Dois Pedaços Enormes de Sucata Espacial Quase Colidiram Numa Situação de ‘Alto Risco’

Um satélite desativado e uma peça de um foguetão velho, objetos com aproximadamente o tamanho de um carro, podiam ter coberto a órbita terrestre com lixo espacial se tivessem colidido um com o outro.

Thursday, October 22, 2020,
Por Dan Falk
Acredita-se que cerca de 29.000 objetos feitos pelo homem, com mais de 10 centímetros, orbitam a ...

Acredita-se que cerca de 29.000 objetos feitos pelo homem, com mais de 10 centímetros, orbitam a Terra, representando uma ameaça para futuras missões ao espaço.

Fotografia de NASA

Dois pedaços de sucata espacial, cada um com o peso de um carro, tiveram um encontro imediato no dia 15 de outubro, a cerca de 1000 quilómetros de altitude. Se estes objetos tivessem colidido – os especialistas estimavam as probabilidades de aproximação na ordem dos 5% a 10% – o impacto teria criado uma nuvem de destroços que colocaria em risco outros satélites e naves durante décadas.

Os dois objetos são um satélite de navegação russo, lançado em 1989, e uma peça de um foguetão chinês usado em 2009. Os cálculos da LeoLabs, uma empresa sediada na Califórnia que rastreia objetos na órbita baixa da Terra, estimavam o momento de maior aproximação às 20h56 do fuso horário da região leste dos EUA, no dia 15 de outubro, sobre o sul do Oceano Atlântico, perto da costa da Antártida. Cerca de uma hora depois do momento de abordagem mais próxima, a LeoLabs confirmou que “não havia indicação de colisão”, depois de os dois objetos terem passado pela estação de rastreio da empresa na Nova Zelândia.

Esta passagem foi apenas mais uma de várias que acontecem todos os anos. Mas estes dois pedaços de lixo espacial são particularmente grandes. A peça do foguetão pertence ao estágio três – a parte superior que se separa dos estágios inferiores e que entra em órbita – e mede perto de oito metros de comprimento. O satélite mede perto de seis metros de comprimento e tem uma lança de estabilização que se estende ao longo de 17 metros. De acordo com a LeoLabs, a massa combinada dos dois objetos é de cerca de 2700 quilos, e a sua velocidade relativa ronda os 50.000 quilómetros por hora.

Se os objetos tivessem colidido de frente, teriam criado duas nuvens enormes de detritos “que se espalhariam em torno da Terra”, diz Daniel Ceperley, CEO da LeoLabs. Dada a altitude dos objetos, os destroços teriam permanecido “lá em cima durante séculos”, antes de se incinerarem na atmosfera.

Mesmo que os objetos tivessem colidido, “não havia ameaça para a Terra”, diz o astrónomo Jonathan McDowell. “O impacto teria libertado pequenos detritos que se iriam incinerar por completo na atmosfera.”

A Estação Espacial Internacional (EEI) também não corria perigo imediato. A EEI orbita a uma altitude de cerca de 400 quilómetros, “seguramente abaixo” da altitude onde os destroços teriam sido libertados. “Provavelmente não havia muito perigo para a EEI a curto prazo”, diz Jonathan. Mas, passados muitos anos, os destroços de uma eventual colisão poderiam flutuar para a órbita da estação espacial. “Isso iria aumentar a quantidade de ‘chuva’ a cair na estação.”

Este ano, em três ocasiões diferentes, a EEI já teve de fazer manobras para se desviar de detritos espaciais para evitar danos, incluindo uma colisão iminente há menos de um mês.

O campo de destroços de uma colisão desta magnitude teria representado um perigo para qualquer nave que passasse, incluindo para os satélites a caminho de uma órbita geossíncrona superior (cerca de 35.000 quilómetros acima da Terra), ou para quaisquer satélites que estão a ser desorbitados para incineração na atmosfera.

Lixo no espaço
O espaço em torno da Terra está a ficar cada vez mais sobrelotado. Ao todo, acredita-se que cerca de 29.000 objetos feitos pelo homem, com mais de 10 centímetros, orbitam a Terra, o que significa que o perigo de colisões espaciais é maior do que nunca. A demanda por um acesso mais rápido à internet está constantemente a aumentar a população de satélites. Por exemplo, a empresa privada SpaceX lançou várias centenas de satélites de comunicação Starlink para a órbita baixa da Terra, e há milhares de lançamentos programados.

Uma das piores colisões de equipamentos espaciais aconteceu em fevereiro de 2009, quando o satélite operacional de comunicações Iridium 33 colidiu com um satélite militar russo desativado, o Kosmos 2251, por cima da Sibéria. O acidente libertou cerca de 1800 fragmentos espaciais, que ainda estão a ser rastreados, e aumentou a quantidade total de fragmentos na órbita baixa da Terra em cerca de 10%, diz Jonathan McDowell.

“Não temos regras de tráfego espacial para mitigar estas preocupações com a segurança”, diz Moriba Jah, investigador de mecânicas orbitais da Universidade do Texas, em Austin, que desenvolveu o ASTRIAGraph, um sistema de monitorização de tráfego espacial. Se não desenvolvermos um sistema melhor para evitar colisões, o aumento do lixo espacial pode limitar o acesso a órbita. “Estamos nesse caminho, a não ser que façamos algo diferente”, diz Moriba.

Até agora, a grande maioria dos dados sobre as trajetórias destes objetos vinha das forças armadas dos EUA. A Rede de Vigilância Espacial, parte do programa Space Force dos EUA, usa um conjunto global de telescópios para rastrear tudo que for maior do que uma toranja. No entanto, com o uso crescente da órbita baixa da Terra para fins comerciais, o Gabinete de Comércio Espacial, que faz parte do Departamento de Comércio dos EUA, está a preparar-se para desempenhar um papel mais influente no rastreio destes detritos, assim como empresas privadas como a LeoLabs.

Daniel Ceperley salienta que a maioria das instalações de radares militares dos EUA foram construídas durante a Guerra Fria, “para procurar mísseis vindos do polo norte”. Antes de a LeoLabs abrir a sua estação de rastreio na Nova Zelândia, havia pouca vigilância nos céus do hemisfério sul. (A empresa também opera estações no Alasca e no Texas.)

A NASA, por sua vez, estabeleceu um Programa de Detritos Orbitais em 1979, mas só rastreia as suas próprias naves, não os milhares de outros objetos que orbitam o nosso planeta. O Departamento de Defesa dos EUA, caso detete naves em perigo de colisão, fornece um aviso prévio à NASA, bem como a empresas e países do mundo inteiro.

À medida que mais satélites são lançados para o espaço, é inevitável que existam mais ocorrências e, em última análise, mais colisões, diz Daniel. “Estas coisas estão a acontecer, e estão a acontecer com mais frequência – e precisamos de descobrir como lidar com elas.”


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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