Todos os Anos – Sobretudo 2020 – Parecem os Piores de Sempre. Porquê?

O consumo desenfreado de informações distorce a nossa perceção do presente. Descubra como pode quebrar este ciclo.

Friday, September 11, 2020,
Por Rebecca Renner
Marietta Diaz, de 30 anos, que trabalha na venda dispositivos médicos, estava sentada na sua sala ...

Marietta Diaz, de 30 anos, que trabalha na venda dispositivos médicos, estava sentada na sua sala de estar em Wellington, na Flórida, no dia 23 de março de 2020 – estava de quarentena depois de testar positivo para o novo coronavírus (COVID-19). Marietta tem uma filha de 8 anos que começava a estudar em casa na semana seguinte, e estava nervosa porque não sabia o que ia acontecer. “Decidi ir para as urgências porque não conseguia recuperar o fôlego. Quando estava a ver as notícias, sendo uma pessoa com ansiedade, o nosso corpo pode criar sintomas. Foi uma batalha na minha cabeça porque não sabia se eram sintomas mentais ou virais”, diz Marietta, que recebeu algumas reações de pessoas com quem teve contacto. “A reação que recebi das pessoas foi um ponto de rutura para mim. As pessoas sabem que isto está por todo o lado, mas não perdem tempo a apontar o dedo aos que tiveram um teste positivo. As pessoas passeiam de barco, encontram-se com os amigos e podem ser portadores assintomáticos.” Marietta ainda tem mais 12 dias de quarentena obrigatória pela frente e diz que é difícil passar o tempo. “É difícil estar sozinha em casa e não poder fazer exercício ou ler um livro porque me dói a cabeça.”

Fotografia de Zak Bennett, AFP via Getty Images

Em 2020, Jenny Eastwood tornou-se viciada em más notícias. Esta jovem de 26 anos, de Auckland, na Nova Zelândia, não conseguia parar de verificar as informações sobre a pandemia, brutalidade policial, protestos, política e teorias da conspiração à medida que cada crise se desenrolava, sobretudo a meio mundo de distância, nos Estados Unidos. A cada 10 minutos surgia outra publicação terrível no Reddit ou no Instagram.

“A meio da pandemia, sentia-me realmente vazia”, diz Jenny, que trabalha em marketing. “Senti que a humanidade não prestava em geral, mas não me conseguia concentrar em nada, porque estava constantemente a pensar em verificar as atualizações mais recentes.”


Como acontece com muitas pessoas, Jenny Eastwood estava obcecada com o perigo aparentemente crescente no nosso mundo – uma resposta que tem raízes no nosso desenvolvimento evolutivo. As histórias de medo e perigo aumentam a nossa ansiedade. São coisas que colocam os nossos cérebros em alerta máximo, uma vantagem que antigamente protegia os nossos antepassados hominídeos de predadores e desastres naturais, mas que agora nos deixam “colados aos ecrãs”, atualizando incessantemente as redes sociais e as notícias online para ficarmos a par das ameaças mais recentes. Os nossos corações disparam e as nossas mentes mantêm-se constantemente vigilantes à procura da próxima catástrofe. Desejamos estar preparados, pelo que acabamos viciados nas atualizações, procurando sempre mais até que o mundo parece muito pior do que nunca.

Há muitas tragédias a acontecer para nos mantermos colados aos ecrãs. No início de setembro, a pandemia já tinha ceifado as vidas de mais de 860 mil pessoas no mundo inteiro – este número continua a crescer enquanto a crise chama a nossa atenção para o aumento das desigualdades económicas e sociais. Fomos atingidos por incêndios florestais que bateram recordes na Califórnia e na Austrália, por uma temporada intensa de furacões no Atlântico, por pragas de gafanhotos que destruíram plantações na África Oriental, e por uma enorme explosão de químicos que destruiu o porto de Beirute e matou pelo menos 190 pessoas e provocou danos no valor de 15 mil milhões de dólares. Os protestos contra a brutalidade policial e os símbolos da opressão da era colonial levaram milhões de pessoas às ruas em todo o mundo. Como se tudo isto não bastasse, este também é um ano eleitoral muito fraturante nos Estados Unidos.

No entanto, 2020 não tem sido assim tão mau. A telemedicina está a tornar a saúde mais acessível do que nunca. Os livros que se focam no antirracismo estão no topo das listas de vendas. Há muito mais pessoas a lavar as mãos. Os americanos adotaram centenas de milhares de animais de estimação e parece que agora todas as pessoas têm um cão.

Se há anos que parecem piores do que outros, isso acontece principalmente porque os nossos cérebros têm tendência para julgar o presente de forma mais implacável. O consumo desenfreado de informações distorce a nossa perceção e faz com que seja mais fácil cair em padrões nocivos de comportamento.

Não é necessário desligarmos o interruptor de toda a nossa vida digital para termos uma visão melhor do ano. De acordo com os especialistas, aprender a domar as noções negativas mais persistentes, ou a nossa propensão de olhar para o passado como se as coisas fossem melhores antigamente, pode funcionar como um alívio muito bem-vindo para o stress sentido este ano.

Foi o melhor de sempre, foi o pior de sempre
Os nossos antepassados podem não concordar que 2020 é o pior ano de que há registo. É verdade que há coisas assustadoras a acontecer, mas muitas destas coisas também aconteceram no passado, incluindo a pandemia de gripe de 1918, durante a qual morreram 50 milhões de pessoas. Para além disso, a crença de que a civilização está em declínio é uma tradição tão antiga quanto a própria civilização. Até os antigos atenienses alegavam no século V a.C. que a sua democracia não era o que costumava ser. Atualmente, chamamos a esta crença “declinismo” ou “parcial ao declínio”.

Antes da pandemia, a maioria dos americanos já acreditava que os EUA estavam em declínio. De acordo com uma sondagem de 2019 do Pew Research Center, cerca de 60% dos americanos achavam que a influência do país no mundo estava a diminuir. Apenas 12% dos participantes estavam “muito otimistas” em relação ao futuro do país, enquanto que 31% eram “um tanto ou quanto pessimistas” e 13% eram “muito pessimistas” sobre o futuro da América.

Agora, os americanos podem estar a sentir-se pior sobre o futuro do que antes, sobretudo porque as ordens de confinamento e o isolamento têm afetado a sua saúde mental, algo que, por sua vez, aumenta as probabilidades de encararem o mundo com mais negatividade.

Na cultura ocidental, as pessoas já têm tendência para interpretar os eventos do presente de forma negativa, e tendem a preferir o passado, de acordo com a investigação de Carey Morewedge, professor de marketing na Universidade de Boston. Isto acontece porque as nossas memórias autobiográficas são parciais em relação à positividade. Quando pensamos no passado, costumamos recordar experiências positivas. Por vezes, isto chama-se “retrospeção idílica” ou “parcialidade nostálgica”.

“Se, por exemplo, eu estiver a pensar sobre o quanto gosto de ir a jogos de beisebol, não me vou lembrar dos momentos em que a minha equipa perdeu”, diz Carey. “Julgamos o passado pelas grandes conquistas, mas julgamos o presente pelo que temos disponível.”

“Julgamos o passado pelas grandes conquistas, mas julgamos o presente pelo que temos disponível.”

por CAREY MOREWEDGE, UNIVERSIDADE DE BOSTON

Os próprios historiadores caem muitas vezes na armadilha de venerar versões irrealisticamente positivas do passado. Esta veneração surge geralmente em tempos favoráveis como a “Era Dourada”, diz Erika Harlitz-Kern, historiadora da Universidade Internacional da Flórida, em Miami. Na história americana, a Era Dourada refere-se ao período entre 1870 e 1900, quando a Revolução Industrial deu origem a grandes saltos na tecnologia, cultura e artes.

“Mas este também foi um período de desigualdade social, muita pobreza e de um genocídio continuado e deslocamento de nativos americanos”, explica Erika. No entanto, o termo Era Dourada pinta este período sob uma luz indubitavelmente positiva.

E depois temos a era das redes sociais, que nos dá doses intermináveis de um presente confuso, repleto de nuances e aparentemente terrível. Não é de admirar que o passado pareça idílico quando temos tantos dados sobre as atuais tribulações do mundo ao nosso alcance.

Estar colado ao ecrã e redes sociais
Não é surpreendente para ninguém que o consumo excessivo de notícias provoca stress. De acordo com uma sondagem de 2017 da Associação Americana de Psicologia, os entrevistados que acompanharam o ciclo de notícias relataram perda de sono, stress, ansiedade, fadiga e outros sintomas negativos de saúde mental. A mesma sondagem constatou que até 20% dos americanos monitorizam constantemente as suas redes sociais à procura atualizações, e um em cada dez verifica as notícias de hora a hora.

Embora as notícias da atualidade possam parecer mais chocantes do que nunca, a ideia de que o consumo de informações afeta negativamente a nossa perceção do mundo não é nova. Em 1968 foi iniciada uma investigação ambiciosa na Escola de Comunicação Annenberg da Universidade da Pensilvânia. Com o nome Projeto de Indicadores Culturais, a investigação tornou-se num dos primeiros estudos abrangentes sobre a influência da televisão nas atitudes e perceções dos telespetadores americanos. O estudo, liderado pelo reitor da escola, George Gerbner, encontrou uma correlação direta entre o tempo perdido em frente à televisão e as probabilidades de o observador ter uma perceção mais assustadora e perigosa do mundo, um fenómeno que George chamou “síndrome do mundo mau”.

George Gerber descobriu que os espetadores que viam programas de televisão violentos acreditavam geralmente que a violência era comum na realidade. Isto estava de acordo com a sua “teoria de cultivo”, que especulava que, quanto mais as pessoas viam televisão, mais começavam a acreditar que a televisão refletia a realidade, em vez de ser estilizada para efeitos dramáticos.

As investigações atuais continuam a reforçar estas ideias, mas os efeitos nem sempre são negativos. Tudo depende do meio de consumo e da forma como o usamos, de acordo com Mesfin Awoke Bekalu, cientista de investigação que estuda a relação entre redes sociais e saúde pública na Escola de Saúde Pública Harvard T.H. Chan.

Mesfin Bekalu salienta que não devemos confundir os efeitos das redes sociais com as investigações anteriores sobre o consumo de televisão. Ao contrário de ver televisão, que é uma atividade passiva, o envolvimento nas redes sociais requer uma participação ativa, o que significa que o estudo dos seus efeitos é muito mais complicado. Pelo lado positivo, as redes sociais podem oferecer aos seus utilizadores um suporte emocional e social, e algumas pessoas acharam este suporte indispensável durante a pandemia. No entanto, as redes sociais também podem fazer com que sintamos um “efeito de deslocamento”, um fenómeno onde a atividade mental substitui uma necessidade física humana.

“'Espreitar' ou percorrer as atualizações publicadas por amigos ou estranhos sem um envolvimento direto tende a ter efeitos psicológicos negativos.”

“As redes sociais alteram as nossas interações na vida real, como as interações sociais presenciais ou a comunicação familiar”, diz Mesfin. “E chegam até a alterar atividades que promovem a saúde, como o exercício físico e o sono.”

Como a jovem neozelandesa Jenny Eastwood descobriu, o consumo de redes sociais pode tornar-se num ciclo viciante. Cada vez que regressamos às redes sociais, temos mais uma série de oportunidades para cair em armadilhas psicológicas. As pessoas que receiam perder alguma informação passam muitas vezes mais tempo nas redes sociais do que as outras, podendo levar ao cansaço e, por fim, a uma exaustão digital. “Para os jovens, as comparações sociais podem tornar-se num problema”, diz Mesfin. “Os jovens envolvem-se muitas vezes em comparações com outros, o que muitas vezes leva a sentimentos de inadequação e baixa autoestima.”

Mas o tempo perdido nas redes sociais não é equivalente à forma como os utilizadores usam esse tempo. O envolvimento ativo em conversas positivas com amigos e familiares pode melhorar o estado psicológico de uma pessoa. Por outro lado, “espreitar” ou percorrer as atualizações publicadas por amigos ou estranhos sem um envolvimento direto, tende a ter efeitos psicológicos negativos.

Introspeção idílica, ou interações menos antissociais
Os psicólogos dizem que talvez nunca iremos encarar o presente como perfeito, mas podemos aprender a controlar os nossos preconceitos. O primeiro passo é reconhecer a forma como as coisas que consumimos alteram as nossas perceções. Isto dá aos nossos cérebros de primatas propensos ao pânico mais razões para se sentirem tensos, e mais exemplos do presente para compararmos com a nossa versão altamente modificada do passado. Quando estamos atentos aos nossos padrões de pensamento, podemos assumir o controlo e ter noção da realidade, diz Carey Morewedge.

“Precisamos de estar atentos ao tipo de rede social em que participamos, com quem nos relacionamos, e que tipo de conteúdo consumimos”, adverte Mesfin Bekalu. “As redes sociais podem dar-nos a ilusão de que o presente é pior do que o passado, mas isso não é verdade para todos.”

Para controlarmos a nossa parcialidade em relação à nostalgia, devemos ter uma visão mais realista da história e compará-la efetivamente com o presente. A pandemia é assustadora, mas pelo menos não somos camponeses medievais com a peste negra a cada esquina e sem uma compreensão de como os germes funcionam.

Podemos colocar o presente em perspetiva, mas também devemos fazer um balanço sobre o que temos. Estamos a progredir social e cientificamente, e equipas de investigação do mundo inteiro estão a trabalhar em vacinas para o coronavírus, um feito que não teria sido sequer possível há cem anos atrás.

Em relação a Jenny Eastwood, ela só percebeu o impacto que a sua obsessão pelas más notícias tinha na sua saúde mental quando o seu companheiro lhe sugeriu que se afastasse durante uns tempos das redes sociais. “Decidi naquele momento que me ia afastar por completo”, diz Jenny, e desde então nunca mais se arrependeu da sua decisão.


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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