Dezenas de Vacinas Contra a COVID-19 Estão em Desenvolvimento. Descubra as Mais Promissoras.

Eis algumas das vacinas candidatas que chegaram à fase três dos ensaios e que podem chegar mais longe.

Thursday, August 27, 2020,
Por Amy McKeever
No dia 27 de julho de 2020 em Binghamton, Nova Iorque, a enfermeira Kathe Olmstead, à ...

No dia 27 de julho de 2020 em Binghamton, Nova Iorque, a enfermeira Kathe Olmstead, à direita, administrou à voluntária Melissa Harting, de Harpersville, uma injeção que faz parte de um estudo para uma possível vacina contra a COVID-19. Esta vacina está a ser desenvolvida pela Moderna Therapeutics e pelos Institutos Nacionais de Saúde dos EUA.

Fotografia de Hans Pennik, AP Photo

Mais de 150 vacinas contra o coronavírus estão atualmente em desenvolvimento no mundo inteiro – e há muitas esperanças de que cheguem ao mercado em tempo recorde para aliviar a crise global. Há vários esforços em andamento para que isto se torne uma realidade, incluindo a iniciativa Operation Warp Speed do governo dos EUA que se comprometeu com um financiamento de 10 mil milhões de dólares para desenvolver e entregar 300 milhões de doses de uma vacina segura e eficaz contra o coronavírus até janeiro de 2021. A Organização Mundial de Saúde também está a coordenar esforços globais para desenvolver uma vacina, com a perspetiva de entregar dois mil milhões de doses até ao final de 2021.

As candidatas, como acontece com todas as vacinas, visam essencialmente instruir o sistema imunitário para criar defesas, que por vezes são mais fortes do que as fornecidas por uma infeção natural e com menos consequências para a saúde.


Para isso, algumas vacinas usam partes completas do coronavírus, mas em estado morto ou enfraquecido. Outras usam apenas partes do vírus – seja uma proteína ou um fragmento. Algumas transferem as proteínas do coronavírus para um vírus diferente, que provavelmente não provoca doenças ou que pode ser incapaz de o fazer. Por fim, algumas das vacinas em desenvolvimento contam com a implementação de parte do material genético do coronavírus, de maneira a que as nossas células consigam produzir temporariamente as proteínas necessárias do coronavírus para estimular o sistema imunitário. (As vacinas são fundamentais para manter doenças afastadas.)

Tipicamente, pode demorar entre 10 a 15 anos até que uma vacina chegue ao mercado; a mais rápida de sempre – a vacina contra a papeira – exigiu quatro anos na década de 1960. As vacinas passam por um processo de ensaio clínico de várias etapas, que começa por uma verificação de segurança e por saber se desencadeiam uma resposta imunitária num pequeno grupo de humanos saudáveis. A segunda fase amplia a abrangência de testes para incluir grupos de pessoas que podem ter a doença, ou maiores probabilidades de a contraírem, para avaliar a eficácia da vacina. A terceira fase expande o ensaio para milhares de pessoas, para garantir que a vacina é segura e eficaz entre uma vasta gama vasta de pessoas, visto que a resposta imunitária pode variar consoante a idade, etnia ou devido a condições de saúde subjacentes. Depois, a vacina segue para as agências reguladoras para aprovação – um processo que pode ser demorado.

Ainda assim, depois da aprovação, uma vacina ainda tem potenciais obstáculos para enfrentar quando se trata de fabrico e distribuição, desde o aumento de produção para responder à procura até à decisão sobre quais as populações que a devem obter primeiro – e a que custo. Muitas vacinas também permanecem no que se chama fase quatro, um estágio perpétuo de estudo regular. (Como iremos saber que uma vacina contra a covid-19 está pronta?) Mas os produtores de vacinas estão a tentar comprimir este processo para o SARS-CoV-2, executando fases de ensaios clínicos em simultâneo, e a agência Food and Drug Administration dos EUA prometeu acelerar o processo de aprovação.

Apesar de ser muito cedo para se dizer quais serão as candidatas que irão ter sucesso, segue-se um olhar sobre as candidatas a vacina que chegaram à fase três e mais longe – incluindo uma introdução rápida sobre como funcionam e qual é o seu estado de desenvolvimento.

Moderna Therapeutics
Nome:
mRNA-1273

Quem: Empresa de biotecnologia sediada em Massachusetts, em colaboração com os Institutos Nacionais de Saúde dos EUA.

O quê: Esta vacina candidata baseia-se na injeção de fragmentos de material genético de um vírus, neste caso mRNA, em células humanas. Este processo cria proteínas virais que imitam o coronavírus, treinando o sistema imunitário para reconhecer a sua presença. Esta tecnologia nunca foi licenciada para uso contra uma doença. Se resultar, será a primeira vacina mRNA aprovada para uso humano.

Ponto de situação: No dia 27 de julho, a Moderna anunciou que tinha iniciado a terceira fase de ensaios clínicos, embora continue a monitorizar os resultados da segunda fase. As descobertas preliminares da fase um mostraram que indivíduos saudáveis produziram anticorpos contra o coronavírus e uma reação das células T, outra vertente da resposta imunitária humana. A fase três vai testar a vacina em 30 mil participantes nos EUA. A Moderna diz que está encaminhada para entregar pelo menos 500 milhões de doses por ano a partir de 2021, em parte graças ao acordo que fez com a fabricante suíça Lonza, que permitirá o fabrico de até mil milhões de doses por ano.

Pfizer
Nome:
BNT162b2

Quem: Uma das maiores farmacêuticas do mundo, sediada em Nova Iorque, em colaboração com a empresa de biotecnologia alemã BioNTech.

O quê: A Pfizer e a BioNTech também estão a desenvolver uma vacina mRNA com base nos esforços anteriores da empresa alemã para usar a tecnologia em vacinas experimentais contra o cancro. A Pfizer assinou um contrato de quase 2 mil milhões de dólares com o governo dos EUA para fornecer 100 milhões de doses até dezembro de 2020 – um acordo que entra em vigor quando e se o medicamento for aprovado e entregue.

Ponto de situação: No dia 27 de julho, a Pfizer e a BioNTech lançaram um ensaio que combina as fases dois e três, inscrevendo uma população diversa em áreas com transmissão significativa de SARS-CoV-2. O ensaio vai examinar o efeito da vacina em 30 mil pessoas de 39 estados dos EUA, no Brasil, Argentina e Alemanha. O projeto tem como objetivo uma revisão regulatória já em outubro de 2020 para cumprir o prazo de dezembro – e espera fornecer 1.3 mil milhões de doses até ao final de 2021. Os resultados preliminares da fase um/dois mostram que a vacina produz anticorpos e respostas de células T específicas para a proteína SARS-CoV-2.

Universidade de Oxford
Nome:
ChAdOx1 nCoV-19

Quem: A universidade do Reino Unido, em colaboração com a empresa biofarmacêutica AstraZeneca.

O quê: A candidata de Oxford é o que se conhece por vacina de vetor viral, que basicamente é um “cavalo de Tróia” introduzido no sistema imunitário. A equipa de investigação de Oxford transferiu a proteína espigão SARS-CoV-2 – que ajuda o coronavírus a invadir as células – numa versão enfraquecida de um adenovírus, que normalmente provoca constipações ligeiras. Quando este adenovírus é injetado em humanos, a esperança é a de que a proteína espigão desencadeie uma resposta imunitária. A AstraZeneca e Oxford planeiam produzir mil milhões de doses da vacina e concordaram em vendê-la a preço de custo.

Ponto de situação: Os resultados preliminares das duas primeiras fases do ensaio clínico desta candidata revelaram que a vacina tinha desencadeado uma forte resposta imunitária – incluindo o aumento de anticorpos e a resposta de células T – com efeitos secundários reduzidos, como fadiga e dores de cabeça. O ensaio passou agora para a fase três e o objetivo é recrutar cerca de 50 mil voluntários no Brasil, Reino Unido, Estados Unidos e África do Sul.

Sinovac
Nome:
CoronaVac

Quem: Uma empresa biofarmacêutica chinesa, em colaboração com o centro de investigação brasileiro Butantan.

O quê: A CoronaVac é uma vacina inativada, o que significa que usa uma versão não infecciosa do coronavírus. Embora os patógenos inativados não consigam provocar doenças, conseguem provocar uma resposta imunitária, como acontece com a vacina anual contra a gripe.

Ponto de situação: No dia 3 de julho, a agência reguladora do Brasil concedeu aprovação para esta vacina candidata avançar para a fase três, enquanto se continuam a monitorizar os resultados dos ensaios clínicos da fase dois. Os resultados preliminares dos testes feitos em macacos, publicados na Science, revelam que a vacina produziu anticorpos que neutralizaram 10 estirpes de SARS-CoV-2. A Sinovac também divulgou resultados em pré-impressão do seu ensaio em humanos da fase dois, que também mostraram que a vacina produzia anticorpos sem reações adversas graves. A fase três vai recrutar cerca de 9 mil profissionais de saúde no Brasil. A Sinovac também vai realizar ensaios de fase três na Indonésia e no Bangladesh.

Sinopharm
Nome:
(Sem nome)

Quem: Uma empresa farmacêutica estatal da China, em colaboração com o Instituto de Produtos Biológicos de Wuhan.

O quê: A Sinopharm também está a usar uma vacina inativada de SARS-CoV-2 que espera entregar ao público em finais de 2020. Os resultados preliminares de dois ensaios aleatórios, publicados na JAMA, mostram que a vacina pode desencadear uma resposta de anticorpos sem efeitos adversos graves. O estudo não mediu as respostas imunitárias das células T. No entanto, estes resultados são significativos, pois são os primeiros dados publicados sobre ensaios clínicos em humanos para uma vacina contra a COVID-19 que usa um vírus completo inativado.

Ponto de situação: Em meados de julho, a Sinopharm lançou o primeiro ensaio de fase três com 15 mil voluntários – com idades entre os 18 e os 60 anos, sem condições graves de saúde – nos Emirados Árabes Unidos. A empresa selecionou os Emirados Árabes Unidos porque têm uma população diversificada que é composta por aproximadamente 200 nacionalidades, tornando-os no campo de testes ideal. A Sinopharm também vai realizar testes de fase três em locais como o Peru e o Bahrein.

Instituto de Investigação Murdoch Children’s
Nome:
Bacillus Calmette-Guerin BRACE trial

Quem: O maior instituto de investigação em saúde infantil da Austrália, em colaboração com a Universidade de Melbourne.

O quê: Há quase cem anos que a vacina Bacillus Calmette-Guerin (BCG) tem sido usada para prevenir a tuberculose, expondo os pacientes a uma pequena dose de bactérias vivas. Ao longo dos anos, surgiram evidências de que esta vacina consegue estimular o sistema imunitário e ajudar o corpo a combater outras doenças. Os investigadores estão a investigar se estes benefícios também se podem estender ao SARS-CoV-2, e este estudo já atingiu a fase três na Austrália – apesar de, no dia 12 de abril, a Organização Mundial de Saúde ter dito que não existiam evidências de que a vacina BCG protegia as pessoas contra a infeção por coronavírus.

Ponto de situação: Em abril, investigadores do Instituto de Investigação Murdoch Children’s iniciaram uma série de ensaios clínicos para testar se a BCG também pode funcionar com o coronavírus. Os investigadores têm como objetivo recrutar 10 mil profissionais de saúde para o estudo.

CanSino Biologics
Nome:
Ad5-nCoV

Quem: Uma empresa biofarmacêutica chinesa.

O quê: A CanSino também desenvolveu uma vacina de vetor viral usando uma versão enfraquecida do adenovírus como veículo para a introdução da proteína espigão do SARS-CoV-2 no corpo. Os resultados preliminares dos ensaios da fase dois, publicados no The Lancet, mostram que a vacina produz “respostas imunitárias significativas na maioria dos recetores após uma única imunização”. Não foram documentadas reações adversas graves.

Ponto de situação: No dia 25 de junho, embora a empresa ainda estivesse tecnicamente na fase dois do seu ensaio, a CanSino tornou-se na primeira empresa a receber aprovação limitada para usar a sua vacina em humanos. O governo chinês aprovou a vacina apenas para uso militar, pelo período de um ano. No dia 15 de agosto, a empresa biofarmacêutica russa Petrovax anunciou que tinha lançado a fase três do ensaio clínico da vacina Ad5-nCoV.

Centro Nacional de Epidemiologia e Microbiologia Gamaleya
Nome:
Sputnik V

Quem: Uma instituição de investigação russa, em parceria com o Fundo Russo de Investimento Direto gerido pelo estado.

O quê: O centro Gamaleya desenvolveu uma vacina de vetor viral que também usa uma versão enfraquecida do adenovírus – que provoca constipações ligeiras – para introduzir a proteína espigão do SARS-CoV-2 no corpo. Esta vacina usa duas estirpes de adenovírus e requer uma segunda injeção após 21 dias para aumentar a resposta imunitária. A Rússia não publicou quaisquer dados sobre os seus ensaios clínicos, mas os funcionários do instituto alegam que já concluíram as fases um e dois. Os investigadores também afirmam que a vacina produziu anticorpos fortes e respostas imunitárias a nível celular.

Ponto de situação: Apesar da ausência de evidências publicadas, a Rússia aprovou a vacina Sputnik V para uso generalizado e reivindicou-a como sendo a primeira vacina COVID-19 registada no mercado. A Rússia informou que ia iniciar os ensaios clínicos de fase três no dia 12 de agosto; contudo, a Organização Mundial de Saúde classifica a vacina Sputnik V como estando na fase um dos ensaios clínicos.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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