Uma Queda Desfez-lhe o Corpo. Estas Maravilhas da Medicina Reconstruíram-no.

Desde realidade virtual a uma passadeira antigravidade, a história de recuperação de Brent Bauer revela um futuro de tecnologia de ponta para a medicina cirúrgica.

Por Breanna Draxler
Publicado 25/08/2020, 17:23 WEST, Atualizado 5/11/2020, 05:59 WET
Brent Bauer aponta para o local de onde escorregou

Brent Bauer aponta para o local de onde escorregou no telhado de metal molhado – “como se fosse um escorrega” – caindo de uma altura de quase oito metros num chão de cimento. Com dois tornozelos e um pulso partidos, Bauer teve de se arrastar ao longo de mais de seis metros para chegar ao telemóvel e pedir ajuda. E passou cinco dias na unidade de cuidados intensivos (à direita) do Centro Médico Harborview de Seattle, em Washington.

Fotografia de SARAH BARTOLAC

Num sábado ensolarado de junho de 2019, Brent Bauer, de 56 anos, estava no topo da sua casa de verão na Ilha de San Juan, na costa de Seattle, a lavar o telhado com uma mangueira de pressão. Faltava lavar uma última secção, difícil de alcançar, e quando Brent puxou o gatilho da máquina de pressão, foi empurrado para trás no metal escorregadio, perdendo o equilíbrio.

Brent caiu de uma altura de cerca de oito metros, ficando com tempo suficiente para ter dois pensamentos antes de bater no cimento: “É o fim” e “Isto é estúpido”.

Enquanto Brent me contava o incidente na cozinha de sua casa em fevereiro, tinha o cabelo rapado e um comportamento calmo, marcado por um leve pesar. Ainda assim, Brent estremece quando pensa naquele dia, dado que muitas coisas tinham de correr de forma perfeita para ele conseguir sobreviver. “Consegui virar-me no ar, o que é milagroso, e caí de pé. Se eu não tivesse feito isso, teria morrido.”


Brent chama aos seus pés “zona de deformação”, como se fossem a parte de um carro projetada para absorver o impacto de um acidente. Brent caiu primeiro com o calcanhar esquerdo, que se desfez em 16 pedaços, e depois com o calcanhar direito, que também se fragmentou. De seguida, bateu com a pélvis, que se fraturou em três partes e abriu uma brecha de 11 centímetros, danificando vasos sanguíneos importantes. E depois caiu sobre o pulso, que se partiu e fez com que o osso cúbito se projetasse cerca de três centímetros para fora do antebraço. Brent tem memória de se ter tentado levantar, mas a parte inferior do seu corpo colapsou.

Quando Brent chegou de helicóptero ao Centro Médico Harborview de Seattle, tinha lesões internas graves e vários ossos partidos, obrigando uma equipa de médicos a fazer 10 cirurgias para tentar reconstruir o seu corpo. Nas semanas seguintes, a equipa médica teve de o colocar em coma induzido durante dois dias para conter as hemorragias, salvar órgãos e estabilizar os ossos partidos.

Os raios-x mostram ambos os tornozelos de Brent partidos em mais de 16 pedaços, que foram reconstruídos pelo cirurgião Stephen Benirschke. Brent iria mais tarde chamar aos seus pés “zona de deformação”, comparando-os com a parte de um carro que é projetada para absorver o impacto de um acidente.

Fotografia de UW MEDICINE/CENTRO MÉDICO HARBORVIEW (RAIOS-X)

Hoje, a sua história de tragédia e recuperação mostra a incrível inovação feita em técnicas cirúrgicas delicadas no tratamento de ossos e na gestão de dores intensas que acompanham estes procedimentos. “Eu sabia que corria perigo de vida”, diz Brent, que descreve a sua equipa de médicos com os maiores elogios possíveis. “A coisa predominante que sinto desde então é gratidão por estar vivo.”

Nos calcanhares de uma oração
Quando não está a trabalhar na sua empresa de telecomunicações, Brent faz alpinismo e parapente, e dá para perceber pelos seus olhos que estas atividades recreativas não são apenas casuais. Este é um homem obcecado em ultrapassar os limites. Em 1984, Brent estava a trabalhar num barco de pesca de salmão no Mar de Bering quando uma onda virou o navio durante a noite. A tripulação abandonou a embarcação e flutuou com os coletes salva-vidas até ser resgatada por outro barco de pesca duas horas depois. Em 2005, durante um safari feito no Zimbabué, Brent estava em cima de uma árvore a tentar fotografar um crocodilo, quando caiu e aterrou de costas, ficando com hematomas que quase provocaram necrose e fraturas de compressão em três vértebras.

“Como tive sorte tantas vezes na vida, fiquei com a falsa sensação de que as coisas realmente más não me aconteciam”, diz Brent.

As experiências anteriores com lesões e a força adquirida durante as atividades recreativas foram muito úteis para Brent naquele fatídico dia de junho. Antes de o pânico se instalar, Brent olhou em volta e viu que o seu telemóvel tinha sido projetado do bolso durante a queda e que estava caído a cerca de seis metros de distância. Usou o joelho e a mão boa para arrastar o corpo até ao telemóvel e tentou ligar para o vizinho, que não atendeu.

A chamada seguinte foi para o 112, para alertar os médicos voluntários da ilha, e a partir daí as memórias de Brent começam a desvanecer. Quando já estava a ser transportado de helicóptero, lembra-se de ter visto uma luz azul fraca à distância. Brent moveu-se mentalmente em direção à luz, convencido de que tinha morrido. Brent perdeu a consciência quando o helicóptero chegou ao hospital em Puget Sound. E só acordou dois dias depois.

Foi um golpe de sorte Brent estar tão perto do Centro Médico Harborview. Este hospital é um centro de trauma de Nível Um, o mais elevado dos cinco níveis de cuidados avaliados pelo Colégio Americano de Cirurgiões. E também é o local de trabalho dos principais cirurgiões especializados nas técnicas de ponta necessárias para tratar das lesões de Brent.

“Acontece que o melhor ortopedista dos EUA – e provavelmente do mundo – trabalha em Harborview, e era o meu médico”, diz Brent. “Estou muito grato por isso.”

O cirurgião ortopedista Stephen Benirschke apareceu para a nossa entrevista vestido com uma camisa branca impecável, de gravata e com um colete de lã, mantendo um ar casual de Seattle. Benirschke ainda era relativamente novo em Harborview em 1985, quando o seu orientador o incumbiu de “descobrir uma forma de consertar pés”. A literatura médica da época não tinha referências sobre fraturas do calcâneo, ou osso do calcanhar, apesar de serem as fraturas mais comuns no pé. Na maioria dos casos, os médicos simplesmente não faziam cirurgias.

Ao longo do tempo, Benirschke desenvolveu um método que se tornou padrão. Coloca um pino em cada fragmento de osso e depois usa esses pinos para colocar cada parte de novo no seu lugar, como se estivesse a reconstruir uma casca de ovo partida. Depois de ter os ossos organizados, Benirschke usa uma folha de malha de metal para envolver o calcanhar e para o estabilizar para o processo de cicatrização. Ele diz que a chave para a reparação do calcâneo passa por lembrar que a sua função é suportar tudo; todo o corpo humano. “É um osso muito interessante”, diz Benirschke.

Esta cirurgia inovadora ajudou Brent a superar um dos obstáculos da sua recuperação, mas outros mais difíceis permaneciam. Outro cirurgião teve de estabilizar a pélvis fraturada de Brent com uma estrutura externa equipada com parafusos de 15 centímetros inseridos nos ossos da bacia. Oito semanas depois, os seus ossos tinham recuperado o suficiente para se removerem os parafusos.

Com uma bata branca de médico e um sorriso afável, Reza Faroozabadi, o especialista em pélvis de Harborview, usa um modelo de esqueleto em tamanho real para me mostrar onde os parafusos foram colocados. A remoção dos parafusos não é tecnicamente uma operação, diz Faroozabadi; é apenas uma questão de desenroscar os parafusos da pélvis, processo que pode ser feito manualmente na estrutura externa. É um procedimento simples, embora doloroso. Historicamente, este processo é feito numa sala de cirurgia com o paciente anestesiado.

Mas Faroozabadi ofereceu duas opções a Brent. Ele podia ir para a sala de cirurgia para ser anestesiado e novamente entubado. Ou podia participar num estudo de investigação que envolvia a remoção dos parafusos acompanhada por uma sessão de realidade virtual, para substituir a utilização de analgésicos. Brent aproveitou a oportunidade para evitar outra intubação.

Sala de operações vs. realidade virtual
A dor é um fator complicado de gerir. É uma experiência subjetiva e existem fatores psicológicos que podem afetar a eficácia dos medicamentos para a dor. Avisado de que o procedimento pode ser doloroso, um paciente pode sentir várias coisas: ansiedade, depressão, antecipação e transtorno de stress pós-traumático (PTSD) de experiências anteriores. Portanto, a realidade virtual não consiste apenas na distração do paciente; na verdade, desfaz estes efeitos psicológicos negativos.

“Tudo isto funciona bem”, diz Hunter Hoffman, cientista de investigação do Laboratório de Fotónica Humana da Universidade de Washington. “E todos os pacientes ficam atordoados com a realidade virtual.”

Hoffman projetou inicialmente o programa de realidade virtual para tratar lesões agonizantes de pacientes com queimaduras; foi por isso que criou um ambiente virtual gelado a que chama Mundo de Neve. Para se submeter à remoção do primeiro parafuso, Brent usou um equipamento de realidade virtual e foi “colocado” num desfiladeiro gelado. Nesse ambiente, Brent estava cercado por pinguins e mamutes, animais que ele devia acertar com bolas de neve virtuais, usando um rato de computador na mão direita. Atirar bolas de neve diminui a dor devido em parte à distração proporcionada pela interatividade, mas também devido à vontade do paciente em acreditar no que está a ver, diz Hoffman. As pessoas são motivadas a acreditar no jogo porque a recompensa é a mitigação da dor.

Brent também fraturou a pélvis, e o cirurgião Reza Faroozabadi teve de instalar dois parafusos para manter os ossos unidos. Faroozabadi estabilizou a pélvis perfurando parafusos no osso e ligando-os a uma barra externa curva, visível na parte inferior deste raio-x. Os parafusos foram removidos assim que a pélvis sarou.

Fotografia de UW MEDICINE/CENTRO MÉDICO HARBORVIEW (RAIO-X)

Brent concordou em trabalhar com Faroozabadi para testar a eficácia de um jogo, o Mundo de Neve, que usa realidade virtual para ajudar a aliviar a dor. Um dos parafusos de estabilização foi removido da pélvis de Brent enquanto ele usava um programa de realidade virtual (à esquerda). “Foi uma distração muito agradável”, diz Brent. “A dor foi muito menos intensa”, do que quando removeu o outro parafuso sem realidade virtual (à direita). O estudo sugere que a realidade virtual pode diminuir a necessidade de anestesia geral, reduzindo riscos e custos para os pacientes.

Fotografia de CRAIG CUTLER

Brent jogou ao jogo de realidade virtual Mundo de Neve durante o procedimento, usando um rato para atirar bolas de neve contra bonecos animados. Hoffman projetou inicialmente este programa de realidade virtual para tratar lesões agonizantes de pacientes na unidade de queimados, razão pela qual o ambiente virtual é gelado.

Fotografia de Hunter Hoffman

As imagens do cérebro de uma pessoa não identificada do estudo de Hoffman mostram que as pessoas expostas à dor térmica em ambiente de laboratório também sentiram uma redução significativa na atividade cerebral relacionada com a dor quando usaram realidade virtual (à direita).

Fotografia de Hunter Hoffman

A outra vantagem da realidade virtual reside no facto de ser direcionada. Os medicamentos não se ligam ou desligam instantaneamente, mas quando um paciente tira o equipamento de realidade virtual, os efeitos param.

Brent diz que, quando o primeiro parafuso foi removido, a experiência de realidade virtual provavelmente mitigou metade da sua dor. Para o segundo parafuso, Faroozabadi fez o mesmo procedimento, mas sem realidade virtual (com a permissão de Brent), para controlar o estudo científico. Brent diz que a dor foi insuportável e que tinha lágrimas a escorrer pelo rosto. Disse ainda que acreditava que conseguia suportar qualquer coisa durante três ou quatro minutos, mas que este procedimento provou que estava errado.

Competidor por natureza, Brent ofereceu algum feedback a Hoffman para ele usar na terapia de realidade virtual daqui para frente: um sistema de pontuação. Se o jogo for mais competitivo, é mais fácil ficarmos distraídos, diz Brent. E Faroozabadi também tinha algumas ideias para Hoffman. Em vez de uma paisagem de neve, sugeriu destinos adaptados aos gostos individuais de cada paciente para iterações futuras, para tornar a experiência ainda mais envolvente.

Ferramentas de terapia
Para Brent, a ideia de férias na vida real levam-no a ficar cada vez mais forte, enquanto o inverno se transforma em primavera. Brent reformou-se antecipadamente e está agora focado em construir uma vida cheia de alegria e aventura, embora talvez sem tantos riscos desnecessários. Quando caiu do telhado, Brent conhecia a sua namorada, Sarah Bartolac, há apenas seis semanas, e ela ainda está com ele, frequenta as suas consultas de fisioterapia, gere os seus tratamentos em casa e sorri afetuosamente quando ouve Brent falar sobre os planos para fazer parapente na semana seguinte. “Ele adora adrenalina”, diz Sarah. A resposta de Brent é caracteristicamente autoconfiante: “Bastam quatro bons passos”, repete ele, quase como um mantra. É tudo o que precisa para levantar voo.

A rotina de fisioterapia de Brent demora cerca de quatro horas por dia. E esta rotina faz parte das sessões que ele faz no Estádio Husky da Universidade de Washington, que inclui uma técnica criada no Japão, chamada terapia de restrição do fluxo sanguíneo, que estimula o crescimento muscular através do controlo cuidadoso do oxigénio fornecido pelo sangue.

Quando visitei a sua sessão de terapia em março, Brent estava ansioso para exibir uma passadeira antigravidade, ou como ele chama, “a máquina das saias”, no Estádio Husky. Para usar a máquina, Brent veste uns calções que parecem a saia de uma canoa ou caiaque. Brent sobe para a passadeira e fecha os calções com um fecho preso a um saco em torno da máquina, saco que é depois insuflado. Brent pode ajustar a pressão do ar para determinar a quantidade de peso corporal suportada pelo dispositivo.

Quando Brent começou o processo de recuperação, apenas três meses depois do acidente, ele fazia terapia direcionada nesta passadeira. Brent vinha de cadeira de rodas e depois usava os braços para subir para a máquina. E tinha permissão para andar com apenas 35% do seu peso corporal. Hoje, Brent sente-se particularmente forte e quer ver o que consegue fazer. Ele começa a diminuir a pressão do ar para aumentar o peso corporal suportado pelas suas próprias pernas – já está perto dos 85%. Enquanto Brent descreve como funciona a passadeira, tem uma ideia.

“Na verdade, deixe-me tentar algo”, diz Brent. Começa a aumentar a velocidade da passadeira. Lentamente ao início, e depois mais vigorosamente. Os seus passos alteram de um ritmo normal de uma caminhada, embora com um pouco de cadência, para um ritmo mais rápido de corrida. O som que escapa deste homem forte e sério, quando ele percebe que está a correr pela primeira vez desde o acidente, há quase nove meses, é o de uma gargalhada disfarçada.

“Vejam o que consigo fazer!”, diz Brent alegremente. “Sarah, estou a correr!” E continua cheio de alegria, como se fosse uma criança, até que para. Brent concentra-se na sua forma física e tenta saborear a sensação de correr. “Parece que me lembro desta sensação”, diz Brent.

Apesar deste momento de esperança, não posso dizer que fiquei surpreendida quando recebi outro email alguns meses depois, desta vez com fotografias de uma cirurgia posterior. “Acontece que exagerei nas minhas atividades e parti a maioria dos parafusos que estavam no meu pé esquerdo”, escreve Brent. Já passou mais de um ano desde o acidente, mas sem perder o ritmo, o email muda para o tom habitual de otimismo implacável de Brent: “Estou muito bem agora e recupero rapidamente. Dentro de algumas semanas, posso começar a usar todo o peso do meu corpo, e acredito que eventualmente regressarei a 100%.”

Nas suas sessões de fisioterapia, Brent passa por um treino de restrição do fluxo sanguíneo. O objetivo é permitir que os pacientes fortaleçam os músculos enquanto levantam cargas mais leves, reduzindo o stress geral sobre a perna.

Fotografia de Aaron Huey

Nove meses e um dia depois do acidente, Brent transportou o seu parapente de 20 quilos por uma montanha de Yelapa, no México, e voou (à esquerda). Depois de voar, Brent colocou gelo nos pés no seu quarto de hotel (à direita). “É uma conquista para a qual trabalhei durante meses. Mesmo que cada passo ainda seja desconfortável, estou muito feliz por voltar a fazer uma das atividades ao ar livre que mais gosto. Estou grato a todos os que me ajudaram a chegar aqui”, disse Brent por email. Três meses depois, fez outra cirurgia para tratar do tornozelo esquerdo – Brent já tinha partido oito parafusos.

Fotografia de SARAH BARTOLAC


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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