O que Acontece se Tivermos Gripe e COVID-19 ao Mesmo Tempo?

Dois especialistas em doenças infecciosas explicam por que razão não devemos ignorar a vacina contra a gripe este ano.

Thursday, September 17, 2020,
Por Sarah Elizabeth Richards
No dia 3 de setembro de 2020, a enfermeira Enbal Sabag usava equipamento de proteção individual ...

No dia 3 de setembro de 2020, a enfermeira Enbal Sabag usava equipamento de proteção individual enquanto administrava uma vacina contra a gripe a Noel Janzen, na farmácia CVS e MinuteClinic de Key Biscayne, na Flórida. Os especialistas em saúde pública dizem que, este ano, levar a vacina contra a gripe é importante porque os perigos de se ter COVID-19 e gripe em simultâneo ainda são desconhecidos.

Fotografia de Joe Raedle, Getty Images

É um ritual familiar de outono: as farmácias colocam informações a dizer “vacina contra a gripe disponível aqui”. Os fornecedores de cuidados de saúde enchem o nosso email com lembretes para recebermos a vacinação anual.

Este ano é diferente. Estamos a enfrentar uma “pandemia dupla” – gripe sazonal e COVID-19 – e as investigações mostram que é possível sofrer das duas doenças respiratórias ao mesmo tempo. Infelizmente, a história demonstra que não temos levado a gripe tão a sério quanto devíamos. De acordo com os Centros de Controlo e Prevenção de Doenças, nos EUA, apenas 45% dos adultos foram vacinados contra a gripe no ano passado, apesar de a versão sazonal da doença ser letal, matando anualmente uma média de 37 mil pessoas durante a última década. Ter as duas doenças presentes em simultâneo ameaça sobrecarregar os sistemas de saúde e colocar vidas em risco de forma inédita. Isto sem esquecer que existe a possibilidade de uma estirpe da gripe aviária estar à espreita nos mercados de aves, podendo passar para os humanos e provocar uma pandemia sobreposta.

A National Geographic pediu a dois especialistas em doenças infecciosas para avaliarem o que está em jogo com a ameaça dupla que enfrentamos este ano e por que razão devemos ser todos vacinados contra a gripe o mais cedo possível. As entrevistas que se seguem foram editadas por questões de extensão e clareza.

A COVID-19 é significativamente pior do que a gripe. Assim sendo, por que razão as autoridades de saúde pública estão de repente preocupadas com as vacinas contra a gripe?
Lisa Maragakis, diretora sénior de prevenção de infeções na Faculdade de Medicina da Universidade Johns Hopkins em Baltimore, Maryland:

Os sintomas de gripe e de COVID-19 são tão semelhantes que um dos desafios que enfrentamos este ano passa por diagnosticar os pacientes de forma correta e rápida. Mesmo que alguém apresente sintomas ligeiros, não deve tentar combater um vírus por conta própria e não pode presumir que a tosse é o único sinal de COVID-19. As pessoas devem entrar em contacto com o seu médico se tiverem dores no corpo, febre, dores de garganta ou sintomas respiratórios, para poderem fazer o teste de COVID-19. A lista de sinais de alerta para o coronavírus está em constante expansão e agora inclui a perda de paladar ou olfato, náuseas, diarreia ou até mesmo inchaços avermelhados nos dedos dos pés.

É importante determinar o tipo de infeção que uma pessoa tem. Com a gripe, um médico pode prescrever um medicamento antiviral. Mas se alguém tiver COVID-19, o médico ajuda essa pessoa a decidir se precisa de ir para o hospital devido a sintomas graves, onde podem ser prescritos esteroides ou outros medicamentos experimentais. Para além disso, o paciente tem de ser colocado de quarentena para evitar a transmissão do vírus a outras pessoas.

As pessoas podem pensar que a gripe não é um grande problema se tiverem um caso ligeiro, casos onde se sentem indispostas durantes alguns dias e os sintomas acabam por desaparecer. Mas basta perguntar a alguém que recuperou de uma pneumonia viral provocada por gripe para perceber o quão mal uma pessoa pode ficar. E isto também pode acabar numa hospitalização. Acho que as pessoas não fazem ideia do quão grave isto se pode tornar.

O que podemos esperar da época gripal no hemisfério norte, tendo em conta o que aconteceu no hemisfério sul este ano?
Robert Webster, especialista em doenças infecciosas no Hospital St. Jude Children’s Research em Memphis, Tennessee:

Ninguém consegue prever a gravidade da época gripal. Mas há boas notícias vindas de países do sul, como a Austrália, Nova Zelândia e Chile, onde a época gripal está agora a terminar. As taxas de gripe foram surpreendentemente baixas. Mas isto deve-se ao facto de estes governos terem implementado estratégias eficazes para controlar o coronavírus – distanciamento social, lavagem das mãos e uso de máscara – pelo que a gripe não teve possibilidade de se estabelecer. Por exemplo, Melbourne, na Austrália, está novamente em confinamento.

As crianças são geralmente as grandes disseminadoras de gripe, isto significa que o encerramento das escolas também ajuda a interromper a transmissão. Não podemos ficar com uma falsa sensação de segurança, mesmo em situações onde somos cuidadosos e seguimos as orientações de saúde locais. Uma pessoa que seja responsável continua a precisar de ser vacinada contra a gripe, porque pode passar a doença a outra mais vulnerável e essa pessoa pode morrer.

Algumas pessoas pensam que a vacina contra a gripe não é muito eficaz e que não vale a pena ser vacinado. O que tem para dizer a essas pessoas?
Lisa Maragakis:
A vacina contra a gripe nunca é 100% eficaz e a quantidade de proteção que oferece varia de ano para ano. A vacina é feita com muitos meses de antecedência e é composta por quatro estirpes diferentes que se preveem circular durante a época gripal.

A vacina contra a gripe não é perfeita, mas é a melhor prevenção que temos e devemos tirar partido disso. Mesmo que uma pessoa fique com gripe depois de ser vacinada, é mais provável que tenha um caso ligeiro e que recupere mais depressa.

Onde é que as pessoas podem ser vacinadas em segurança contra a gripe? Para as pessoas nos grupos de risco devido à COVID-19, vale a pena correr os riscos de vacinação contra a gripe?
Lisa Maragakis:
A vacina contra a gripe está amplamente disponível em clínicas, farmácias e até supermercados, portanto, as pessoas têm várias opções para a obter. Se alguém estiver preocupado porque não quer estar exposto à COVID-19 numa fila enorme, vale a pena ligar para a farmácia local ou para um profissional de saúde para marcar uma consulta. Muitos centros de saúde têm tomado precauções para manter as pessoas em segurança – exigem o uso de máscara, distanciamento físico e desinfetam regularmente as instalações. Apesar de existir o mito de que as vacinas nos podem deixar doentes, uma vacina contra a gripe não dá gripe, mesmo que alguém esteja imunocomprometido.

“Encorajo as pessoas a serem vacinadas contra a gripe até finais de outubro.”

por LISA MARAGAKIS, FACULDADE DE MEDICINA DA UNIVERSIDADE JOHNS HOPKINS

O que acontece se alguém contrair gripe e COVID-19 ao mesmo tempo? É pior contrair uma doença antes da outra?
Lisa Maragakis:
Sabemos que se pode ter as duas doenças virais em simultâneo e que é mais difícil para o nosso sistema imunitário lidar com ambas ao mesmo tempo. Os riscos envolvem danos pulmonares severos, uma doença mais prolongada, complicações mais graves e até a morte.

Não sabemos se alguém com COVID-19 ou gripe tem mais probabilidades de contrair uma ou outra. Mas ficamos definitivamente mais vulneráveis porque as infeções virais danificam o tecido no nosso trato respiratório, perdemos defesas contra uma doença subsequente. Ter os pulmões inflamados [algo que qualquer uma das doenças pode provocar] também cria uma oportunidade para as bactérias entrarem no sistema respiratório.

Porque é que as pessoas devem ser vacinadas contra a gripe antecipadamente?
Lisa Maragakis:
Encorajo as pessoas a serem vacinadas contra a gripe até finais de outubro. A partir do momento em que somos vacinados, demoramos cerca de 10 a 14 dias a desenvolver imunidade, portanto, obter a vacina o mais cedo possível oferece mais proteção antes de a época gripal atingir o pico. Quanto mais uma pessoa esperar, mais probabilidades tem de contrair gripe.

Acha que alguma vez teremos uma vacina universal contra a gripe?
Robert Webster:
Esse é o meu sonho. A vantagem de uma vacina universal é a de funcionar contra várias estirpes de gripe, pelo que os pacientes não precisariam de uma nova vacina anualmente. E isso também eliminaria a necessidade de os investigadores tentarem adivinhar qual é a estirpe que vai circular em cada ano, e ofereceria uma proteção mais completa, sobretudo contra ameaças emergentes.

A ciência é promissora e acredito que estamos a apenas cinco anos de se tornar uma realidade. Na verdade, neste momento existem várias candidatas a vacinas universais na fase três de ensaios. As vacinas estão a produzir anticorpos eficazes que têm como alvo o caule do vírus da gripe, que é o mesmo para os 18 subtipos de gripe.

Factos sobre o Vírus da Gripe
O vírus da influenza é um pesadelo recorrente, que mata milhares de pessoas todos os anos. Aprenda como o vírus ataca os seus recetores, porque é quase impossível de erradicar e o que os cientistas estão a fazer para combatê-lo.

Estamos melhor preparados este ano para uma nova estirpe pandémica de gripe?
Robert Webster:
É impossível prever uma pandemia e não temos forma de saber como é que uma gripe suína ou aviária podem desenvolver a capacidade de passar para os humanos. É uma combinação entre mutações genéticas aleatórias e a forma como o vírus interage com o sistema imunitário humano. Existem dois tipos de vírus nos mercados de aves da Ásia que me preocupam pelo potencial que têm de passar para humanos.

Mas a COVID-19 obrigou-nos a aumentar a capacidade de produção de vacinas e a explorar novas formas de fazer vacinas. Existem mais de 150 empresas a trabalhar numa vacina contra a COVID-19. Ter esta infraestrutura e uma cultura de pensamento criativo em ação vai ser muito benéfico, porque podemos aplicar as lições que aprendemos com esta pandemia.

É inevitável que exista outro surto no futuro. Mas vamos estar melhor preparados. Este facto dá-me esperança.


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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