Poderão os Bebés Nascidos Durante a Pandemia Ter Traumas a Longo Prazo?

Alguns investigadores afirmam que o stress extremo enfrentado pelas mulheres grávidas pode passar para o feto. Mas nem todos os especialistas acreditam que os recém-nascidos da atualidade estão destinados a um futuro com dificuldades.

Thursday, September 10, 2020,
Por Stav Dimitropoulos
A pandemia lançou novos estudos a longo prazo – e um debate – sobre o desenvolvimento ...

A pandemia lançou novos estudos a longo prazo – e um debate – sobre o desenvolvimento de traumas residuais na “Geração Coronavírus”.

Fotografia de Callaghan O'Hare, Reuters

O stress coletivo provocado pela atual pandemia tornou-se tão abrangente que gerou um debate científico sobre se os bebés nascidos durante o confinamento podem vir a ter problemas de saúde para o resto das suas vidas. Se alguém se estiver a interrogar sobre quais são as razões para que isto possa acontecer, os cientistas dizem que basta olhar para a Tempestade de Gelo da América do Norte de 1998.

Durante seis semanas, quando a tempestade cortou a energia no leste de Ontário e no sul do Québec, as mulheres grávidas tiveram de enfrentar temperaturas negativas em casa – e isso deixou uma marca biológica nos seus bebés, diz a radiologista Catherine Lebel, da Universidade de Calgary. O estudo do Projeto Ice Storm examinou o cérebro de 35 rapazes e 33 raparigas cujas mães estavam grávidas durante o evento, para perceber se a tempestade teve alguma influência sobre a amígdala, uma parte do cérebro envolvida na gestão de emoções.


A investigação descobriu que estes bebés tinham amígdalas maiores uma década mais tarde. Este aumento corresponde a uma maior frequência de comportamentos agressivos, sobretudo nas raparigas. Acredita-se que o stress pré-natal influencia o crescimento inicial da amígdala, tanto nos humanos como em roedores, e o seu tamanho pode influenciar o desenvolvimento de depressão, ansiedade ou agressividade.

Catherine Lebel está agora a realizar um estudo a longo prazo que vai monitorizar mensalmente mulheres grávidas por todo o Canadá, e acompanhar os resultados dos seus bebés após o nascimento, para verificar se o confinamento devido ao coronavírus pode ter um impacto semelhante nos bebés nascidos durante a pandemia. “Não é sensato descartar o período pré-natal”, diz Catherine.

Catherine e outros investigadores dizem que a tensão e o isolamento excessivo que estas mulheres estão a sentir podem estar a afetar os seus fetos, algo que, segundo os investigadores, pode lançar as bases para que a “Geração C” apresente uma série de condições cognitivas, mentais, físicas e emocionais.

Em maio, Sam Schoenmakers, do Centro Médico da Universidade Erasmus de Roterdão, nos Países Baixos, e quatro outros obstetras e especialistas em neonatologia e ética médica publicaram um artigo de opinião no British Medical Journal. O artigo descrevia os “danos colaterais” que os bebés nascidos durante a pandemia poderiam enfrentar. Os especialistas referem que alguns relatórios citam taxas mais elevadas de transtorno de personalidade antissocial e uma esperança média de vida mais curta nas crianças nascidas durante o período de fome provocado pela ocupação nazi, na década de 1940, na região ocidental da Holanda. Da mesma forma, os estudos sobre as consequências da tempestade Sandy de 2012 descrevem alterações no temperamento das crianças cujas mães estavam grávidas durante o evento; estas crianças são mais receosas e estão geralmente mais tristes, e não procuram tanto o colo dos pais ou diversão.

O projeto COVID-19 de Catherine Lebel já produziu alguns resultados preocupantes. Em abril, a equipa recrutou cerca de duas mil mulheres grávidas para responderem a um questionário. Entre as entrevistadas, 37% relataram sintomas clinicamente relevantes de depressão e 57% expressaram sinais de ansiedade. Com base nas evidências do passado, esta tensão em mulheres grávidas pode estar a provocar alterações fisiológicas nos seus bebés em desenvolvimento.

Mas nem todas as pessoas acham que os “coronabebés” estão necessariamente destinados a um futuro com dificuldades. Noel Hunter, psicóloga clínica e autora de Trauma and Madness in Mental Health Services, diz que o conceito de danos colaterais é generalizado e que se baseia em estatísticas insuficientes.

“As investigações anteriores mostraram apenas uma correlação entre problemas posteriores na saúde física e mental dos bebés, e não na causalidade”, diz Noel. Para esta psicóloga, estas correlações negligenciam a forma como as situações stressantes (como uma pandemia) podem influenciar o comportamento dos adultos em relação às crianças. Em vez de culparmos o corpo das mães e o período pré-natal, diz Noel, o foco deve expandir-se para estudar traumas persistentes que podem influenciar as crianças muito depois do nascimento, como uma paternidade abusiva e stress infantil, que também têm sido associados a consequências para a saúde a longo prazo.

Outros especialistas argumentam que todas as investigações devem levar em consideração a forma como a COVID-19 se cruza com outras vulnerabilidades já existentes, como o racismo sistémico ou a desigualdade salarial. Alisha Ali, especialista em psicologia aplicada na Universidade de Nova Iorque, refere os grandes problemas institucionais que agora foram colocados em destaque nos EUA –  desde a assistência médica precária que é dada às pessoas de cor aos problemas alimentares criados em grande parte por políticas racistas.

“As pessoas que já tinham mais propensão para ter bebés que corriam o risco de não desfrutar dos benefícios de uma nutrição adequada, cuidados médicos e recursos relacionados, correm agora ainda mais riscos”, diz Alisha.

Catherine Lebel adota ela própria uma postura moderada quando se trata de usar termos exagerados como “danos colaterais”, embora acredite que existam algumas consequências para os bebés nascidos durante a pandemia.

“Eu não chegaria ao ponto de falar sobre uma geração danificada”, diz Catherine. “Mas, daqui a 20 anos, vamos assistir a taxas mais elevadas de depressão e ansiedade do que aconteceu com as gerações anteriores.”

Apoios nos cuidados de saúde
Vai demorar algum tempo até que se perceba de que forma a pandemia influenciou os bebés, mas, para já, os pais podem fazer algumas coisas para minimizar os efeitos. Por exemplo, os primeiros resultados do estudo de Catherine sobre a COVID-19 mostraram que os apoios sociais e o aumento da atividade física estavam associados à diminuição de sintomas de ansiedade e depressão entre as mulheres grávidas presentes no estudo.

Promover relações – mesmo que virtuais ou socialmente distantes – pode ajudar com as experiências de isolamento em casa e com as tensões das novas responsabilidades que surgem com a paternidade. Para os pais de todas as origens, nunca é demais salientar a importância de um sistema de apoio social robusto, diz Alisha.

“Isto deve fazer parte dos planos dos pais que esperam um bebé desde o início. Ter uma pessoa em quem confiamos – seja um cônjuge, um pai ou mãe, ou um amigo próximo – pode servir como um papel preventivo quando se trata de problemas de saúde física e mental, e este suporte também pode ser feito virtualmente.”

Dito isso, os pais que enfrentam vulnerabilidades sociais podem necessitar de assistência extra. Para além de garantir que os pais têm uma boa nutrição para si e para os seus recém-nascidos, os profissionais de saúde também devem garantir que os pais têm apoio social contínuo, diz Alisha. Ter uma enfermeira ou assistente social a telefonar regularmente para verificar se está tudo bem após o nascimento do bebé, e não apenas nos primeiros dias pós-parto, pode evitar problemas de saúde física e mental.

Noel Hunter recomenda que se descubram atividades divertidas, como jogar um jogo de tabuleiro, karaoke ou fazer um vídeo para o TikTok. Da mesma forma, os pais também podem beneficiar se adquirirem novas aptidões e se tiverem tempo para rir, ou para fazer o luto, caso tenham perdido um ente querido. O sono e a nutrição também continuam tão importantes como sempre para uma gravidez e um período pós-parto saudáveis.

“Normalmente, as crianças ficam bem se os pais cuidarem de si próprios e se concentrarem no que é mais importante na vida”, diz Noel. “Quando trabalhamos juntos e nos apoiamos uns aos outros, conseguimos superar praticamente tudo.”


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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