Antes de Existirem Plantas ou Animais, Esta Rocha de 250 Mil Toneladas Desabou na Lama

Gerações de cientistas têm visitado esta paisagem antiga e agora podem ter descoberto o desabamento de rocha mais antigo alguma vez encontrado em terra.

Publicado 19/10/2020, 12:20 WEST, Atualizado 5/11/2020, 05:59 WET
Esta vista aérea mostra os penhascos costeiros de Clachtoll, no noroeste da Escócia. A antiga e ...

Esta vista aérea mostra os penhascos costeiros de Clachtoll, no noroeste da Escócia. A antiga e gigantesca rocha está ao longo da costa (no lado direito da imagem), formando uma colina perto de uma pequena praia em frente ao edifício.

Fotografia de Iain Masterton, Alamy Stock Photo

Chuva e vento atingiam a costa noroeste da Escócia quando Zachary Killingback inspecionava uma rocha presa na lama. Não era uma pedra antiga qualquer: pesando quase um quarto de milhão de toneladas e medindo mais do que um avião comercial de passageiros, a rocha ficou nesta posição há cerca de 1.2 mil milhões de anos, o que significa que pode ter sido o desabamento de rocha mais antigo alguma vez encontrado em terra.

Zachary Killingback, que na altura da sua investigação era aluno de mestrado na Universidade de Durham, em Inglaterra, queria saber o que tinha acontecido nos poucos segundos catastróficos em que a enorme rocha cedeu. As rochas caem de penhascos desde que a Terra era fria o suficiente para que se formassem, mas há poucos desmoronamentos antigos encontrados no registo geológico. Este desabamento na Escócia oferece uma janela para o que estava a acontecer no planeta antes de os animais respirarem pela primeira vez, antes de as plantas estenderem as suas raízes pelo solo, e antes dos continentes da atualidade terem sequer tomado forma.

De acordo com a descrição de uma equipa de investigadores num novo estudo publicado na revista Geology, a rocha fez um mergulho de cerca de 15 metros em sedimentos aquosos, e a força do impacto rachou a rocha e injetou lama nas suas fraturas. Embora o penhasco de onde a rocha caiu tenha sido desgastado pela erosão, a queda de pedras permanece. Cada rocha tem uma história, e os cientistas têm como missão descortinar o que se sabe sobre os muitos processos físicos do nosso planeta para descobrir fragmentos do seu passado.

“Isto ilustra os inúmeros detalhes que podemos extrair de um bloco de rocha se abordarmos a questão com muito cuidado”, diz Cara Burberry, geóloga estrutural da Universidade de Nebraska-Lincoln que não participou no estudo. “A equipa documentou isto lindamente.”

Disneyland geológica
O noroeste da Escócia é maravilhoso, com águas azul-turquesa a inundarem pequenas praias aninhadas ao longo da costa. Esta paisagem ondulada regista milhares de milhões de anos de história do nosso planeta, desde a formação e fragmentação de supercontinentes até ao fluxo e refluxo de lagos e rios.

“É uma Disneyland geológica para os britânicos”, diz Alex Webb, geólogo da Universidade de Hong Kong que não participou no estudo.

Gerações de cientistas têm visitado esta paisagem antiga, que agora é um local muito popular para visitas de estudo de estudantes universitários. “Se não fosse pela COVID, eu estaria agora naqueles afloramentos rochosos”, diz Bob Holdsworth, autor do estudo e geólogo estrutural da Universidade de Durham.

Durante uma destas visitas de estudo, Bob Holdsworth e os seus colegas repararam que algo parecia errado com um bloco de rocha perto da vila de Clachtoll. A rocha faz parte do gnaisse Lewisiano, rochas com três mil milhões de anos que foram comprimidas sob uma intensa pressão durante a sua formação, fazendo com que os minerais se alinhassem em camadas sobrepostas, uma estrutura laminar conhecida por foliação. Ao longo de grande parte desta região, estas camadas têm uma orientação noroeste-sudeste. Mas as camadas desta rocha têm uma rotação de 90 graus.

A rocha, mais longa do que um avião comercial de passageiros, aparece em primeiro plano nesta imagem captada em 2010.

Fotografia de Richard Walker

Bob Holdsworth e os seus colegas suspeitavam que a rotação destas camadas e outras características curiosas nas fraturas da rocha podiam ser o resultado de uma queda abrupta, mas precisavam de mais dados para fundamentar a teoria. Assim, Zachary Killingback aceitou este desafio de investigação para a sua tese de mestrado.

Recolha de pistas no terreno
Quando Zachary era estudante universitário, esta zona de desabamento de rochas era a sua favorita para fazer visitas de estudo. As excursões com os colegas de turma costumavam ser um desafio para Zachary, que é autista. Navegar por entre dezenas de alunos, processar instruções rápidas e a miríade de estímulos sensoriais no terreno apresentavam obstáculos constantes.

Contudo, a viagem até Clachtoll foi diferente. Em vez de ser um professor a guiar os alunos pelos pontos geológicos, “deram-nos liberdade para explorar – eu gostei muito disso”, diz Zachary.

Ele regressou ao local para fazer o seu trabalho de mestrado em setembro de 2016, mapeando cuidadosamente a estrutura da rocha. O vento soprava através das colinas enquanto a chuva caía, mas Zachary executou cada tarefa da forma mais eficiente que conseguiu, antes de regressar para a segurança do seu carro, para rever as anotações e planear os passos seguintes. Mesmo dentro do veículo, o vento fazia-se notar. “Pensei que ia ser levado pelo vento todas as noites.”

No seu último dia de trabalho no terreno, o local foi invadido por dezenas de alunos numa visita de estudo. Zachary terminou o trabalho enquanto o grupo percorria as rochas, e regressou ao laboratório para reconstruir um vislumbre do passado do nosso planeta.

Queda destruidora
A história geológica que Zachary e os seus colegas desvendaram aconteceu mais ou menos da seguinte forma: há cerca de 1.2 mil milhões de anos, uma bacia estava a formar-se onde atualmente fica a costa noroeste da Escócia. Lagos encheram a região e rios fluíram, formando camadas desordenadas de rocha e sedimentos vermelhos. Um sismo violento pode ter abanado o solo, talvez a partir de terra até à bacia, fazendo com que a rocha caísse de um penhasco. A rocha sofreu uma ligeira rotação ao cair e as suas camadas internas ficaram com uma orientação angular diferente da do resto das rochas na região.

Quando a rocha caiu no solo, ficou com fendas de cima a baixo. Hoje, estas fendas estão cheias de lama avermelhada e há pequenas diferenças que oferecem evidências para a sua queda. O sedimento nas fendas do topo tem camadas, um sinal de que foi progressivamente acumulado nas fendas ao longo do tempo. Porém, as fendas na parte de baixo não têm esta estratificação e são preenchidas com sedimentos muito mais finos, apontando para uma injeção rápida devido à força de impacto. Cara Burberry diz que este padrão “é uma prova inequívoca” de desabamento de rocha.

A rocha deslizou com impacto, evidenciado em parte por uma grande brecha na zona frontal da rocha, diz Zachary. A equipa também extraiu e levou pequenos núcleos de rocha para o laboratório para testar a quantidade de força necessária para abrir as fendas. O resultado desta análise ajudou a determinar a distância a que a rocha caiu: provavelmente a cerca de 15 metros.

“Como é que não reparámos nisto antes? Faz todo o sentido”, diz a geóloga Catherine Mottram, da Universidade de Portsmouth, em Inglaterra, que leva os seus alunos a visitar a região todos os anos, mas que não fez parte da equipa de estudo. “Eu sentei-me literalmente naquela [rocha] várias vezes para almoçar.”

Histórias escondidas na rocha
Para Zachary Killingback, o maior desafio foi expressar as suas ideias no relatório escrito – uma dificuldade comum para as pessoas com autismo. “Eu basicamente penso em imagens. Eu tinha a tese toda na minha cabeça... como se fosse um documentário silencioso.”

Transformar esta imagem mental em história escrita demorou mais de dois anos, diz Zachary. “Eu desejava, em segredo, que alguém inventasse uma tecnologia para eu conseguir ligar um dispositivo USB à minha cabeça e descarregar tudo.”

Zachary conseguiu desenvolver estratégias para lidar com este desafio, incluindo explicar as várias partes do estudo à sua mãe para depois o descrever nas suas palavras. No final, valeu a pena, resultando num estudo esclarecedor.

“É uma espécie de oportunidade única ver um processo que sabemos que está sempre a acontecer, mas que raramente vemos preservado no registo rochoso”, diz Christopher Jackson, geólogo do Imperial College de Londres que não participou nesta nova investigação.

Parte da diversão da geologia é o trabalho de detetive envolvido na identificação de cada pista rochosa. No artigo de Zachary Killingback, Alex Webb diz que a alegria destas descobertas quase que é emanada das próprias páginas do estudo.


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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