‘Tudo Mudou’: Como os Preparativos Para os Furacões se Estão a Adaptar a Uma Pandemia Mortal

Milhares de quartos de hotel, um milhão de máscaras – escapar em segurança desta época de furacões está a forçar cidades e estados a enfrentar um desafio sem precedentes.

Publicado 1/09/2020, 16:20 WEST, Atualizado 26/11/2020, 11:39 WET
No domingo, dia 23 de agosto, trabalhadores selavam as janelas das casas e lojas no Quarteirão ...

No domingo, dia 23 de agosto, trabalhadores selavam as janelas das casas e lojas no Quarteirão Francês de Nova Orleães, antecipando os furacões Marco e Laura. O furacão Marco já se tinha dissipado, mas esperava-se que o Laura atingisse a costa no dia seguinte, perto da fronteira do Texas com o Louisiana.

Fotografia de Sean Gardner, Getty Images

COVINGTON, LOUISIANA – As pessoas que vivem ao longo das regiões costeiras do Louisiana conseguem ser surpreendentemente otimistas em relação ao que a temporada de furacões pode trazer consigo. Há tempestades mais pequenas, com nomes como Danny ou Gustav, que varrem a costa e são rapidamente esquecidas. Mas os residentes de Nova Orleães comemoraram agora o 15º aniversário do Katrina – o inesquecível e massivo furacão cuja tempestade alimentou o colapso de diques, mas que mesmo assim não conseguiu varrer do mapa a sua famosa cidade que fica abaixo do nível do mar.

Contudo, não existe um manual de instruções para se lidar com furacões poderosos durante uma pandemia – muito menos um furacão que atinge uma zona onde as taxas de infeção são das mais altas registadas este verão nos EUA. As autoridades que se guiam pelos conhecimentos de mais de um século de preparação para furacões foram forçadas a reescrever os procedimentos para se protegerem contra a propagação de COVID-19 ao longo das rotas de evacuação ou nos abrigos sobrelotados.


Apesar de o furacão Hanna ter atingido a costa sul do Texas como uma tempestade de categoria 1 no passado mês de julho, o Louisiana foi confrontado em finais de agosto com duas grandes tempestades ao mesmo tempo no Golfo do México. Foi um evento inédito, com potencial para arrasar duplamente o sudoeste do Louisiana.

A tempestade tropical Laura, a maior das duas ameaças, estava prevista transformar-se em furacão de categoria 3 quando cruzasse as águas quentes do Golfo, e atingir o sudoeste do Louisiana na noite de quarta-feira. A tempestade tropical Marco, que tinha dois dias de avanço da tempestade Laura, transformou-se em chuva antes de se começar a dissipar na segunda-feira – um golpe de sorte para as equipas de emergência, embora o governador John Bel Edwards também tenha atribuído créditos às orações.

Como plano de apoio, o governador também tinha 2 mil guardas nacionais de prevenção, e posicionou 94 veículos à prova de água e 55 barcos por toda a região, e encomendou 218 mil refeições e 372 mil garrafas de água.

Uma imagem de satélite da tempestade tropical Laura captada no dia 25 de agosto. Previa-se que a tempestade se transformasse em furacão antes de atingir a costa no dia seguinte.

Fotografia de NOAA/NESDIS/STAR GOES-EAST GEOCOLOR

Em relação ao alojamento, as pessoas que vivem no trajeto da tempestade Laura foram incentivadas a encontrar o seu próprio quarto de hotel. John Bel Edwards não tinha planos para abrir os abrigos estaduais – em parte porque a COVID-19 é altamente contagiosa. As elevadas taxas de infeção registadas no Louisiana estão a ultrapassar as da Flórida, Arizona e Nova Iorque; no dia 24 de agosto, o estado registou 622 novos casos e 18 mortes.

“Digo-vos que, com a COVID, o uso de abrigos comunitários é um último recurso – ainda estamos em 15º lugar ou mais no aumento do número de casos no país e aproximadamente com o mesmo registo em termos de positividade”, disse John Bel Edwards em conferência dada no dia 24 de agosto, referindo-se à taxa com que os testes para o vírus dão positivo. “Mas estamos a melhorar.”

Se a situação se alterasse com a tempestade Laura, os abrigos podiam abrir para as famílias que seriam alojadas em tendas dentro das instalações dos abrigos. “Mas mesmo assim”, acrescentou John Bel Edwards, “mesmo quando tomamos todas as precauções, não é uma situação segura, pelo que não gostaríamos de fazer isso a não ser que seja absolutamente necessário.”

Cientistas preveem desastre duplo
A experiência do Louisiana, depois da tempestade Laura se dissipar na costa, também pode servir de base para a zona sudeste de furacões numa temporada invulgarmente ativa. Os meteorologistas disseram que a região pode vir a testemunhar entre 13 a 19 tempestades com nomes antes de a temporada terminar – no dia 1 de novembro – e até seis grandes furacões.

Ainda antes das tempestades Marco e Laura se classificarem como perturbações tropicais no Oceano Atlântico, os cientistas já tinham alertado que as grandes tempestades podiam levar à disseminação de mais infeções por COVID-19.

Uma nova investigação feita por cientistas da Universidade de Colúmbia e da Union of Concerned Scientists descobriu que as tempestades violentas – classificadas com categoria 3 ou superior – podem resultar em milhares de novas infeções de COVID-19. Os cientistas modelaram um cenário de infeção que reconstituiu os trajetos de evacuação dos 2.3 milhões de habitantes no sudeste da Flórida durante o furacão Irma de 2017. O estudo concluiu que, atualmente, este mesmo número de pessoas em movimento poderia provocar até 61 mil novos casos de COVID-19. A investigação ainda está em processo de revisão por pares para ser publicada numa revista científica.

O número de casos aumenta quando as pessoas são evacuadas para áreas com elevadas taxas de infeção. Em cenários hipotéticos, quando as pessoas eram evacuadas para condados com baixas incidências de COVID-19, o número de novos casos previstos caía para apenas 9.100.

“Usámos a situação da Flórida como um exemplo para os resultados e para o que se pode modelar caso um furacão real esteja previsto atingir o continente”, diz Jeffrey Shaman, cientista ambiental da Universidade de Colúmbia. “Acreditamos que estas descobertas também sejam válidas em outras situações.”

estudos adicionais que alertam que furacões ou outros desastres naturais que atinjam áreas que já têm dificuldades devido à COVID-19 aumentam o perigo de contágio e dificultam a recuperação.

Karl Kim, diretor executivo do Centro Nacional de Treino de Preparação de Desastres da Universidade do Havai, diz que existem dois obstáculos principais que aumentam os riscos de pandemia durante estas ocorrências: a resistência das pessoas em relação à evacuação e a falta de recursos para fornecer condições de segurança, testes e rastreamento de contactos.

“Tudo mudou”, diz Marketa Garner Walters, que chefia o Departamento de Serviços Pediátricos e Familiares do Louisiana e que tem tentado traçar planos de contingência caso os abrigos comunitários abram. “Vai ser difícil. Estamos a ajustar-nos rapidamente a cada momento. Como é que vamos fiscalizar as pessoas e fazer com que não retirem as máscaras?… E se recusarem? O que faremos? Todas estas situações são coisas que temos de trabalhar com a equipa. Se tenho preocupações? Sim, muitas preocupações. Vamos estar à altura do desafio? Absolutamente.”

Espaço disponível para todos?
Para as grandes tempestades, a prática padrão nas zonas mais baixas do sul do Louisiana reside na evacuação dos residentes para longe do perigo, para norte, para terrenos mais elevados no Louisiana ou no Mississippi, ou para oeste, para o Texas.

Mas as paróquias de baixa altitude, como a de Nova Orleães, também se preparam para abrigar pessoas que não podem alugar um quarto de hotel, que não têm carro ou que têm deficiências que tornam a sua evacuação mais precária. Só em Nova Orleães, são 40 mil habitantes, diz Collin Arnold, diretor de segurança interna da cidade. Ainda assim, Collin diz que está preparado com máscaras N-95 suficientes e que tem um plano de distanciamento social para mover um grupo tão grande de pessoas – que representa 10% da população da cidade – através de autocarros, comboios e até de aviões. Mas isso pressupõe que Collin Arnold tem tempo suficiente para o fazer, e tempo é algo que a mãe natureza pode por vezes fazer com que escasseie.

Ao lado da paróquia de Orleães, na paróquia de Jefferson, Joseph Valiente, o diretor de segurança interna da paróquia, está a trabalhar para refazer os planos contra furacões. Joseph Valiente guardou 200 mil máscaras num armazém. Mas o distanciamento social exige abrigos adicionais; os abrigos paroquiais que costumam abrigar 230 pessoas só podem agora acolher 130 pessoas. E com isso vem o que Joseph Valiente chama de “efeito dominó”: mais abrigos significa mais trabalhadores para os operar. Em relação a evacuar as pessoas de autocarro, Joseph Valiente é menos otimista do que o seu colega Collin Arnold de Nova Orleães. Um autocarro leva apenas um determinado número de pessoas ao mesmo tempo, diz Joseph.

Na paróquia Lafourche, que se espalha pelo sul do Louisiana em ilhas e extensões de terra que se projetam pelo Golfo, Chris Boudreaux, diretor de segurança interna da paróquia, está a preparar o Raceland Recreation Center para receber pessoas isoladas. Chegaram seis pessoas e ali permaneceram durante pouco tempo, quando os ventos da tempestade Marco começaram a soprar pela costa. Para a tempestade Laura, Chris Boudreaux conta com os seus 19 anos de experiência enquanto bombeiro voluntário.

“Respondemos a quase tudo o que existe por aí, mas isto é diferente”, diz Chris. “É stressante não saber. Temos de lutar contra algo que não conseguimos ver.” Chris Boudreaux refere-se ao vírus.

Qual é a sua solução? “Tratar todas as pessoas como se estivéssemos infetados.”

No sábado, durante o aniversário do Katrina, a tempestade Laura tinha diminuído e estava a caminho do norte. Ao contrário da comemoração do 10º aniversário do Katrina, que levou os presidentes Obama, Bush e Clinton a Nova Orleães para uma semana repleta de eventos, o 15º aniversário foi mais discreto. O único evento oficial programado foi uma cerimónia de colocação de coroas de flores – mas por essa altura já Chris Boudreaux, Joseph Valiente e Collin Arnold estavam a limpar os destroços de mais uma das tempestades de verão que vêm e vão.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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