Universidade de Coimbra Quer Produzir Ouriços-do-Mar em Aquacultura

Surge um projeto em Portugal de um modelo integrado de cultivo em cativeiro de ouriços-do-mar. A Universidade de Coimbra quer produzir “caviar português”.

Thursday, August 13, 2020,
Por National Geographic
Ouriço-do-mar durante a investigação laboratorial.

Ouriço-do-mar durante a investigação laboratorial.

Fotografia de Tiago Verdelhos

Uma equipa de investigadores do Centro de Ciências do Mar e do Ambiente (MARE), da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, quer tornar possível a produção de ouriços-do-mar em aquacultura.

O objetivo dos investigadores do MARE é a produção de ouriços-do-mar de forma rentável e com reduzido impacto ambiental. O projeto é denominado “OtimO – Otimização dos processos de produção de Ouriço-do-mar” e é financiado em 202 mil euros.


O "caviar" da costa portuguesa
As gónadas, ou ovas, do ouriço-do-mar são muito apreciadas e a sua procura na perspetiva da gastronomia gourmet tem vindo a aumentar. A intensificação da apanha, muitas vezes de forma desregrada, visa colmatar o interesse nacional e do mercado internacional.

Tal valorização crescente das ovas, em segmentos como o da restauração, conduz ao seu elevado valor comercial. Logo, a aposta neste cultivo em cativeiro vem dar uma resposta, por via de métodos otimizados, à produção da espécie.

Um dos objetivos é promover o desenvolvimento das zonas costeiras através da diversificação e aumentar a competitividade no setor, bem como, evitar a sobre-exploração do recurso.

A intensificação da captura tem originado esgotamento de stocks, o que representa impactos negativos consideráveis no ecossistema. Através do sistema de aquacultura multitrófica integrada, são produzidas espécies de diferentes níveis tróficos ou nutricionais.

Ouriço-do-mar em Buarcos.

Fotografia de Tiago Verdelhos

Coimbra já está a dar cartas na produção do caviar português
O projeto OtimO já está a ser desenvolvido desde outubro de 2018, através da Associação de Desenvolvimento Local da Bairrada e Mondego (AD ELO), nos laboratórios do MARE na Figueira da Foz - Laboratório MAREFOZ.

Faz parte da equipa de investigadores Tiago Verdelhos, coordenador do projeto OtimO, incluído no Programa Operacional MAR 2020, que visa implementar em Portugal as medidas de apoio enquadradas no Fundo Europeu dos Assuntos Marítimos e das Pescas (FEAMP).

Os ensaios estão a ser realizados com ouriços-do-mar capturados no seu habitat natural, sendo estudados e controlados, durante todo o processo, pelos investigadores. A equipa pretende encontrar uma solução para os problemas críticos que impedem a produção da espécie em aquacultura.

Um dos processos é feito através da procura de larvas viáveis e da calibração dos processos de reprodução, desenvolvimento larvar e o seu crescimento. Todos estes passos são necessários, de modo a tornar possível a cultura em cativeiro, garantindo a qualidade e as características originais do ouriço-do-mar.

É de apontar que a reprodução da espécie em cativeiro é altamente complexa e depende de fatores como a temperatura, a alimentação, a iluminação, a salinidade, entre outros.

Redução do impacto ambiental pela aquacultura
O modelo de produção proposto pelo projeto OtimO visa o desenvolvimento do setor da aquacultura de uma forma ambientalmente sustentável. Neste sentido, o plano propõe a recirculação de água e a reutilização ou reciclagem de recursos.

A aquacultura estuda a produção racional de organismos aquáticos, como peixes, moluscos, crustáceos, anfíbios, répteis e plantas aquáticas para uso do homem. A produção de peixes através de aquacultura triplicou entre 1995 e 2007.

Até ao final da primeira década do século XXI, a aquacultura era responsável pela produção da metade do peixe consumido pela população mundial. Atualmente, dos 160 milhões de toneladas de produtos do mar que são consumidos a cada ano, 50% têm origem na aquacultura.

Em Portugal, a aquacultura ainda tem um impacto reduzido. Em 2018, a produção nacional aquícola registou 13 992 toneladas, traduzindo-se num aumento de 11,5% face ao ano anterior. A produção em águas marinhas e de transição registou 70% do total da produção aquícola em 2018. A maior representatividade deve-se ao aumento de produção de amêijoas, ostras, mexilhão e macroalgas.

A aquacultura assume-se, cada vez mais, como uma alternativa sustentável no panorama do abastecimento alimentar mundial. Pela aquacultura também é possível fazer chegar determinados pescados marinhos a alguns países que, de outra forma, não têm como ter acesso aos mesmos em boas condições sanitárias. 

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