Investigador Português Regista Dimensões das Colunas de Matéria das “Estrelas-bebé”

As colunas de matéria que formam as “estrelas-bebé” foram medidas pela primeira vez. Esta investigação representa o primeiro passo para desvendar a formação das estrelas.

Thursday, October 8, 2020,
Por National Geographic
Conceção artística do fenómeno medido.

Conceção artística do fenómeno medido.

Fotografia de Mark A. Garlick

Com auxílio do GRAVITY, o instrumento mais poderoso construído para telescópios terrestres, situado no Observatório Europeu do Sul  (ESO), no Chile, o professor e investigador Paulo Garcia, da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP), mediu as colunas de matéria que formam as “estrelas-bebé”.

Estas colunas conectam grandes discos de matéria às estrelas no seu centro, sendo que é nestes discos que se formam os planetas. O nosso sistema solar passou por um processo semelhante há 5 mil milhões de anos.

A "estrela-bebé" analisada
A matéria que acumulam durante a sua infância, aumenta a massa final das estrelas adultas, como o Sol. Este mecanismo está ligado à magnetização das “estrelas-bebé”. Grandes arcos de campo magnético ligam a estrela ao disco e é ao longo destes arcos que a matéria cai do disco para a estrela.

As medições foram realizadas no deserto do Atacama, no Chile. A “estrela-bebé” estudada é uma das mais próximas do planeta Terra e encontra-se na constelação da Hidra, a maior constelação no céu visível no hemisfério celestial sul.

Os investigadores envolvidos no estudo publicado recentemente na Nature acreditam que esta estrela é especial por se encontrar apenas a 196 anos luz da Terra e pelo facto do seu disco ser visível de frente. Estas características tornam-na ideal para estudar como o material flui do disco para a estrela.

O instrumento utilizado
Mesmo com escalas gigantescas, as colunas têm lugar a distâncias da ordem do raio da estrela. Tais distâncias envolvidas obrigam a uma instrumentação muito precisa. A interferometria - tecnologia de medição que combina vários telescópios - corresponde a um supertelescópio que permite observar detalhes dezenas de vezes mais finos do que um telescópio isolado.

O telescópio Kepler detetou uma enorme população de planetas muito perto da estrela central, em contraste com o Sistema Solar, o que revela que ainda há muita matéria para desvendar.

Apesar de ainda não se saber como esses planetas se acumularam nessa região, o presente estudo parece indicar que o magnetismo estelar contribui para criar uma região específica para a migração dos planetas.

O GRAVITY opera com os quatro Telescópios Principais de 8,2 metros do Very Large Telescope do ESO, a mais importante organização europeia intergovernamental para a investigação em astronomia. Um dos seus principais objetivos é fazer observações detalhadas do meio que rodeia o buraco negro de 4 milhões de massas solares, que se encontra no centro da Via Láctea.

A comunidade científica portuguesa envolvida na investigação
À frente da investigação, que ajuda a compreender melhor o fenómeno da matéria das “estrelas-bebé”, encontra-se Paulo Garcia e António Amorim Barbosa, investigador da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.

Além destes, colaborou também a cientista Rebeca García López, da University College Dublin, e Mercedes Filho, investigadora da FEUP e do CENTRA, um centro de referência em astrofísica e gravitação.

A equipa responsável pela observação reúne mais de 70 cientistas e espera agora continuar a observar os berços e as “estrelas-bebé”, com características distintas, de modo a compreender os mecanismos que determinam o estado final dessas estrelas.

Paulo Garcia também esteve no Observatório do Paranal, no Chile, e mediu as colunas de matéria que formam as “estrelas-bebé”. Tratou-se da primeira observação de como uma “estrela-bebé” adquire massa até chegar à sua forma final, uma missão, segundo os cientistas, repleta de emoções.

Apesar dos avanços científicos, a comunidade científica considera que se trata de um tema com um longo caminho ainda por descobrir.

Continuar a Ler