Harari e o “duo” iPhone e auscultadores: apenas três das inúmeras coisas na mente de Jeff Goldblum.

Fotografia de WIKIMEDIA / ALAMY / UNSPLASH

“É verdade que a única razão pela qual a espécie humana proliferou e floresceu foi porque cooperámos em grupos e, portanto, tivemos curiosidade uns sobre os outros.”

por JEFF GOLDBLUM

Pensa que, devido à nova facilidade de acesso à informação, as pessoas se estão a tornar menos interessadas ou curiosas?
Você acha que sim? Pessoas reais de carne e osso de todas as idades parecem estar adormecidas ou hipnotizadas por isto [imita um telemóvel na mão]... em Los Angeles, as pessoas atravessam a rua na diagonal com coisas nos ouvidos para não ouvirem nada, estão desligadas... Mas sabe, eu encaro a tecnologia com entusiasmo. Gosto sobretudo da ideia de mudança. Podemos obter muitas informações através da tecnologia e isso pode ser usado em muitos casos para o nosso benefício. Essa é uma questão mais abrangente, mas a minha jornada neste programa é muito terra-a-terra, algo que eu gosto.

Aprendi muito. Senti-me humilde, impressionado e por vezes alarmado, mas por outro lado, senti-me aperfeiçoado e nutrido pela minha interação com as pessoas. E eu gosto disso – foi por isso que comecei a representar. A ‘tecnologia da interação’.

“Aprendi muito. Senti-me humilde, impressionado e por vezes alarmado, mas por outro lado, senti-me aperfeiçoado e nutrido pela minha interação com as pessoas.”

Fotografia de SIMON INGRAM / NATIONAL GEOGRAPHIC

Por falar em interação – se pudesse viajar no tempo, quem gostaria de conhecer?
Comecei recentemente a ler A Invenção da Natureza, sobre Alexander von Humboldt. Dizem que há mais coisas com o nome dele do que com o nome de qualquer outra pessoa. Ele previu os desafios das alterações climáticas, as consequências não intencionais da civilização, a revolução industrial. Aposto que seria bom conhecer o cérebro dele.

Isto é basicamente o programa em poucas palavras – sou eu, não finjo saber mais do que sei, mas estou interessado, converso com pessoas interessantes que vêm de lugares inesperados e tenho encontros curiosos e divertidos. E deixo a minha mente, como ela é, vaguear livremente.

O Mundo Segundo Jeff Goldblum está disponível no Disney+ a partir de 15 de setembro.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.co.uk.

Continuar a Ler