A Perceção que Temos do Tempo Pode Depender do Nosso Salário

As investigações sobre a forma como o cérebro processa memórias sugerem que as pessoas com poder financeiro para pagar novas experiências criam recordações de uma vida mais longa na Terra.

Tuesday, September 29, 2020,
Por Doug Johnson
Uma mulher em casa numa sessão de manicure e pedicure prestada por um serviço de beleza ...

Uma mulher em casa numa sessão de manicure e pedicure prestada por um serviço de beleza ao domicílio, em Nova Iorque, durante a pandemia de coronavírus. Estudos emergentes sugerem que a riqueza pode ser um fator que determina se o nosso cérebro cria mais “códigos temporais” à medida que formamos memórias, dando-nos uma vida subjetivamente mais longa em retrospetiva.

Fotografia de Natalie Keyssar, The New York Times via Redux

Os relógios do mundo marcam implacavelmente cada segundo, minuto e hora que passam. Mas para as pessoas, alguns segundos de dor podem parecer minutos, as horas passadas numa festa podem desaparecer num piscar de olhos e uma semana a trabalhar com papelada pode desaparecer por completo da mente.

O cérebro consegue expandir ou comprimir a sensação de tempo por vários motivos, incluindo prazer, dor, medo, idade – e até mesmo devido à atual pandemia de COVID-19. Embora a ciência responsável por este “tempo subjetivo” ainda não seja completamente compreendida, algumas investigações sugerem que há um fator adicional que pode influenciar a duração subjetiva da nossa vida: o nosso salário.

As investigações já sugerem que, em média, as pessoas abastadas vivem mais tempo biologicamente. Agora, os trabalhos emergentes sugerem que a exposição a novas e variadas experiências pode criar mais “códigos temporais” no cérebro humano enquanto este processa a formação da memória. E isto, por sua vez, pode significar que as pessoas que se podem dar ao luxo de desfrutar de mais tempo de férias, e que têm empregos mais estimulantes, se vão lembrar de terem vivido mais tempo.

“Mesmo que o tempo voe quando nos estamos a divertir, quando nos lembramos desses momentos conseguimos recordar muito mais dessa experiência prolongada do que acontece com uma experiência aborrecida”, diz Jørgen Sugar, estudante de pós-doutoramento no Instituto Kavli de Neurociência de Sistemas da Universidade Norueguesa de Ciência e Tecnologia. Jørgen faz parte de uma equipa de cientistas que investiga estes códigos temporais da mente.

A ideia de que as coisas novas – a novidade de uma experiência que pode sobressair na memória de uma pessoa – podem afetar a noção de tempo também se parece coadunar com os modos de vida das culturas que não medem o tempo com relógios (muitas culturas dependem de eventos celestiais, culturais e sazonais para marcar o fluxo do tempo). “A nossa experiência de tempo varia de acordo com as circunstâncias e também de acordo com o tipo de ritmo de atividade em que nos envolvemos”, diz Chris Sinha, cientista cognitivo que trabalha na Universidade de Hunan e que estudou o chamado “tempo baseado em eventos” em tribos amazónicas e grupos linguísticos minoritários na China.

Mas há especialistas que não estão convencidos. De acordo com Monica Capra, economista com formação em neuroeconomia na Universidade Claremont Graduate, o tempo subjetivo ainda não é bem compreendido cientificamente. Para além disso, diz Monica, há muitos fatores a considerar na forma como o cérebro processa o tempo. Por exemplo, de acordo com Adrian Bejan, professor de termodinâmica na Universidade Duke, a novidade de uma experiência divertida pode simplesmente desvanecer.

Ainda assim, investigadores de diversos campos estão ansiosos para desvendar os mistérios da memória e do tempo subjetivo. De acordo com Jørgen Sugar, compreender como os humanos formam e recuperam memórias pode ajudar muitas facetas da sociedade, seja ao nível da lei, na educação ou saúde – e talvez até mesmo ajudar na compreensão de nós próprios. “O cérebro humano é o sistema biológico mais complexo que conhecemos”, diz Jørgen.

Caça aos códigos temporais
O estudo do tempo subjetivo tem uma longa história. De acordo com Valtteri Arstila, professor de filosofia na Universidade de Helsínquia, os debates sobre o tempo subjetivo remontam aos antigos filósofos gregos. Em 1800, este estudo tornou-se mais estabelecido entre psicólogos e filósofos, diz Dan Lloyd, professor de filosofia e neurociências no Trinity College de Hartford, no Connecticut. Dan lloyd, juntamente com Valetteri Arstila, coeditou um livro chamado Subjective Time: The Philosophy, Psychology, and Neuroscience of Temporality.

A vertente fisiológica das coisas foi um campo que se evidenciou na década de 1950, quando um tratamento comum para a epilepsia se concentrou na remoção de partes do cérebro dos pacientes. Ao paciente Henry Molaison foram removidos segmentos do seu lobo temporal medial. A operação curou a epilepsia, mas incapacitou-o de formar novas memórias de longo prazo. Este efeito sugeriu que o lobo temporal medial estava ligado à formação da memória e perceção do tempo.

A equipa de Jørgen Sugar acredita ter encontrado uma sequência de neurónios que é ativada quando o cérebro cria memórias. A equipa começou por estudar ratos, ligando vários elétrodos aos seus cérebros e projetando experiências para desencadear a formação de memória. No primeiro teste, os investigadores transferiram os ratos de uma caixa onde se conseguiam mover livremente para uma “caixa de descanso” onde geralmente ficavam quietos. Os ratos foram movidos de um lado para o outro e os investigadores esperavam que começassem a usar a memória para antecipar as mudanças. No segundo teste, ratos individuais percorreram um labirinto em forma de oito. Quando os ratos percorriam a sequência correta de curvas, ganhavam um biscoito como recompensa.

Enquanto estudavam os resultados, os investigadores repararam que os neurónios numa parte do cérebro chamada córtex entorrinal lateral, que faz parte do lobo temporal medial, nunca eram ativados da mesma forma duas vezes. Por outro lado, os neurónios no córtex entorrinal medial vizinho – que os líderes da equipa já tinham estudado relativamente ao espaço – disparavam de forma previsível. Este padrão pode fazer sentido, porque apesar de alguém poder visitar o mesmo sítio várias vezes, os pontos reais no tempo nunca se repetem, diz Jørgen.

A atividade nesta região do cérebro também variava consoante o que os ratos faziam. Quando corriam livremente, surgiam mais depressa novos códigos temporais, ao contrário do que acontecia quando estavam em repouso ou a percorrer o labirinto pela enésima vez. De acordo com Jørgen, o cérebro não quer perder tempo a memorizar os momentos que são enfadonhos ou não essenciais. Portanto, parece que os ratos criam mais memórias quando as suas ações são livres, envolventes ou variadas.

Extrapolando estas descobertas para os humanos, é possível que alguém com mais dinheiro possa pagar para ter mais experiências novas, gerando mais códigos temporais – embora Jørgen saliente que as pessoas não precisam de salários elevados para terem uma vida dinâmica e interessante.

Também há uma diferença entre a memória de “trabalho” de curto prazo que se sente no momento e a memória episódica de longo prazo vista em retrospetiva, diz Jørgen. Por exemplo, o tempo pode parecer uma eternidade para um estudante universitário que está a assistir a uma palestra maçadora, enquanto que o tempo voa para um aluno que participa numa palestra interessante. No entanto, quando se lembram desses momentos, a aula aborrecida que criou menos códigos temporais terá desaparecido da mente, enquanto que a aula fascinante que passou de repente vai estar repleta de memórias e, portanto, parecerá mais longa em retrospetiva.

Conseguimos escapar do tempo?
De acordo com Chris Sinha, da Universidade de Hunan, os humanos tendem a criar narrativas sobre si próprios, e uma vida cheia de histórias ricas e variadas provavelmente terá uma qualidade satisfatória em retrospetiva, em comparação com uma vida limitada pela uniformidade. Chris suspeita que, se tivermos mais controlo sobre o nosso tempo – algo que pode ser proporcionado tanto por fatores económicos como pelo uso de um tempo “sem relógio” baseado em eventos – isso pode dar origem a mais memórias novas e a uma história de vida mais desenvolvida.

E mesmo que os empregos com salários mais elevados possam levar a mais experiências novas, as pessoas ricas não estão necessariamente a gastar dinheiro dessa forma, argumenta Monica Capra, da Universidade Claremont Graduate. Um milionário, por exemplo, pode gastar dinheiro num relógio sofisticado, mas isso provavelmente não muda a sua perceção do tempo da mesma forma que umas férias ou até mesmo uma caminhada de baixo custo o fazem, diz Monica.

“O cérebro humano é o sistema biológico mais complexo que conhecemos.”

por JØRGEN SUGAR, INSTITUTO KAVLI DE NEUROCIÊNCIA DE SISTEMAS DA UNIVERSIDADE NORUEGUESA DE CIÊNCIA E TECNOLOGIA

Para além disso, nem todas as pessoas precisam, ou gostam sequer, de férias caras ou de empregos evocativos. Uma pessoa pode ter prazer e satisfação a pintar casas ou a fazer jardinagem. Para os pais de todos os níveis socioeconómicos, passar tempo com os filhos é uma forma de encontrar alegria; os CEO e outros funcionários abastados que têm pouco tempo livre podem perder esse tempo de qualidade em família.

Em relação à forma como sentimos o tempo subjetivo, a idade também é um fator bem documentado e independente de riqueza. No ano passado, Adrian Bejan, da Universidade Duke, escreveu um artigo onde explicava as razões pelas quais o tempo parece acelerar à medida que as pessoas envelhecem. No artigo, este professor de termodinâmica sugere que as “agitações nos olhos” são responsáveis pelo fenómeno.

Os olhos humanos executam alguns movimentos em resposta a uma mudança no campo de visão. Os nossos olhos examinam rapidamente as redondezas e enviam os dados para o cérebro. Os olhos jovens movem-se regularmente para captar estímulos novos ou desconhecidos. À medida que a pessoa ligada a esses olhos envelhece, os músculos oculares ficam mais lentos e os caminhos entre o olho e o cérebro ficam mais longos, mais complexos ou, em alguns casos, danificados.

Ao todo, isto significa que o cérebro recebe menos informações ao longo do dia. Mas, com uma certa idade, o cérebro já se habituou a uma determinada quantidade de estímulos, e a quantidade relativamente pequena recebida na velhice deixa a pessoa com a sensação de que o dia terminou demasiado cedo.

De acordo com Adrian, os ricos não conseguem fazer com que o tempo desacelere. “Para uma pessoa abastada, ir de férias para Maui pode abrandar um pouco o tempo mas, mais cedo ou mais tarde, isso perde o charme, o tempo volta a acelerar e o viajante quer regressar ao escritório. Isto não quer dizer que devemos sentir pena dos ricos e famosos”, acrescenta Adrian.

De acordo com Dan Lloyd, da Trinity College, a riqueza até pode impedir uma vida subjetivamente mais longa. Uma pessoa rica pode ter mais controlo sobre o seu ambiente, vivendo menos coisas surpreendentes que expandam o tempo.

Valtteri Arstila, por outro lado, diz que é possível que as pessoas mais pobres tenham menos oportunidades e recursos para escapar das partes mais aborrecidas ou monótonas das suas vidas. “Creio que o que se destaca é que as pessoas ricas têm a opção de se livrar das suas rotinas diárias”, diz Valtteri, embora também saliente que a memória é apenas um dos aspetos do tempo subjetivo.

Os investigadores ainda estão a descobrir como é que o cérebro perceciona o tempo e quais são os fatores internos e externos que podem afetar a forma como o vivemos. Doenças, saúde física debilitante e desnutrição também podem ter um efeito nocivo na memória, diz Jørgen Sugar. A sua equipa está nos estágios iniciais da exploração dos códigos temporais em ratos e usa modificações genéticas e câmaras de filmar extremamente pequenas. O trabalho da equipa com ratos também sugere que a biologia inata pode desempenhar um papel: nas experiências feitas até agora, alguns indivíduos tiveram naturalmente mais dificuldades em memorizar coisas do que outros.

Por enquanto, a ideia de tempo subjetivo ainda está repleta de incógnitas, incluindo o impacto da memória e os efeitos exatos da riqueza, se é que existem. Mas, para muitos investigadores de todos os campos, as complexidades do tempo e do cérebro continuam a ser áreas de estudo muito ricas e interessantes. “É uma experiência psicológica universal”, diz Dan Lloyd, “e não sabemos bem como funciona”.


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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