Este Médico Viaja Pelo Mundo a Salvar Vidas em Zonas de Risco

Quando um vírus ataca, o epidemiologista Michael Callahan parece estar sempre no meio do perigo. É exatamente assim que ele gosta.

Wednesday, September 2, 2020,
Por Brendan Borrell
Michael Callahan, especialista em doenças infecciosas, já estava envolvido na luta contra a pandemia de COVID-19 ...

Michael Callahan, especialista em doenças infecciosas, já estava envolvido na luta contra a pandemia de COVID-19 antes de as notícias sobre a doença surgirem no início de janeiro.

Fotografia de Matt Nager, National Geographic

No início de janeiro, quando os primeiros relatos sobre um novo surto de coronavírus começaram a surgir em Wuhan, na China, um médico americano já estava a trabalhar no caso. Em novembro, Michael Callahan, especialista em doenças infecciosas, estava a colaborar com colegas chineses numa parceira de longa data sobre a gripe aviária, quando eles mencionaram o aparecimento de um novo vírus estranho. Pouco depois, Michael já estava a caminho de Singapura para observar pacientes que apresentavam sintomas do mesmo germe misterioso.

Podemos citar qualquer grande surto de doença, de qualquer parte do mundo, nos últimos 20 anos – SARS, Ébola, Zika – e muito provavelmente Michael Callahan, de 57 anos, estava lá (com o seu fato de biocontenção, claro). Durante a década de 1990, uma temporada a trabalhar num campo de refugiados na República Democrática do Congo foi o suficiente para o convencer a seguir uma carreira de médico de doenças infecciosas na linha da frente. Desde então, Michael trabalhou em clínicas remotas de tratamento de Ébola em África, ajudou a requalificar especialistas russos em armas biológicas, formou investigadores de doenças infecciosas e liderou programas multimilionários do Departamento de Defesa dos EUA para encontrar formas de prever e prevenir doenças emergentes.


Depois de Singapura, Michael voou para Washington D.C., onde informou as autoridades do governo dos EUA sobre os locais onde a doença poderia surgir a seguir. Naquela altura, dois navios de cruzeiro estavam parados no mar com casos de coronavírus a bordo. Como Michael tinha sido um dos poucos médicos americanos que tinham testemunhado a doença, o Departamento de Serviços Humanos e Saúde (DHHS) pediu-lhe para ajudar a evacuar os passageiros americanos do Diamond Princess, que estava ao largo de Yokohama, no Japão, e do Grand Princess, na costa da Califórnia.

Com ambas as tarefas concluídas, Michael regressou a Boston – onde está sediado no Hospital Geral de Massachusetts – e a Nova Iorque, para ajudar a lançar os ensaios clínicos e cuidar dos pacientes com COVID-19 no hospital. “É uma corrida ao armamento entre a morte e a cura”, diz Michael. “Ou o vírus vence, ou o nosso sistema imunitário vence.”

A National Geographic conversou com Michael Callahan enquanto ele fazia uma pausa na sua casa em Boulder, no Colorado. A entrevista que se segue foi editada por motivos de extensão e clareza

Como é que o seu passado enquanto alpinista em Yosemite o preparou para uma vida com doenças infecciosas?
Trabalhei durante a faculdade [na Universidade de Massachusetts Amherst] como paramédico e participei em resgates nas montanhas, onde aprendi a tomar decisões quando havia vidas em perigo durante uma emergência. Quando estava na faculdade de medicina [na Universidade do Alabama], o meu interesse mudou para as operações de ajuda humanitária no estrangeiro. Percebi que não eram os terramotos ou os tsunamis que estavam a matar toda a gente, mas sim a malária, a dengue e as doenças transmitidas pela água, doenças que surgem depois. As doenças infecciosas são uma espécie de desastre que se desenrola lentamente. E é algo que continua para sempre.

Alguma vez pensou que iria ver uma pandemia como a COVID-19 durante a sua vida?
Durante os exercícios de planeamento de surtos [no Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos EUA], consideramos os piores cenários, mas pensamos sempre que são hipotéticos. E também estávamos convencidos de que a próxima pandemia seria de gripe, mesmo depois dos surtos de SARS em 2002 e 2003. Era um vírus mau, mas não era assim tão infeccioso. Isto mostra o quão humildes devemos ser.

O que torna este novo coronavírus tão difícil de combater?
A magnitude do contágio. O vírus é como uma pequena bomba silenciosa que fica na nossa comunidade. Depois, encontra uma pessoa vulnerável e acaba simplesmente com ela. Costumo dizer que o novo coronavírus é um icebergue, sem gelo. Está tudo debaixo da superfície da água. Neste momento, estamos apenas a limar o topo desta coisa.

Como é que esta crise está a mudar as regras da medicina?
Temos o sistema médico mais abastado e próspero em recursos do planeta, mas nada nesta riqueza nos está realmente a ajudar, porque os nossos pacientes estão a morrer com a mesma proporção com que morrem nas nações com menos recursos. A nossa melhor arma é o conhecimento.

Alguma vez contraiu uma doença infecciosa a trabalhar?
Eu considero que ficar infetado é uma falha profissional. É suposto eu ser o melhor exemplo. Quando levámos a equipa de catástrofes [composta por médicos, enfermeiros e farmacêuticos enviados pelo DHHS] para o navio de cruzeiro Diamond Princess no Japão, eles nunca tinham estado numa zona de risco em toda a sua vida. Estas pessoas estão preparadas para sismos e furacões. Eles estão a aprender novas aptidões e dizemos-lhes que o mais importante, caso estejam nervosos ou inseguros, é abrandar. Se ficarem infetados, a falha é nossa, não deles.

O que o faz continuar a regressar às zonas de risco?
Os últimos americanos a abandonar uma nação hostil são os médicos e enfermeiros. Temos um gene defeituoso que nos faz ir para as regiões com estes surtos e que nos faz colocar em perigo, porque estamos preocupados com a desigualdade no acesso aos cuidados de saúde. Durante a faculdade de medicina, fui voluntário no campo de refugiados de Goma, na fronteira do Congo com o Ruanda. Eu já estava de regresso a casa quando aconteceu o genocídio, mas fiquei motivado pela injustiça daquilo tudo. Estar nestes lugares remotos e ensinar um médico a fazer qualquer coisa, fez-me perceber que podia afetar milhares de vidas e criar alterações duradouras numa aldeia ou comunidade.

Como pensa que a crise de coronavírus vai terminar?
A única saída passa por todos se tornarem imunes porque contraíram a infeção ou porque foram vacinados. Se eu tivesse de apostar o meu dinheiro, diria que uma das vacinas no horizonte imediato pode dar-nos uma imunidade transitória e, se durar entre quatro a seis meses, poderemos quebrar o ciclo da pandemia. Depois, repetimos tudo novamente com outra vacina melhor. Assim, conseguimos viver através disto. Não vamos erradicar o problema com as primeiras vacinas.

Acha que há demasiada ênfase colocada sobre a vacina?
Quando nos deparamos com uma infeção de vítimas em massa, há uma lista de prioridades. Em primeiro lugar, proteger os vulneráveis. Em segundo, interromper o contágio. Em terceiro, cuidar dos doentes. E o número quatro é fazer uma vacina, porque é o mais demorado e o de maior risco. Mas, como é óbvio, ainda não interrompemos o contágio. E não estamos a investir o suficiente em terapias para o coronavírus. O desenvolvimento de uma vacina requer a compreensão da resposta do sistema imunitário humano a um vírus que nunca vimos anteriormente. Preferia levar o vírus para o laboratório e castigá-lo com uma série de antivirais de ação direta.

Como é que podemos evitar que uma pandemia como esta aconteça novamente?
Os surtos de doenças infecciosas estão a ficar maiores, mais rápidos e mais frequentes. Em todos os surtos de Ébola [em África], as pessoas corriam para as capitais, onde há voos diretos para a Europa, Índia e China. Isto significa que estas doenças são imediatamente internacionais, e precisamos de deixar a política de lado e trabalhar em conjunto para as combater.


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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