Força na Teimosia: Prémio Nobel de 2020 Reflete Sobre a Sua Carreira

Nesta entrevista retirada do livro “Women” de 2019 da National Geographic, Jennifer Doudna fala sobre o seu trabalho premiado e diz que “devemos estar muito abertos sobre os desafios que as mulheres enfrentam”.

Friday, October 9, 2020,
Por National Geographic Staff
A investigação desta bioquímica, em parceria com a colega Emmanuelle Charpentier, levou à descoberta de uma ...

A investigação desta bioquímica, em parceria com a colega Emmanuelle Charpentier, levou à descoberta de uma técnica revolucionária de edição de genes conhecida por CRISPR-Cas9. Hoje, Jennifer Doudna (na imagem) promove o uso ético de tecnologias de modificação de genes.

Fotografia de Erika Larsen

Nota editorial: O Prémio Nobel da Química de 2020 foi atribuído a Jennifer Doudna e Emmanuelle Charpentier pelo desenvolvimento de um método de edição de genomas. Susan Goldberg, editora da National Geographic, conversou com Jennifer Doudna em 2019 para o livro Women: The National Geographic Image Collection. Este texto foi editado por motivos de extensão e clareza.

Quando Jennifer Doudna estava no sexto ano, o seu pai ofereceu-lhe uma cópia do livro The Double Helix, do pioneiro em investigação de ADN James Watson, e ela ficou encantada. Jennifer, formada em bioquímica numa pequena faculdade da Califórnia, diz que ficou “um pouco surpreendida” quando foi aceite para os estudos de pós-graduação em Harvard. Foi em Harvard que contribuiu para investigações pioneiras sobre RNA, um campo que se tornou na sua paixão. Jennifer passou vários anos a investigar uma sequência molecular invulgar – com a sigla CRISPR – e a forma como funcionava. Em 2011, uniu forças com a microbióloga Emmanuelle Charpentier e, no ano seguinte, publicaram descobertas revolucionárias sobre como a CRISPR, combinada com uma enzima, a Cas9, podia cortar tiras de ADN com uma precisão cirúrgica. O resultado: uma técnica de edição de genes que é considerada a descoberta científica mais significativa do século passado. Agora, professora na Universidade da Califórnia em Berkeley, Jennifer continua a sua investigação e defende padrões éticos no uso de tecnologias de modificação de genes.

Deixe-me ir direta ao assunto e perguntar: Considera-se feminista?
Essa é uma boa pergunta. Eu diria que sou uma feminista em ascensão, e digo-lhe porquê. No início da minha carreira, estava muito, muito interessada em não ser vista como uma “mulher cientista”, mas apenas ser vista como uma cientista, neutra em termos de género – alguém que era profissional e dedicado ao que estava a fazer, mas sem receber quaisquer vantagens ou desvantagens com base no seu género. Acho que é assim que muitas pessoas se identificam com um determinado grupo: fundamentalmente, querem ser valorizadas por quem são enquanto pessoas e pelas suas contribuições, em vez de receberem algum tipo de dispensa especial por coisas impossíveis de controlar relacionadas com o nascimento.

Portanto, isso foi uma realidade para mim, provavelmente quando eu tinha os meus 40 anos. Mas ao longo da última década, vi – muito mais de perto – esse tipo de preconceito a acontecer. É uma coisa maioritariamente não intencional, mas vejo preconceito contra as mulheres. E isso tornou-me muito mais consciente da importância de se ser muito aberto sobre os desafios que as mulheres enfrentam, a forma como as mulheres são encaradas nos meios de comunicação nacionais e internacionais, e a forma como as diferentes culturas estão a retratar as mulheres, sobretudo no papel que desempenham profissionalmente. Precisamos de continuar a discutir estas questões e garantir que as mulheres se sentem bem-vindas e capacitadas para contribuir em pleno para a sociedade, independentemente da forma que considerem ser importante para elas – seja por serem mães, por motivos profissionais ou por qualquer outro motivo.

Para si, qual seria a mudança mais importante que devia acontecer para as mulheres nos próximos 10 anos?
Hmm, o que devo dizer? Existem muitas frases feitas para isso, como melhores cuidados infantis ou mais acesso a salários iguais para trabalhos iguais. Acho que se trata realmente de as mulheres se sentirem bem-vindas em todos os setores da vida profissional – incluindo ao nível empresarial e em cargos de liderança, bem como no meio académico, que é a minha vertente de trabalho. Continua a haver uma necessidade de se excluir as mulheres dos níveis mais altos de liderança, uma vez que agora estamos a excluir uma grande fração de pessoas porque não se sentem capacitadas ou bem-vindas para darem o seu contributo. Entre as mulheres que supervisiono enquanto conselheira académica numa enorme universidade pública, vejo frequentemente mulheres que duvidam das suas capacidades. Não sei se é uma coisa cultural, mas acho que as mulheres, muito mais do que os homens em geral, tendem a duvidar das suas aptidões – seja na capacidade de serem bem-sucedidas num curso, para se candidatarem a uma bolsa de estudo, para um trabalho ou uma promoção, ou até para atingir os níveis mais elevados de liderança na América corporativa.

Isso é mesmo verdade. No outro dia, uma jovem perguntou-me: “O que faz quando sente a síndrome do impostor?” [Este termo, cunhado por psicólogos na década de 1970, refere-se a pessoas que duvidam dos seus talentos ou que temem ser uma fraude, apesar dos seus feitos provarem o contrário.] Eu respondi-lhe que me limito a avançar, agir com confiança, e continuar. Mas raramente ouvimos um homem a perguntar algo assim.
Exatamente. Portanto, temos de mudar isso de alguma forma.

Para mudar um pouco de assunto: Qual é a figura histórica com que mais se identifica?
Provavelmente Dorothy Hodgkin [a química britânica que ganhou o Prémio Nobel da Química em 1964 pelo seu uso de raios-x para determinar a estrutura da penicilina e de outros bioquímicos importantes]. Li uma biografia dela há alguns anos e fiquei realmente impressionada pela forma como ela enfrentou todos os tipos de desafios enquanto mulher na sua profissão. Tinha uma família, mas para desenvolver o seu trabalho teve de viver muito tempo longe dos filhos. Imagine o que seria passar por isso, mas ela era muito motivada – não só para ser a melhor e fazer realmente o seu trabalho ao mais alto nível, mas também para ser uma mãe e cônjuge responsável. Isso tocou-me bastante.

E uma pessoa viva?
Talvez a Michelle Obama. Acho que ela é incrível por tudo o que vi e li sobre ela. Ela é a mulher mais digna – incrivelmente inteligente, muito talentosa profissionalmente, e parece ser uma esposa e mãe maravilhosa. Ela personifica a classe que eu aspiro para mim própria.

Já é a segunda pessoa que me diz isso.
Não fico surpreendida.

Qual foi o seu momento de conquista pessoal?
Se está a perguntar sobre o momento que mudou a trajetória do que tenho feito profissionalmente enquanto cientista, o que realmente se destaca foram os tempos em que estava a começar a pós-graduação em Harvard. Eu vinha de uma pequena cidade no Havai, era um produto da escola pública, e fiquei um pouco surpreendida quando dei por mim neste programa de pós-graduação na Escola de Medicina de Harvard. Houve uma tarde maravilhosa em que eu não me estava a sentir particularmente confiante sobre as minhas capacidades para ter sucesso neste ambiente com muitas pessoas muito inteligentes à minha volta. Foi quando o meu orientador, o laureado com um Nobel Jack Szostak, veio ter comigo para pedir a minha opinião sobre uma experiência. Basta imaginar ser um estudante de pós-graduação e ser abordado por alguém que parecia estar a anos-luz de distância em termos de feitos e capacidades, para pedir a minha opinião sobre uma ideia. Isso fez-me perceber que as minhas opiniões eram valorizadas; ele confiava em mim, pelo que se calhar eu também devia confiar nas minhas capacidades.

Qual é a sua maior força?
Oh, provavelmente a minha teimosia. Eu meto uma ideia na cabeça e não quero abdicar dela. É algo que por vezes me pode desfavorecer, mas acho que a teimosia é a qualidade que me permitiu fazer muitas das coisas que fiz na ciência.

Quais foram os maiores obstáculos que teve de ultrapassar?
Apenas as dúvidas que tive em vários momentos. Interrogava-me se tinha realmente capacidade para me tornar bioquímica e ser uma cientista de sucesso. A minha definição de sucesso não era sucesso em termos de recompensa monetária ou até de reconhecimento profissional. Era mais ao nível de, será que consigo realmente fazer ciência de que me vou orgulhar? E será que vou sentir que fiz a escolha correta para a minha vida? Será que decidi fazer algo que consigo realmente fazer bem? Houve várias vezes, quando era mais nova, em que pensei que talvez a resposta fosse não e que talvez estivesse no caminho errado. Mas a minha teimosia entrou novamente em jogo, porque também não sou de desistir. Tinha vozes na minha cabeça que duvidavam do que eu estava a fazer – mas também tinha vozes contraditórias que diziam que eu não ia desistir. Ia continuar teimosamente a fazer isto porque acreditava que era a coisa correta a fazer. Acho que, de alguma forma, todos nós enfrentamos estas dúvidas e temos de encontrar formas de as superar.

Que conselho daria hoje às mulheres mais novas?
Primeiro: entrar numa sala como se fossem donas daquele lugar. Um homem faria isso sem grandes problemas. A outra coisa que digo é para escolherem um parceiro com sabedoria. Ter um parceiro na vida que nos apoia – nas decisões sobre filhos, carreira, estilo de vida – ajuda muito a permitir que as mulheres alcancem todo o seu potencial.


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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