Pegadas Antigas na Arábia Saudita Revelam Passo Intrigante nas Primeiras Migrações Humanas

As pegadas de animais e humanos mostram a paisagem exuberante que pode ter saudado o Homo sapiens enquanto este se aventurava por novas terras há mais de 100 mil anos.

Publicado 22/09/2020, 15:29
Das centenas de pegadas fósseis encontradas no antigo depósito do lago Alathar, na Arábia Saudita, os ...

Das centenas de pegadas fósseis encontradas no antigo depósito do lago Alathar, na Arábia Saudita, os cientistas identificaram sete que provavelmente foram feitas por membros da nossa própria espécie, o Homo sapiens.

Fotografia de Klint Janulis

Pequenas depressões ovais – 376 no total – estão espalhadas por um pedaço de solo seco que fica aninhado entre as dunas do norte da Arábia Saudita. À primeira vista, estas marcas não parecem particularmente impressionantes, tanto que uma equipa de cientistas que investigava a região quase que não se apercebeu delas em 2017. Mas, depois de um exame mais aprofundado, a equipa percebeu que as depressões tinham sido feitas por vários animais antigos, e entre elas havia vestígios da nossa própria espécie, o Homo sapiens.

A descoberta de pegadas humanas, caso seja confirmada, pode marcar o vestígio mais antigo da nossa espécie alguma vez encontrado na Península Arábica, que era a porta de entrada para os primeiros humanos a espalharem-se pelo mundo. De acordo com um novo estudo publicado na Science Advances, as pegadas preservam um impressionante retrato temporal de há cerca de 115 mil anos, quando animais e humanos se reuniram perto de um lago de pouca profundidade, talvez com o objetivo comum de matar a sede e saciar a fome.

As pegadas fósseis foram encontradas no antigo depósito do lago Alathar, na Arábia Saudita.

Fotografia de Palaeodeserts Project

Embora as pegadas não sejam fáceis de ver, a maior de todas chamou a atenção de um membro da equipa. A pegada, feita num lago antigo, parecia ser de um elefante maior do que qualquer outro da atualidade.

“Assim que vimos uma, conseguimos ver todas”, diz Mathew Stewart, zoo-arqueólogo do Instituto Max Planck de Ecologia Química e primeiro autor do estudo.

Um olhar mais apurado revelou cascos alongados de camelos, e talvez até traços ténues de búfalos gigantes e parentes de cavalos antigos. Quando os investigadores se estavam a preparar para terminar os trabalhos do dia, avistaram o que acabou por se transformar na descoberta mais emocionante: sete pegadas que provavelmente foram deixadas por membros da nossa própria espécie.

Embora estas pegadas não sejam a evidência mais antiga de humanos fora de África, as impressões inscritas na lama oferecem uma visão da paisagem exuberante e das criaturas que podem ter saudado os humanos durante as suas primeiras incursões.

“É como um momento no tempo, por assim dizer”, diz Michael Petraglia, investigador de evolução humana do Instituto Max Planck que liderou a equipa. “A imaginação não tem limites: Como eram estas pessoas? O que estavam a fazer?... Quando os lagos secaram todos, o que lhes aconteceu? Isto desperta realmente a nossa curiosidade.”

Ponto continental crucial
Esta investigação na Arábia Saudita faz parte de um esforço de mais de uma década, liderado por Michael Petraglia, para desenterrar a história dos hominídeos na Península Arábica e compreender melhor os primeiros passos da nossa espécie fora de África.

A maioria dos não africanos da atualidade consegue traçar as suas raízes genéticas até uma vaga de Homo sapiens que saiu do continente africano há cerca de 60.000 anos. Mas não foram os primeiros a sair. Os primeiros Homo sapiens provavelmente saíram de África dezenas de milhares de anos antes. Um maxilar superior encontrado em Israel sugere que os humanos chegaram à região há 180.000 anos. E outra descoberta impressionante, mas controversa, de um crânio humano na Grécia, data de há cerca de 210.000 anos, indícios de vagas migratórias mais anteriores.

As teorias sustentam que estes antigos exploradores provavelmente cruzaram o nordeste de África na atual Península do Sinai, espalhando-se pelo Levante – a região que fica a norte da Arábia e que inclui Israel, Síria, Líbano, Jordânia e os territórios palestinos – antes de migrarem para a Europa e Ásia. Mas alguns investigadores sugerem que, em vez disso, os primeiros humanos atravessaram perto do Chifre de África em direção ao sul da Península Arábica, espalhando-se pela orla do Oceano Índico.

Pegadas de elefantes (esquerda) e camelos (direita) estavam entre as pegadas fósseis encontradas em torno do antigo lago.

Fotografia de STEWART ET AL., 2020

Nesta junção continental crucial fica a Arábia – uma vasta extensão de terra que durante muito tempo não foi estudada. Michael diz que, se quisermos saber como saímos de África, precisamos de saber mais sobre a Arábia.

Michael Petraglia e a sua equipa começaram a preencher esta lacuna, desenterrando indícios de uma época em que esta península, agora árida, era muito diferente. Prados exuberantes cobriam uma paisagem atravessada por rios e pontilhada por cerca de 10.000 lagos, tornando-a num lugar atraente para os exploradores hominídeos. Foram encontradas ferramentas de pedra espalhadas por muitas das margens dos antigos lagos, mas os seus fabricantes permanecem desconhecidos.

“Isso manteve-nos a investigar durante anos”, diz Michael.

Fascínio de uma paisagem exuberante
As pegadas foram identificadas durante uma investigação feita no antigo lago Alathar, e os cientistas analisaram o sistema com uma bateria de testes. O estudo de algas antigas sugere que o lago esteve cheio de água doce – um recurso vital para os humanos e animais. No entanto, as águas provavelmente estavam em processo de seca, sugerindo que quem deixou as pegadas visitou a região durante uma estação quente, talvez perseguindo os recursos cada vez mais escassos da região.

Quatro das sete pegadas de hominídeos aglomeram-se numa rota em direção a sul, perto da margem do lago, provavelmente deixadas por dois ou três indivíduos. Tanto animais como humanos pareciam mover-se sem uma direção predefinida, congregando-se nas margens do lago, diz Michael. Com base nos testes modernos, as pegadas foram provavelmente criadas em poucas horas ou dias.

As pegadas fósseis oferecem uma janela para o passado de uma forma que outros vestígios antigos não conseguem. “Para um geólogo ou paleoantropólogo, as pegadas são traços de um comportamento passado”, diz Cynthia Liutkus-Pierce, geóloga da Universidade Estadual Appalachian, que liderou recentemente um trabalho sobre uma série de pegadas na Tanzânia enquanto bolseira da National Geographic. “E isso é algo que geralmente não conseguimos obter com ossos e pedras.”

A comparação entre a forma e o tamanho das pegadas dos hominídeos com vestígios antigos e pegadas modernas ajudou a desvendar as identidades destes exploradores. Mathew Stewart, que conduziu a análise das pegadas, também usou as medições para estimar a altura e compleição dos responsáveis. No geral, parece que as pegadas foram deixadas por hominídeos altos e esguios, como o Homo sapiens, e não por neandertais mais baixos e atarracados. Mathew diz que o estado de preservação das pegadas não permite uma confirmação exata.

Ainda assim, atribuir a identificação das pegadas ao Homo sapiens encaixa-se na imagem que temos de onde é que os diferentes tipos de humanos viviam há cerca de 115.000 anos, quando neandertais, Denisova e talvez Homo Erectus habitavam vários cantos do mundo. Nesta faixa do Médio Oriente só foram encontrados restos de Homo sapiens que datam dessa época. As pegadas estão perto de outro lago onde a equipa descobriu recentemente um osso de dedo com cerca de 90.000 anos, que também pode pertencer ao Homo sapiens.

Factos sobre Fósseis
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Apesar da atribuição das pegadas ao Homo sapiens ser uma conclusão razoável, o registo fóssil está repleto de lacunas, e novas evidências ainda podem inverter o legado deixado pelos antigos hominídeos nesta região, diz Craig Feibel, especialista em reconstruções ambientais antigas na Universidade Rutgers. “Este tipo de coisas pode aparecer de repente e mudar o nosso pensamento”, diz Craig, que não integrou a equipa do estudo.

Se a identificação de Homo sapiens estiver correta, as pegadas e o dedo fóssil apontam para grupos de humanos primitivos que não só fugiram pelo Levante, mas também se aventuraram no interior da Arábia. “Provavelmente eram muito dependentes do habitat”, diz Craig. Em vez de “fazerem as malas” e caminharem para norte, estes primeiros humanos provavelmente procuravam ecossistemas que conseguissem suportar a expansão das suas populações.

A história das arábias permanece incompleta, mas esta última descoberta é uma pista empolgante para o que pode estar escondido à vista de todos, diz Kevin Hatala, biólogo evolucionário da Universidade de Chatham, que se especializou em pegadas antigas de hominídeos.

“Penso que isto abre os olhos de todos para a presença de uma nova forma de dados”, diz Kevin. “Estes vestígios antigos, se não os procurarmos, podem perder-se facilmente. Não ficaria surpreendido... se eles encontrassem mais.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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