Fósseis Revelam Que Este Pequeno Dinossauro Tinha Um Senso Tátil Muito Apurado

Esta criatura do período jurássico tinha escamas sensíveis na cauda, algo que a pode ter ajudado a caçar dentro de água durante a noite.

Tuesday, October 13, 2020,
Por John Pickrell
As escamas preservadas da cauda de um Juravenator – um pequeno dinossauro predador que viveu há ...

As escamas preservadas da cauda de um Juravenator – um pequeno dinossauro predador que viveu há 150 milhões de anos onde atualmente fica a Alemanha – contêm pequenas saliências que os cientistas acreditam serem órgãos sensoriais.

Fotografia de JAKE BAARDSE (ILUSTRAÇÃO)

Um dinossauro do tamanho de uma galinha, que viveu há cerca de 150 milhões de anos onde atualmente fica a Alemanha, pode ter usado escamas sensoriais na sua cauda enquanto procurava peixes à noite. Estes órgãos sensoriais, notavelmente semelhantes aos encontrados nos crocodilos, provavelmente ajudaram este animal a descortinar o seu ambiente enquanto andava pelas lagoas rasas de um arquipélago pré-histórico que outrora cobriu a Europa.

O único fóssil conhecido da espécie Juravenator starki inclui um esqueleto quase completo e alguns tecidos moles preservados – com a pele em torno da cauda a revelar um padrão singular nas escamas, conforme publicado no dia 5 de outubro na Current Biology.

“A pele raramente fica preservada no registo fóssil, por isso, quando tentamos imaginar dinossauros vivos a partir apenas de ossos, os detalhes sobre as suas coberturas corporais costumam ser especulativos”, diz Stephanie Drumheller-Horton, da Universidade do Tennessee, em Knoxville, que não participou nesta nova pesquisa. “Os tecidos moles podem realmente dar corpo às nossas interpretações sobre estes grupos.”

O holótipo fóssil do Juravenator starki revela a estrutura do esqueleto do animal. Também foram encontradas escamas fossilizadas da cauda deste espécime.

Fotografia de Phil R. Bell

As saliências circulares nas escamas fossilizadas parecem semelhantes aos órgãos do sistema tegumentar (ISO) que cobrem os corpos dos crocodilos da atualidade. Os crocodilos usam estes ISO para detetar os movimentos das suas presas no ambiente que os rodeia, bem como para medir a temperatura e acidez da água.

Os investigadores presumem há muito tempo que os dinossauros usavam as suas escamas apenas como coberturas protetoras, “mas a realidade é que as escamas são órgãos altamente adaptados que desempenham várias funções”, diz Phil Bell, autor do estudo e paleontólogo da Universidade de Nova Inglaterra em Armidale, na Austrália. “Ver estas coisas em primeira mão e perceber como é que o Juravenator pode ter interagido com o ambiente com base na sua capacidade sensorial é muito emocionante.”

Sentidos de dinossauro
Quando Phil Bell e o seu coautor Christophe Hendrickx, da Unidad Ejecutora Lillo em San Miguel de Tucumán, na Argentina, examinaram pela primeira vez a faixa de anéis concêntricos na parte inferior da cauda, suspeitaram que o padrão incomum era um efeito da preservação fóssil.

“No entanto, os anéis eram muito regulares – todos do mesmo tamanho e limitados à faixa sob a cauda – pelo que não havia dúvidas de que eram características reais com uma anatomia muito peculiar”, explica Phil. Um exame feito posteriormente com microscópios e luz ultravioleta revelou que estas formas eram semelhantes em estrutura aos ISO dos crocodilos.

“Os ISO de um crocodilo são bastante singulares, são um tipo de cúpula central rodeada por um anel quase semelhante a um fosso”, diz Phil. “São normalmente chamados pontos de toque ou órgãos sensíveis à pressão, e a sua construção é aparentemente idêntica à que vimos no Juravenator.”

Paul Barrett, paleontólogo do Museu de História Natural de Londres que não esteve envolvido no novo estudo, diz que apesar de ser possível que as escamas fossem apenas ornamentais, “os autores estabelecem fortes argumentos” de que tinham uma função sensorial, observando que a semelhança com as escamas modernas de crocodilos “é impressionante”.

Se as escamas do Juravenator incluírem ISO, serão os primeiros órgãos sensoriais de qualquer tipo encontrados na pele de um dinossauro, diz Phil.

“Como acontece com todos os outros animais, os dinossauros precisariam de recolher informações sobre o seu ambiente para se alimentarem e mover com eficiência”, diz Paul Barrett. “Um sentido tátil, para além dos sentidos mais óbvios de visão, olfato e audição, daria aos animais outra maneira de obter estas informações.”

“A morfologia das escamas é algo que penso que nunca vimos em dinossauros, e é muito parecida com a dos crocodilos modernos”, diz Caleb Brown, curador de evolução de dinossauros no Museu Royal Tyrrell em Drumheller, no Canadá, que também não participou neste novo estudo.

Caleb Brown diz que os especialistas deviam observar outros espécimes de dinossauros que tenham a pele bem preservada em coleções fósseis, para ver se podem ter escamas sensoriais semelhantes que possam ter passado despercebidas.

Sondar as águas à noite
Tal como acontece com os crocodilos, estas escamas podem ter tido uma função de caça, dizem Phil Bell e Christophe Hendrickx, permitindo ao Juravenator detetar os movimentos das presas que o rodeavam enquanto este caminhava pela água à procura de peixe.

O espécime tem olhos relativamente grandes, podendo indicar que este dinossauro era notívago. E embora o fóssil não tenha conteúdo intestinal preservado, já foram encontrados outros dinossauros relacionados com peixes fossilizados nos seus estômagos.

“O Juravenator pode ter sido estritamente notívago, tornando as capacidades sensoriais que conseguem neutralizar as condições de pouca luminosidade ainda mais essenciais”, escrevem os autores no novo artigo. Este tipo de estratégia de caça fazia sentido para as inúmeras lagoas de pouca profundidade e águas costeiras da Europa do período jurássico.

Há investigações feitas recentemente que sugerem a presença de órgãos sensoriais semelhantes no rosto de um parente do tiranossauro, diz Stephanie Drumheller-Horton. “Mas esses estudos funcionaram de dentro para fora, observando os canais dos vasos sanguíneos e os nervos preservados dentro dos ossos do crânio.”

Até agora, encontrar evidências de órgãos sensoriais externos noutras partes do corpo de dinossauros tem sido difícil. Raramente temos um vislumbre da biologia dos dinossauros e, quando temos, essa informação vem maioritariamente dos ossos ou, mais recentemente, das penas.

“As pessoas sentem-se atraídas pela ideia de que todos os dinossauros tinham penas, mas isso é apenas parcialmente verdade”, diz Phil Bell. “Há apenas um ramo específico da árvore terópode que parece ter penas de forma generalizada, ao passo que a maioria dos dinossauros tinha escamas.”

Os espécimes que venham a ser encontrados com pele fossilizada no futuro podem fornecer vislumbres adicionais de como estes animais pré-históricos viviam. “Só conseguimos aprender sobre a biologia e o comportamento de animais extintos a partir dos seus esqueletos até certo ponto”, diz Caleb Brown. “Quando um estado  excecional de preservação revela detalhes da pele, conseguimos obter um vislumbre de um mundo completamente diferente.”


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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