A Depressão Sazonal Também Pode Acontecer no Verão

O transtorno afetivo sazonal (TAS) de verão está no radar dos médicos há décadas. Mas muitas pessoas não têm conhecimento desta condição que pode ser ainda mais difícil de lidar do que a tristeza de inverno.

Tuesday, September 1, 2020,
Por Julia Sklar
Enquanto que o transtorno afetivo sazonal (TAS) de inverno é desencadeado pelos dias mais curtos, a ...

Enquanto que o transtorno afetivo sazonal (TAS) de inverno é desencadeado pelos dias mais curtos, a versão de verão é provocada por uma miríade de fatores ambientais, como temperaturas elevadas, humidade e até mesmo níveis mais altos de pólen.

Fotografia de Li Hui

No verão passado, Cristina Flores tinha planeado passar duas semanas a viajar pela região centro-oeste dos EUA, conduzindo ao longo da costa de Ohio até às planícies de Iowa e mais além. Cada estado que Cristina Flores iria visitar iria deixá-la mais perto da sua meta de conhecer os 50 estados do país. Mas um dia antes de partir, Cristina cancelou abruptamente a viagem, perdendo os depósitos das reservas Airbnb. Cristina Flores estava demasiado deprimida para sair de casa.

Isto não era um acontecimento inédito, era o episódio mais recente – e o pior de que Cristina tem memória – de um padrão sazonal de depressão que perdura, mas que dá para gerir ao longo do ano, e que aumenta durante o verão. Cristina Flores, agora com 43 anos, é professora do ensino secundário no sul da Virgínia e diz que, quando andava no secundário, começou a reparar em alterações sazonais no seu humor, apesar de só ter sido formalmente diagnosticada com depressão de verão em 2010. Olhando para trás, Cristina consegue rastrear esta tristeza de verão até à infância.


“Os meus pais pensavam sempre que era por eu estar aborrecida ou porque não estava ocupada”, diz Cristina Flores. “Percebo agora, já adulta, que muitos dos meus problemas de infância eram claramente questões de saúde mental.”

Sem saber, Cristina Flores tem vivido com transtorno afetivo sazonal (TAS) de verão – a vertente pouco diagnosticada, mais rara e mais difícil de tratar do que o transtorno afetivo sazonal de inverno. As pessoas que sofrem de TAS de inverno sentem preguiça, têm mais sono, mais apetite e ganham subsequentemente mais peso, mas podem tratar estes sintomas eficazmente com terapias de luz – exposição a uma lâmpada com uma frequência que simula a luz natural. Este tratamento, se for feito pelo menos durante 30 minutos por dia, demonstrou manter o TAS de inverno afastado.

Por outro lado, as pessoas com TAS de verão sentem-se mais agitadas e têm insónias, perda de apetite e perda de peso. E também têm mais probabilidades de se tornarem suicidas do que as pessoas que sofrem com a versão de inverno.

Enquanto que o TAS de inverno é uniformemente desencadeado pela escuridão sazonal constante, a versão de verão é provocada por vários fatores ambientais, incluindo temperaturas elevadas, humidade e até mesmo contagens mais altas de pólen. Estas variações dificultam o tratamento do TAS de verão. Algumas pessoas preferem ficar dentro de casa o máximo possível durante os meses de verão, mas isso pode ser difícil quando a pressão social aumenta para se divertirem ao sol.

Apesar de o TAS de verão estar nos radares dos médicos há quase 40 anos, esta versão permanece pouco compreendida. Dos poucos estudos feitos sobre o TAS de verão, a maioria está confinada à década de 1990 e início de 2000, e não foram atualizados ou explorados desde então.

Fotografia de Li Hui

“Considerando que a área de TAS de inverno tem sido muito investigada, não há muitas pessoas que estudem a variante [de verão] e que carreguem essa tocha”, diz Kelly Rohan, diretora de formação clínica da Universidade de Vermont e psicóloga que estuda o transtorno afetivo sazonal desde 1993.

Este distúrbio é bastante raro e é frequentemente subdiagnosticado. Levando isto em consideração, juntamente com o corpo inadequado de investigações, significa que a maioria das pessoas com TAS de verão provavelmente nunca ouviu falar sobre este problema. Antes de ser entrevistada para este artigo, Cristina Flores diz que era uma dessas pessoas; ela até brincou com a sua terapeuta “sobre a ironia do que parece ser um TAS inverso”.

“As pessoas acham que é estranho ou pensam que estou a brincar. Ninguém consegue perceber como é que uma pessoa pode odiar o verão”, diz Cristina. “Como eu gosto muito do frio e da escuridão, nós brincamos como se eu fosse uma criatura que vive numa caverna e que gosta de estar no seu covil. As pessoas simplesmente não compreendem isto.”

Os dias tristes de verão
Embora o TAS de inverno faça parte da rotina – sobretudo na região norte dos Estados Unidos – o TAS de verão continua pouco compreendido, em parte porque, pelo que se sabe, é muito raro. Ainda assim, nos EUA, a sua prevalência parece aumentar e diminuir ligeiramente ao longo das latitudes, como acontece com o TAS de inverno, embora de forma menos acentuada.

Um estudo de 1990 revelou que 9.7% das pessoas na região norte de Nashua, em New Hampshire, têm TAS de inverno, enquanto que apenas 0.5% relataram sintomas de TAS de verão. Mas mais a sul, em Sarasota, na Flórida, a população com TAS de inverno cai para os 1.4%, ao passo que a população com TAS de verão sobe para os 1.2% – uma proporção pequena em geral, mas visivelmente maior do que a verificada na cidade mais a norte presente no estudo.

Devido à raridade do transtorno e à complexidade dos seus estímulos ambientais, os primeiros estudos sobre o TAS de verão tiveram dificuldades em apontar um alvo preciso para os tratamentos, uma lacuna que foi dilatada pelas décadas de subdiagnóstico deste transtorno.

“Uma condição torna-se mais conhecida se existir algo evidente que possamos fazer sobre isso. É o que acontece com o TAS de inverno”, diz Norman Rosenthal, o psicólogo que identificou o transtorno afetivo sazonal pela primeira vez em 1984. “Com a versão de verão, posso dar algumas recomendações, mas não são coisas simples, eficazes, e fáceis de implementar como a terapia de luz.”

Fotografia de Li Hui

Para as mulheres, que têm mais propensão para sofrer de transtornos afetivos sazonais, ter um problema psicológico raro pode ser particularmente difícil. Com menos estudos, há menos conhecimento institucional, pelo que as mulheres que explicam os seus sintomas aos médicos costumam ser erradamente diagnosticadas como tendo baixa autoestima e problemas de imagem corporal provocados pela indumentária típica de verão, como calções e fatos de banho.

“O TAS de verão é uma coisa complicada de perceber, mas não podemos pensar que não é real. É real”, diz Norman Rosenthal.

Evaporar a tristeza de verão
A consciencialização pública alivia o fardo de lidar com questões mentais, incluindo os transtornos afetivos sazonais, porque as normas sociais impõem regras subtis sobre o nosso bem-estar. Mesmo que a maioria da população em geral não passe por episódios depressivos completos durante o inverno, muitas pessoas conseguem identificar-se com a tristeza ou a falta de vontade em se envolverem com outras pessoas durante os meses mais escuros do ano.

Durante o verão aplica-se o cenário oposto. A maioria dos americanos prefere um clima quente, e isso pode alienar e isolar as pessoas que enfrentam transtornos durante a estação favorita de todos os outros.

Laura Price Steele, mulher de 33 anos de Wilmington, na Carolina do Norte, que vive com a depressão de verão, diz que se sente sempre em dissonância com as outras pessoas. “Eu sinto-me mais alinhada com o mundo quando está mais escuro e frio, mas todos os outros estão cansados e um pouco infelizes”, diz Laura.

Mas esta desarmonia também pode ter os seus momentos de paz. “O ar cortante do inverno, o consolo silencioso e a proteção da escuridão trazem consigo uma sensação de vitalidade”, diz LauraSteele. Enquanto que todos à sua volta estão encolhidos e aconchegados, a produtividade, o foco, a energia e o prazer que Laura Price Steele retira do mundo atingem o pico. O mesmo se aplica a Cristina Flores, que pode ter cancelado a sua viagem no verão passado, mas fez uma viagem tranquila à Islândia em novembro com o seu marido.

As pessoas com TAS de verão gerem a sua depressão de algumas maneiras tradicionais, como psicoterapia, medicação e o afastamento de atividades como viajar. E também procuram estar perto de um ar-condicionado com mais frequência do que as pessoas que normalmente enfrentam o calor do verão.

Em 1987, um estudo de caso de 12 pacientes com transtorno afetivo sazonal mostrou que um método bastante extremo pode ajudar a lidar com a depressão de verão. Uma mulher com a doença ficou completamente fechada num espaço com ar-condicionado durante cinco dias e tomou duches frios de 15 minutos várias vezes por dia. O plano resultou mas, para além de ser completamente insustentável no dia a dia, a mulher disse que, assim que saiu deste ambiente fechado, os seus sintomas regressaram.

Face ao aquecimento global, o desenvolvimento de tratamentos mais práticos vai tornar-se cada vez mais importante. As alterações climáticas já estão a ter impactos negativos na saúde mental, e Norman Rosenthal e Kelly Rohan acreditam que este fenómeno antropogénico pode aumentar as incidências de TAS de verão. Podemos tomar como exemplo as vagas de calor na Sibéria ou as crescentes nuvens de pólen no hemisfério norte – populações que nunca tiveram de enfrentar os estímulos do TAS de verão estão cada vez mais expostas aos mesmos. Para além disso, as pessoas propensas à TAS de inverno e que vivem em locais que já são quentes e húmidos, mas que normalmente gostam do verão, podem começar a perder a tolerância que têm a esta estação do ano à medida que esta se torna mais extrema.

“Se as pessoas não tiverem ar-condicionado para as isolar do aumento do calor e da humidade provocados pelo aquecimento global, podem desenvolver um padrão [bianual]”, diz Kelly Rohan.

Curiosamente, durante este verão que está a ser dominado pela pandemia, e quando as taxas de depressão e ansiedade estão a aumentar para todos os outros, Cristina Flores e Laura Steele estão a ter um verão bastante fácil de gerir pela primeira vez em anos. Laura Steele e a sua esposa até deram as boas-vindas a um novo bebé em junho, e as pressões de ser mãe durante uma pandemia têm sido fáceis de controlar, desde que tenha razões para ficar fechada em casa.

Não há festas nas piscinas, encontros na praia ou churrascos no quintal. E mesmo os convites para os encontros ao ar livre – com máscara e distanciamento social – podem ser evitados com uma desculpa aceitável que não envolve a divulgação de um transtorno de humor incompreendido. Este ano, o verão foi efetivamente cancelado, e algumas pessoas não podiam estar mais felizes com isso.


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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