Inovação Anatómica Vem Explicar Evolução dos Dinossauros Saurópodes

Os dinossauros saurópodes são afinal um pouco diferentes do que até então se imaginava, e o que o indica é um estudo de inovação anatómica recentemente desenvolvido.

Tuesday, September 8, 2020,
Por National Geographic
Reconstrução de Spinophorosaurus nigerensis no ambiente em que viveu durante o Jurássico Médio.

Reconstrução de Spinophorosaurus nigerensis no ambiente em que viveu durante o Jurássico Médio.

Fotografia de Diego Cobo (ilustração)

Os dinossauros, ou dinossáurios, constituem um grupo de animais que se estima terem aparecido na Era Mesozóica, há cerca de 250 milhões de anos. Foi um tipo de animal dominante na Terra, em três períodos geológicos: o Triássico (250 a 205 milhões de anos), o Jurássico (205 a 142 milhões de anos), e o período Cretáceo, que durou até há cerca de 66 milhões de anos.

Variavam muito em tamanho e peso, com dinossauros terópodes medindo cerca de 45 centímetros, como o Epidexipteryx, aos maiores, os dinossauros saurópodes, que podiam chegar a uma altura de cerca de 20 metros, como o Argentinossauro.


Os dinossauros saurópodes eram gigantescos
Os dinossauros, descendentes dos arcossauros, dominavam todo o Mesozóico, dividindo-se em dois grandes grupos: os avipélvicos, com bacia pélvica idêntica à das aves e, os sauripélvicos, como os saurópodes, com bacia idêntica à dos répteis. A cauda era muito comprida, assim como uma grande unha que a maioria dos dinossauros saurópodes possuía na pata dianteira. Estas eram as suas únicas armas de defesa, para além do seu tamanho.

Os saurópodes apareceram pelo Jurássico tardio, há cerca de 175 milhões de anos, e espalharam-se pelo planeta. Em Portugal, a ocorrência de dinossauros saurópodes está composta por formas de eusaropodes basais (Lourinhasaurus), diplocodocoideos (Dinheirosaurus) e titanosauriformes (Lusititan).

Reconstrução virtual do dinossauro saurópode revela-se um pouco diferente do esperado
Uma inovação anatómica surge como chave na compreensão da evolução dos dinossauros saurópodes, os maiores animais quadrúpedes que caminharam sobre a Terra. A partir da utilização de técnicas avançadas de digitalização, obtiveram-se modelos tridimensionais para cada um dos mais de 200 ossos do esqueleto, e foi possível recriar virtualmente este animal em vida.

O estudo utiliza como base um esqueleto com cerca de 13 metros de comprimento, pertencente ao Spinophorosaurus nigerensis, um saurópode escavado em 2007 no Níger, no contexto do projeto 'PALDES – Paleontología y Desarrollo'. Este exemplar, com cerca de 170 milhões de anos, é um dos primeiros dinossauros saurópodes primitivos, mais completo e mais bem preservado, temporariamente depositado no Museo Palenontológico de Elche, em Espanha. A preservação excecional e integridade deste espécime permitiu criar a montagem esquelética virtual.

Surpreendentemente, o animal reconstruído virtualmente é muito diferente do esperado. Em vez de uma coluna vertebral sub-horizontal, o dorso e o pescoço encontram-se muito mais elevados do que nas reconstruções prévias, devido à disposição das vértebras sacrais.

Comparação entre a reconstrução previamente conhecida de Spinophorosaurus nigerensis e a reconstrução proposta neste estudo.

Fotografia de Daniel Vida, Pedro Mocho, Andrés Aberasturi, ‪José Luis Sanz‬, Francisco Ortega (Ilustração)

As análises efetuadas sugerem evidências diferentes no esqueleto do saurópode
Os estudos anteriores sobre as capacidades de alimentação dos saurópodes, com base no seu pós-crânio focaram-se, principalmente, na postura do pescoço e amplitude de movimento. Evidências de articulação neutra dos ossos e análises computadorizadas sugeriram pescoços mais retos e menos flexíveis.

De acordo com alguns autores, a maioria dos dinossauros saurópodes mal conseguia levantar o pescoço acima da altura do ombro. No entanto, as vértebras sacrais observadas, apresentam um encunhamento de cerca de 20 graus, que eleva as vértebras da cauda, bem como as do dorso e do pescoço.

No caso dos Spinophorosaurus, o encunhamento é acompanhado pela presença de braços longos e de um pescoço flexível, que o permitiam alimentar-se de vegetação a mais de sete metros de altura, posicionando o seu pescoço de forma semelhante às girafas atuais.

Foi ainda possível observar, ao comparar o sacro de Spinophorosaurus com o de outros saurópodes, que a maioria apresentava um sacro com encunhamento. Apenas os saurópodes mais primitivos apresentavam sacros de perfil retangular, alimentando-se de vegetação de porte médio.

O esqueleto virtual do dinossauro saurópode permitiu entender o seu plano corporal e as suas capacidades de alimentação
A investigação indica que o encunhamento do sacro apareceu numa fase precoce da história evolutiva dos dinossauros saurópodes, correspondendo a uma inovação chave no êxito evolutivo destes animais, que passou despercebida até aos dias de hoje.

Ao longo da história evolutiva dos saurópodes, até à sua extinção há 66 milhões de anos, o sacro nunca perdeu este encunhamento. Assim, as formas mais evoluídas tiveram de modular a posição da sua cabeça mediante alterações no comprimento relativo dos seus braços.

Embora tenha ocorrido um amplo debate sobre as capacidades de alimentação dos dinossauros saurópodes, a maioria concentrou-se na morfologia funcional do crânio, dentes e pescoço. A observação atual sugere que estudar apenas a anatomia craniana e cervical pode ser insuficiente para entender o plano corporal dos saurópodes e as capacidades de alimentação.

A montagem do esqueleto virtual do Spinophorosaurus leva a compreender que a morfologia do sacro e das vértebras dorsais posteriores também têm um papel crucial no plano geral do corpo dos dinossauros saurópodes.

O estudo foi coordenado pelo paleontólogo Daniel Calés Vidal da Universidad Nacional de Educación a Distancia (UNED) em Madrid e contou com a colaboração do Museu Nacional de História e da Ciência da Universidade de Lisboa. O investigador é o primeiro autor do artigo científico resultante da investigação, “High browsing skeletal adaptations in Spinophorosaurus reveal na evolutionary innovation in sauropod dinosaurs”, assinado também por Pedro Mocho, investigador do Instituto Dom Luiz (IDL).

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