A Pandemia Tem Sido Boa Para Um Tipo de Trabalhador: o Robô

Agora que qualquer trabalho que envolva o contacto humano é considerado perigoso, a demanda por alternativas mecânicas aumentou exponencialmente.

Wednesday, September 9, 2020,
Por David Berreby
O Spot, um robô semelhante a um cão desenvolvido pela Boston Dynamics, permite que os profissionais ...

O Spot, um robô semelhante a um cão desenvolvido pela Boston Dynamics, permite que os profissionais de saúde do Brigham and Women's Hospital de Boston interajam com os pacientes – e até mesmo meçam a sua temperatura, pulso e saturação de oxigénio – com uma distância segura.

Fotografia de FARAH DADABHOY/ BRIGHAM AND WOMEN'S HOSPITAL (Imagem de vídeo)

O Spot, um robô de quatro patas do tamanho de um golden retriever, foi colocado à venda no ano passado para uso industrial – inspeciona estaleiros de obras, patrulha fábricas de energia e desempenha outras tarefas em lugares que um robô com rodas não consegue aceder.

Depois, quando surgiu a pandemia de COVID-19, o Spot aprendeu alguns truques novos.


Nos últimos seis meses, os robôs Spot entregaram comida a pacientes de quarentena em Singapura e dançaram num jogo de beisebol no Japão para colmatar a ausência de fãs humanos. Em Singapura, no passado mês de maio, depois de um polícia que aconselhava o distanciamento social ter sido esfaqueado por um homem sem máscara, foi testado um Spot para fazer o papel de “embaixador de distância segura” no parque Bishan-Ang Mo Kio. Neste parque, um humano, com uma distância de segurança, usava o robô para observar as pessoas e para ativar lembretes pré-gravados que diziam “vamos manter Singapura saudável”.

Enquanto isso, em Boston, no Brigham and Women’s Hospital, um Spot equipado com um iPad cumprimentava os pacientes à chegada, permitindo que a equipa médica fizesse remotamente a triagem dos possíveis pacientes. E outros Spot equipados com sensores permitiam aos médicos e enfermeiras medir a temperatura, a respiração e até monitorizar os níveis de oxigénio no sangue de um paciente sem estarem na mesma sala.

Todas estas experiências foram alterações naturais para uma máquina que foi projetada “para colocar em segurança as pessoas que desempenham funções perigosas”, diz Michael Perry, vice-presidente de desenvolvimento da empresa criadora do Spot, a Boston Dynamics. Nesta pandemia, o “trabalho perigoso” abrange agora qualquer atividade que coloque as pessoas em contacto de proximidade.

Usando uma viseira para mostrar espírito de equipa devido à COVID, um robô de 1,5 metros de altura chamado Alexia traz uma bebida para um cliente num bar de Pamplona, em Espanha. Os empregados do bar usam o monitor do robô para selecionar a mesa, e o robô é guiado através de faixas magnéticas no chão.

Fotografia de Alvaro Barrientos/AP Photo

A procura por robôs que consigam desempenhar tarefas humanas disparou pelo mundo inteiro. No início de julho, robôs de todos os tipos já estavam diretamente envolvidos no combate à pandemia em pelo menos 33 países, de acordo com a Robotics for Infectious Diseases, uma organização composta por investigadores. A COVID-19 está a colocar robôs em aspetos da vida diária onde raramente ou nunca tinham sido vistos antes.

Eventualmente, a pandemia vai passar. Mas os robôs provavelmente vão ficar.

“Quando vemos a amplitude de aplicações que os robôs têm, creio que este é o nosso momento revolucionário”, diz Robin R. Murphy, da Texas A&M, académica de renome na “robótica de desastres” e presidente da Robotics for Infectious Diseases. “As pessoas que poderiam dizer que era estúpido usar um robô para entregar comida, recebem agora as suas compras de supermercado através de robôs. Os pequenos negócios também os estão a usar. Nunca vimos isto antes. Os robôs estão a tornar-se mais generalizados.”

Socorristas
Nas primeiras semanas da pandemia, os hospitais e clínicas começaram a procurar robôs para responder de imediato à catástrofe, diz Robin – tal como as pessoas usaram robôs em sismos, desabamentos de minas e ataques terroristas nos últimos 20 anos. Na primavera, hospitais na Europa, Ásia e América do Norte estavam a adquirir robôs para “telemedicina” (usar um robô para fazer a ligação entre pacientes e médicos) e “telepresença”, onde os pacientes usam um robô para ver e falar com os seus entes queridos. Outras instituições compraram robôs que entram de forma independente numa sala para a desinfetarem com produtos químicos ou luz ultravioleta. As autoridades de segurança pública colocaram robôs (nas ruas ou no ar) para desinfetar espaços públicos e para procurar pessoas que violassem as ordens de confinamento.

Muitos investigadores de robótica – habituados aos receios públicos sobre segurança, privacidade ou perda de empregos – ficaram surpreendidos com o desaparecimento da resistência às máquinas.

“Coisas que normalmente nos demoravam seis meses abrem-se agora de imediato e os regulamentos foram flexibilizados com um ritmo surpreendente”, diz Anthony Nunez, cuja empresa, a INF Robotics, produz um robô chamado Rudy para cuidar de idosos. As agências de assistência ao domicilio com as quais Anthony trabalha tiveram de reduzir o número de funcionários porque, durante uma pandemia, muitos idosos não querem ter contactos de proximidade com assistentes humanos.

Uma menina desinfeta as mãos com desinfetante dispensado por um robô que anda pelo Central World, um centro comercial em Banguecoque, na Tailândia.

Fotografia de Gemunu Amarasinghe/AP Photo

Os hospitais e outras instalações médicas estão agora “a tentar funcionar com um número mínimo de pessoal, para minimizar a exposição das pessoas a doenças”, diz Andrea Thomaz, cofundadora e CEO da Diligent Robotics, empresa que faz um assistente de enfermagem robótico chamado Moxi. A COVID-19 tornou as equipas médicas mais conscientes do que nunca “sobre como é importante ter o seu pessoal essencial concentrado nas tarefas importantes, em vez de em trabalhos morosos que os afastam dos cuidados aos pacientes e do trabalho clínico”, diz Andrea.

Robin Murphy diz que, tal como a pandemia está a fazer com que muitas pessoas aceitem melhor os robôs, também está a fazer com que muitos investigadores de robótica fiquem mais atentos às necessidades das pessoas comuns. Por exemplo, uma equipa de engenheiros de robótica abordou um hospital italiano na primavera com um projeto para um robô que poderia entregar comida aos pacientes. E rapidamente aprenderam que, para os pacientes de COVID-19 que estavam isolados, a hora das refeições “era a única vez em que viam pessoas socialmente”, explica Robin.

Antes da pandemia, o Hospital Medical City Heart de Dallas, no Texas, já estava a testar o Moxi, um assistente robótico projetado para aliviar o trabalho de enfermeiras como Ming McDowell – entregando, por exemplo, amostras no laboratório.

Fotografia de Spencer Lowell

Assim, os engenheiros alteraram a sua visão. Em vez de substituírem os humanos que entregavam as refeições, criaram um simples robô de telepresença que podia visitar os pacientes e fornecer uma ligação em direto aos seus familiares. O dispositivo é feito de peças prontas para uso, é barato, de fácil manutenção e não exige que uma equipa hospitalar já de si sobrecarregada perca tempo com o robô. E os pacientes e familiares adoram o facto de se conseguirem ver e comunicar entre si.

Pronto ou não?
Nem todas as pessoas estão convencidas de que estamos perante uma nova era da robótica. Os céticos referem que mesmo os robôs supostamente “autónomos” precisam muitas vezes de um supervisor humano para intervir quando a máquina fica perplexa com desafios como navegar pelas ruas, hospitais, armazéns ou residências. Por enquanto, a maior parte do trabalho criado pela COVID-19 – no atendimento aos pacientes, nas entregas e noutras áreas – ainda é realizado por pessoas.

Mas há outra preocupação diferente, a de que os robôs podem provar ser demasiado bons no que fazem – podem permitir uma vigilância maciça, violação de privacidade, ou facilitar demasiado os danos ao ambiente em prol de uma resposta à pandemia. No inverno, foram usados drones na China para ensopar locais públicos com desinfetantes, diz Robin por email. “Não sabemos qual foi o impacto ambiental. Não existem dados sobre os desinfetantes que estão a ser usados, com que concentrações, e se houve algum escoamento para os esgotos ou para os sistemas de abastecimento de água.”

Robin Murphy e os seus colegas fizeram recentemente uma sondagem sobre as notícias publicadas nas redes sociais, na imprensa e nas revistas académicas sobre a utilização de robôs devido à COVID-19. A sondagem revelou que, entre as 262 notícias publicadas entre março e julho, 45 focavam-se em questões éticas. E 17 falavam sobre receios de vigilância excessiva ou violações de privacidade.

E como acontece sempre que se trata de robôs, também há receios devido ao emprego das pessoas. Na primavera, conforme a pandemia se intensificava, os empregadores que adotaram robôs estavam focados na proteção dos seus funcionários, não na sua substituição. Mas isso pode estar a mudar, diz Robin.

“Em junho, começámos a ver um aumento na procura por automação, não para aumentar a capacidade de produção, mas para lidar com a perda de funcionários. As fábricas de embalamento de carnes, os armazéns de comércio eletrónico e outras instalações estão a considerar usar robôs como uma forma para manter os funcionários humanos distantes uns dos outros em segurança”, diz Robin. “Isso pode resultar em alterações dentro das funções de uma empresa ou até na perda de empregos. Não sabemos o que vai acontecer.”

Ainda assim, pelo mundo inteiro, as pessoas parecem mais dispostas do que nunca a permitir que robôs façam trabalhos que anteriormente eram feitos por humanos, e há mais fabricantes de robôs do que nunca a oferecer produtos em resposta. A pandemia de COVID-19 lançou uma experiência a nível global sobre como, onde e por que razão se devem inserir robôs na vida quotidiana.

“Este é um bom momento para a robótica, apesar de não ser um bom para nós enquanto sociedade”, disse em maio Antonio Bicchi, professor de robótica da Universidade de Pisa, a um painel sobre robótica e COVID-19 na Conferência Internacional de Robótica e Automação – um evento anual que este ano foi virtual. “Para a robótica, este é o momento para ajudar. E acho que estamos prontos.”


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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