Millennials e Geração Z Estão a Propagar Coronavírus – Mas Não em Festas ou Bares

As gerações mais jovens são responsabilizadas pela propagação da pandemia, mas também enfrentam os impactos dos riscos de transmissão que acompanham o funcionamento da economia.

Monday, September 21, 2020,
Por Rebecca Renner
Uma cliente sentada e um empregado no Magnolia Pancake Haus em San Antonio, no Texas, na ...

Uma cliente sentada e um empregado no Magnolia Pancake Haus em San Antonio, no Texas, na sexta-feira, dia 1 de maio de 2020, enquanto o comércio reabria com capacidade reduzida devido à pandemia.

Fotografia de Christopher Lee, The New York Times via Redux

Quando os paramédicos se apressaram para levar uma mulher hondurenha grávida para a sala de urgência, Chuan-Jay Jeffrey Chen, de 28 anos, estava pronto para a receber. Estávamos em abril e a pandemia já fazia parte do último ano de Chen enquanto interno de emergência médica. De todos os pacientes com coronavírus que chegaram ao Hospital Geral de Massachusetts, em Boston, esta paciente de 32 anos continua a ser a mais memorável para Chen.

A mulher tinha tanta dificuldade em respirar que mal conseguia falar, pelo que Chen teria de a intubar – um procedimento complicado que requer precisão e rapidez. Cada momento sem oxigénio diminui as probabilidades de sobrevivência de um paciente; a gravidez complica ainda mais o cenário, porque incha as vias respiratórias, fazendo com que a pressão arterial desça ainda mais depressa. Enquanto Chen começava a trabalhar e a explicar os passos em espanhol, também estava a tentar acalmar os próprios nervos.

“Eu sabia que tinha muito pouca margem de erro”, diz Chen. O marido da paciente tinha sido impedido de entrar no hospital devido às restrições do coronavírus, e Chen sabia que, se algo corresse mal, a sua voz poderia ser a última que ela iria ouvir.

Para além do stress de uma situação de vida ou morte, Chen também estava a enfrentar dificuldades económicas. Encurralado entre os preços astronómicos de renda em Boston e o aumento das contas dos empréstimos estudantis, Chen estava prestes a formar-se e a entrar no mercado de trabalho, onde as oportunidades diminuíram devido ao adiamento de contratações induzido pelo coronavírus e ao encerramento de hospitais.

Quando se trata de Millennials e Geração Z – definidos pelo Centro de Pesquisa Pew como individuos nascidos após 1982 e 1996 – as histórias de multidões nas praias e festas em casas onde os convidados se tentavam infetar uns aos outros com COVID-19 chegaram à comunicação social. Mas estas histórias obscurecem as circunstâncias mais complicadas de pessoas como Chen e a sua paciente, que são moldadas por desigualdades económicas e sociais. No dia 18 de agosto, a Organização Mundial de Saúde anunciou que as pessoas na faixa dos 20, 30 e 40 anos estavam a impulsionar a propagação do vírus, mas que isso acontecia porque a maioria estava apenas a tentar fazer o seu trabalho.

“Nas últimas décadas, assistimos a uma mudança na economia em direção a mais empregos no setor de serviços”, incluindo retalho, restauração e cuidados infantis, diz Sharon Sassler, professora de gestão e análise política na Universidade Cornell. “Os jovens que trabalham nestes empregos estão agora em maior risco de exposição ao vírus.” Para além disso, as investigações emergentes estão a confirmar o que muitos especialistas já observaram em situações de desastres naturais: a vulnerabilidade económica afeta gravemente a capacidade de uma pessoa conseguir lidar com uma catástrofe, e este fardo cai pesadamente sobre as gerações mais jovens.

Em Boston, Chen conseguiu salvar a mulher grávida. Meses depois, ela escreveu a Chen e à equipa do hospital, queria que conhecessem mais sobre a vida que salvaram. Ela tinha estudado arquitetura nas Honduras antes de ir para os Estados Unidos, onde o seu marido tinha conseguido emprego numa fábrica. Foi nessa fábrica que ele contraiu o coronavírus e, sem saber, levou-o para casa, infetando a esposa e o filho ainda por nascer. Chen diz que a carta o marcou e que o fez lembrar das escolhas impossíveis que a pandemia está a forçar os jovens adultos – incluindo ele próprio – a fazer todos os dias.

“São pessoas que estão no início das suas carreiras, pessoas com menos escolaridade, pessoas com determinados tipos de empregos que não podem ser feitos a partir de casa. Estas pessoas costumam ser mais jovens.”

por GRAY KIMBROUGH, UNIVERSIDADE AMERICAN

Nos EUA, dos 22 milhões de empregos perdidos desde o início da pandemia, apenas 42% foram recuperados até ao início de agosto. Esta escassez coloca os jovens adultos numa situação complicada: se conseguirem encontrar emprego, mesmo que isso signifique risco de exposição, muitos vão sentir vontade de aceitar. E embora as pessoas entre os 18 e 34 anos tenham menos probabilidades de morrer de coronavírus, também não são completamente poupadas. Nos Estados Unidos, um em cada cinco jovens adultos hospitalizados requer cuidados intensivos. (Descubra como os cientistas sabem que a COVID-19 é muito mais mortífera do que a gripe.)

“O vírus está a atingir as pessoas mais velhas com muito mais severidade”, diz Gray Kimbrough, economista da Universidade American. “Mas a recessão está a afetar as pessoas menos favorecidas da sociedade com mais força. São pessoas que estão no início das suas carreiras, pessoas com menos escolaridade, pessoas com determinados tipos de empregos que não podem ser feitos a partir de casa. Estas pessoas costumam ser mais jovens.”

Dilema económico
As gerações mais velhas são conhecidas por usarem os mais jovens como bodes expiatórios para os problemas económicos dos EUA. Na última década, as notícias que começavam com “Millennials estão a matar...” eram tão comuns que a frase acabou por se tornar num meme em 2016. Mas agora sabemos que a geração millennial não estava a matar tradições como o casamento ou a compra de uma casa por despeito. Devido à Grande Recessão, estavam demasiado pobres para se darem a esses luxos, sem falar em ter dinheiro para férias, ou para casinos, cinemas ou clubes de campo. O comportamento desta geração foi uma reação às crises económicas pelas quais passou, não a causa dessas crises.

Este legado está agora a passar para a Geração Z. Em março, quando surgiu a primeira vaga de despedimentos devido ao coronavírus, Jade Jackson perdeu o emprego numa loja de roupa. Jade trabalhava na loja para cobrir as despesas da faculdade do próximo semestre. Nos meses que se seguiram, esta jovem de 19 anos passou por dificuldades para encontrar um novo emprego.

“Começou a transformar-se numa corrida contra o tempo”, diz Jade. Determinada a continuar os estudos com especialização em ciências biomédicas na Universidade Estadual do Arizona, Jade continuou a candidatar-se para um emprego. Depois de mais de três meses de candidaturas e recusas, ela conseguiu um emprego numa loja de roupa diferente, num centro comercial perto de casa, em Chicago. Mas, embora a loja tomasse todas as precauções, desde a instalação de proteções de acrílico nos balcões até ao fornecimento de desinfetante para as mãos dos clientes, o risco de exposição esteve sempre presente na mente de Jade. O que a preocupava mais do que a sua própria segurança era a possibilidade de se tornar portadora assintomática e, sem saber, infetar a avó, com quem vivia.

“Eu trocava de roupa no carro, levava-a para dentro e lavava-a todos os dias”, diz Jade. “Só depois de tomar um banho, para me certificar de que estava limpa, é que podia finalmente ir cumprimentar a minha irmã e a minha avó.”

Os receios de Jade Jackson – e os cuidados que tem – são justificados. Os especialistas referem que pessoas como Jade, que querem frequentar a faculdade e cujos empregos são mal pagos, colocam-se em contacto com um número maior de pessoas e têm mais probabilidades de contrair e propagar o coronavírus; daí o número crescente de casos nesta faixa etária.

“Vejo muitas críticas dirigidas aos jovens, sobretudo aos universitários”, diz Hannah Smith, estudante de mestrado de 22 anos da Universidade Texas A&M. Hannah está a estudar saúde pública e fez a difícil escolha de assistir presencialmente às aulas durante este semestre. “Acho isto injusto, sobretudo quando a universidade nos recebe de braços abertos.”

Este aumento de risco não vem apenas da natureza de contacto elevado de um emprego ou da escola. O risco de coronavírus também está fortemente correlacionado com o nível salarial, algo que influencia a nossa capacidade de distanciamento social.

Antes da pandemia, os americanos mais abastados moviam-se pelas suas cidades – e não só – muito mais do que a classe trabalhadora. Mas em abril, estas estatísticas mudaram. De acordo com uma extensa análise de dados anónimos de telemóveis, houve um aumento de 25% nas pessoas que não saíam completamente de casa nos bairros mais ricos, enquanto que as pessoas com salários mais baixos começaram a sair cada vez mais dos seus ambientes habituais, um aumento de 10%.

“A pandemia tem enfatizado um problema exclusivamente americano”, diz Gray Kimbrough. “A nossa rede de segurança social tem muitas fendas.”

Cair pelas fendas
Quando o salário determina a capacidade de uma pessoa se distanciar socialmente, não é de surpreender que os que estão financeiramente mais sobrecarregados estejam cada vez mais a contrair coronavírus e a lidar com doenças graves. E isto é ainda menos surpreendente para os investigadores que previram esta tendência com uma métrica chamada índice de vulnerabilidade social, ou IVS.

Este sistema IVS, criado pelos Centros de Controlo e Prevenção de Doenças no rescaldo do furacão Katrina, é um sistema de análise que é usado para medir a resiliência comunitária e determinar os serviços de emergência que as comunidades necessitam quando enfrentam desastres. O IVS leva em consideração fatores como o estatuto socioeconómico, estatuto de minoria, composição familiar, problemas de saúde, tipo de habitação e o acesso a transportes para calcular a gravidade com que as pessoas podem ser afetadas por desastres, e quanta intervenção governamental será necessária para a recuperação destas áreas. No sudeste dos Estados Unidos, o IVS é normalmente usado para ajudar as comunidades com salários mais baixos a responderem aos furacões, porque as mais de cinco décadas de investigação mostraram que a pobreza aumenta significativamente o risco de ferimentos graves ou morte em caso de desastre natural.

Estas mesmas tendências estão agora a surgir com a pandemia. Em abril uma equipa de Harvard e Stanford já tinha reparado numa correlação entre vulnerabilidade social e um maior risco de contrair o vírus.

“As pessoas que são mais vulneráveis socialmente também estão no mercado de trabalho de serviços essenciais, ou não se podem dar ao luxo de não trabalhar”, diz Arshed Quyyumi, professor de cardiologia da Escola de Medicina da Universidade Emory, em Atlanta, no estado da Geórgia. “Eles continuam a trabalhar, muitas vezes vão de transportes públicos e, portanto, têm uma taxa de exposição maior. Depois, em casa, não se conseguem distanciar socialmente porque vivem em habitações sobrelotadas.”

“Mais de uma em cada quatro comunidades socialmente vulneráveis dos EUA teve uma taxa elevada de mortalidade durante esta pandemia.”

Mais de uma em cada quatro comunidades socialmente vulneráveis dos EUA teve uma taxa elevada de mortalidade durante esta pandemia, de acordo com uma análise que o grupo de pesquisa de Arshed Quyyumi criou e apresentou em forma de mapa interativo.

“Um dos motivos é o acesso aos cuidados de saúde”, diz Aditi Nayak, bolseira de cardiologia na Universidade Emory e membro da equipa de investigação. “Há uma disparidade óbvia no acesso aos tratamentos experimentais, há disparidade no acesso aos testes.”

Os salários, os mais baixos em particular, pesam fortemente entre os riscos de se contrair coronavírus. De acordo com uma análise do Imperial College de Londres, as pessoas que vivem nas famílias mais pobres da América têm 32% mais probabilidades de morrer de coronavírus do que as pessoas nas famílias mais ricas.

Resumindo, apesar de as gerações mais jovens serem responsabilizadas pela propagação da pandemia, também estão a lidar com o grande fardo da pobreza e o risco de transmissão que acompanha a manutenção de uma economia em funcionamento; tudo isto sem apoios à vista.

“Os mais jovens ocupam as posições mais precárias”, diz Gray Kimbrough. “Quando perdem o emprego, perdem o seguro saúde, e podem ter problemas em obter os apoios que teoricamente são projetados para os proteger em situações como esta. Quando isso lhes falha, ficam por conta própria.”


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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