Primeira Lista Vermelha de Invertebrados Feita em Portugal

A Lista Vermelha de Invertebrados é um projeto pioneiro que visa avaliar o risco de extinção de cerca de 700 espécies de invertebrados em Portugal Continental.

Monday, August 17, 2020,
Por National Geographic
Argyroneta aquatica, conhecida popularmente por aranha-de-água, na sua teia subaquática.

Argyroneta aquatica, conhecida popularmente por aranha-de-água, na sua teia subaquática.

Fotografia de Robert Sisson / National Geographic Creative

A Lista Vermelha de Grupos de Invertebrados Terrestres e Dulçaquícolas de Portugal Continental (LVI) é um projeto coordenado por investigadores do cE3c - Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais e da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa com o objetivo de avaliar o risco de extinção de um conjunto de espécies selecionadas de vários grupos de invertebrados. Entre estes invertebrados encontram-se os insetos, as aranhas, os caracóis, as lesmas, os mexilhões de rio e os crustáceos.

No âmbito do LVI é avaliado o risco de extinção de vários endemismos nacionais, de espécies raras e das espécies protegidas listadas na Diretiva Habitats. O resultado será a produção do Livro Vermelho, tornando-se uma referência orientadora para futuras estratégias e ações de conservação.


O LVI nasceu em 2019, com a duração de três anos, e terminará em maio de 2021. Contempla o território de Portugal Continental, com especial incidência na Rede Natura 2000 e outras áreas identificadas com maior carência de informação.

Menos insetos é sinal de alerta
Vários países constatam que a biomassa de insetos está a diminuir. Os dados preliminares da investigação, para a elaboração da primeira Lista Vermelha dos Invertebrados em Portugal Continental, orientam para a mesma constatação. No entanto, não é possível dizer ainda quais as espécies que possam estar ameaçadas, devido à escassez dos dados para avançar com tal informação. Identificar as espécies é, portanto, um dos objetivos essenciais.

Na Alemanha, onde se reúnem duas décadas de observações das populações de insetos, os dados de um estudo da Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) são claros e indicam um decréscimo acentuado nas populações de insetos, representando um declínio na ordem dos 76% de 1989 para 2016.

Para além dos insetos, outros animais que dependem deles também estão em risco, tais como rãs e pássaros, que se alimentam destes invertebrados. Os dados são alarmantes e a sua ausência resultaria na extinção de plantas, afetando também a economia mundial.

É também objetivo da primeira Lista de Invertebrados conhecer a realidade das populações de um vasto conjunto de espécies de alguns grupos de invertebrados. Esta informação será fundamental para perceber quais são as espécies ameaçadas, auxiliando na definição de estratégias para a sua conservação.

Na Lista Vermelha vão compilar-se todas as espécies que forem classificadas com algum tipo de ameaça, de acordo com os critérios da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN).

Entre 700 a 900 espécies de invertebrados, 600 são insetos
Os invertebrados são um grupo muito vasto. Estima-se que, em Portugal Continental, existam entre 30 a 40 mil espécies de invertebrados, sendo muitas delas endémicas. Considera-se que se conhece muito mal este vasto grupo. Nele incluem-se as espécies de insetos, aranhas, crustáceos de água doce, gastrópodes e bivalves.

Os trabalhos de investigação para a elaboração da lista vermelha decorrem há cerca de um ano, estando a ser avaliadas entre 700 a 900 espécies de invertebrados, das quais 600 correspondem a insetos.

A primeira campanha no terreno decorreu em março de 2020, na Costa Vicentina. Desde então, já se percorreram diferentes zonas do território, existindo agora o primeiro retrato do estado de conservação dos invertebrados. A equipa estima que até ao final do ano irá conseguir divulgar a informação final do grupo das aranhas.

As ameaças que persistem
São diversas as ameaças que afetam o grupo de invertebrados em Portugal. Para os crustáceos de água doce, há uma perda e alteração drástica dos seus habitats, devido à destruição dos charcos temporários e às práticas agrícolas e florestais desadequadas. A proliferação de barragens e a limpeza cega de vegetação ribeirinha são outros exemplos que afetam, de diferentes formas, as espécies de invertebrados aquáticos.

As causas estão bem documentadas. As mudanças demasiado súbitas nas condições ecológicas, acabam por agravar os demais problemas já existentes. A poluição atmosférica e industrial, a contaminação dos solos por pesticidas e herbicidas e a perda progressiva dos habitats, estão no cerne do problema. É nosso dever criar estratégias alternativas e de conservação para o presente e para o futuro.

A biodiversidade na linha da frente
O trabalho de investigação começou pela reunião das equipas e a distribuição de missões. Entre a logística e os materiais necessários, foram definidas as áreas de amostragem e listadas as espécies a avaliar, para arrancar com o projeto da Lista Vermelha dos Invertebrados em Portugal.

Para a captura das amostras, os investigadores acompanharam-se de vários tipos de armadilhas, tendo recorrido à observação direta no solo, debaixo de pedras, e a registos de som. O trabalho é intenso e abrange 61 sítios de importância comunitária da Rede Natura 2000.

Está ainda prevista a criação de uma plataforma web de armazenamento e gestão de informação, que vai disponibilizar a mesma aos técnicos, investigadores, entidades públicas e privadas, bem como ao público em geral, potenciando a sensibilização da sociedade para a conservação de invertebrados.

O trabalho de campo é estendido à comunidade
Os cidadãos interessados podem ajudar a mapear a distribuição de 16 espécies de invertebrados, contribuindo para a elaboração da primeira Lista Vermelha de Invertebrados de Portugal Continental e ajudando os investigadores a avaliar o risco de extinção destas espécies no país. As pessoas que pretendam participar no projeto são convidadas a registar as suas observações das espécies de invertebrados listadas nos anexos da Diretiva Habitats e de outras espécies-alvo na plataforma BioDiversity4All.

Pode consultar e acompanhar a calendarização do projeto na sua página oficial no Facebook.

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