Missão Ousada da NASA Toca em Asteroide e Aguarda Confirmação Sobre Amostras Recolhidas

A tentativa histórica para recolher amostras no asteroide Bennu pode fornecer pistas sobre as origens do nosso sistema solar – e da própria vida.

Friday, October 23, 2020,
Por Michael Greshko
Funcionando como um aspirador invertido, o coletor de amostras da sonda OSIRIS-REx parecia estar a recolher ...

Funcionando como um aspirador invertido, o coletor de amostras da sonda OSIRIS-REx parecia estar a recolher material na superfície do asteroide Bennu sem quaisquer problemas. A NASA aguarda confirmação.

Fotografia de NASA / CENTRO DE VOO ESPACIAL GODDARD (ILUSTRAÇÃO)

LITTLETON, COLORADO – Numa das missões mais ambiciosas da história da humanidade, a sonda OSIRIS-REx da NASA alcançou e tocou com sucesso em Bennu, um pequeno asteroide em forma de pião que percorre o sistema solar há milhares de milhões de anos. Se tudo correr conforme planeado, a sonda recolheu um pouco de material durante os seus breves momentos de contacto e partiu alguns segundos depois com uma carga preciosa: rochas e poeira que datam do nascimento do sistema solar.

A confirmação de recolha de amostras vai demorar alguns dias, mas neste momento a equipa já sabe que a sonda tocou na superfície de Bennu a menos de 75 centímetros do alvo designado.

“Estamos a afastar-nos em segurança da superfície do asteroide”, disse Dante Lauretta, cientista planetário da Universidade do Arizona e investigador principal da OSIRIS-REx, depois de a equipa ter confirmado que o mecanismo de recolha de amostras da sonda tinha sido ativado. “Conseguimos, tocámos na superfície de um asteroide.”

A sonda OSIRIS-REx navegou com sucesso através de uma área muito apertada, do tamanho de alguns lugares de estacionamento – oito metros – enquanto recolhia amostras na superfície do asteroide Bennu.

Fotografia de NASA / GODDARD / CI LAB (CAPTURA DE VÍDEO)

A OSIRIS-REx pode trazer mais material de outro mundo do que qualquer outra missão robótica, e só as aterragens na lua da missão Apollo recolheram mais rochas extraterrestres e poeira. Se a OSIRIS-REx tiver recolhido amostras suficientes, a sonda irá partir de Bennu em março de 2021, chegando à Terra dois anos e meio depois para ejetar uma cápsula cheia de amostras, que irá cair de paraquedas no deserto do Utah para recolha e estudo.

A OSIRIS-REx pode vir a fornecer uma visão enriquecedora sobre a história de Bennu e talvez até ajudar os cientistas a compreender melhor as origens da água e vida na Terra.

“Os asteroides são como cápsulas do tempo a flutuar no espaço que podem fornecer um registo fóssil do nascimento do nosso sistema solar”, disse em conferência de imprensa no dia 19 de outubro Lori Glaze, diretora da divisão de ciências planetárias da NASA. “Os asteroides podem fornecer informações valiosas sobre a formação de planetas – incluindo o nosso.”

Guiada por um mapa digital, a OSIRIS-REx voou entre pedras enormes que rodeiam a zona de contacto, tornando a descida perigosa. O local designado para contacto, destacado nesta imagem com um círculo azul, tem oito metros de comprimento.

Fotografia de NASA / GODDARD / UNIVERSIDADE DO ARIZONA

Algumas rochas espaciais também representam uma ameaça – e isso inclui Bennu. A NASA estima que há uma probabilidade de um em 2700 de Bennu colidir com a Terra em finais do século XXII. Nas décadas vindouras, se as medições confirmarem uma rota de colisão, os dados da OSIRIS-REx podem ajudar os cientistas a monitorizar o asteroide e alterar a sua órbita para evitar um impacto potencialmente catastrófico.

Voar até a um mundo antigo
Chegar até Bennu foi uma jornada árdua de 16 anos para a equipa da missão.

Embora a missão tenha sido concebida pela primeira vez em 2004, a NASA só a selecionou formalmente em maio de 2011. Poucos meses depois, o líder original da OSIRIS-REx, Mike Drake, cientista planetário da Universidade do Arizona, morreu de insuficiência hepática após uma luta prolongada contra a doença. Dante Lauretta, cientista planetário da Universidade do Arizona e diretor-adjunto de Mike Drake, assumiu o papel deixado pelo seu mentor, e a missão foi levada a cabo em sua memória.

Esquerda: Para chegar em segurança ao local de amostragem em Bennu, denominado Nightingale, a equipa da OSIRIS-REx teve de mapear os perigos de superfície da área. As regiões a verde estão livres de perigo. Se a sonda avaliasse que podia tocar numa área de alerta (a amarelo) ou perigosa (a vermelho), teria de abortar a sua aproximação para outro dia.
Direita: Como a OSIRIS-REx não consegue recolher partículas de amostra com mais de dois centímetros de comprimento, a equipa também mapeou outras áreas recomendadas de amostragem dentro da zona Nightingale. As áreas a azul parecem ter muito material granulado, enquanto que as áreas a vermelho parecem ser menos promissoras.

Fotografia de NASA / GODDARD / UNIVERSIDADE DO ARIZONA (ILUSTRAÇÕES)

“É a realização do sonho magnífico que [Mike Drake] teve”, diz Thomas Zurbuchen, administrador-adjunto da NASA que também era amigo de Mike. “Tenho a certeza de que, se ele estivesse aqui, teria uma enorme sensação de realização, um orgulho na equipa – e acreditamos que ele sente isso, em espírito.”

Depois do seu lançamento no dia 8 de setembro de 2016, a OSIRIS-REx viajou dezenas de milhões de quilómetros para chegar a Bennu em dezembro de 2018. Bennu é o corpo celeste mais pequeno que uma sonda alguma vez orbitou: uma pilha de entulho com cerca de 500 metros de diâmetro, que é mantida unida pela sua própria gravidade, que também é muito fraca. Nestas condições, as forças mais subtis podem alterar a rota da OSIRIS-REx, como a pressão da luz do sol na sonda.

Assim, a equipa teve de modelar o comportamento da sonda e verificar a sua órbita com um grau sem precedentes. Na ausência de correções regulares, os erros de trajetória da OSIRIS-REx rapidamente se acumulariam, deixando eventualmente os investigadores sem uma noção precisa de onde a nave está num determinado momento.

“Estabelecemos recordes mundiais para a órbita mais pequena e para o corpo orbitado mais pequeno, e há um motivo pelo qual isto nunca foi feito – é extremamente difícil”, diz Olivia Billet, da Lockheed Martin e engenheira de sistemas da OSIRIS-REx. “É uma maneira completamente nova de operar.”

A paisagem de Bennu também deu à NASA algumas surpresas desagradáveis. Antes do lançamento da OSIRIS-REx, os investigadores esperavam que o asteroide tivesse “praias arenosas” de granulação fina na sua superfície. Mas assim que a sonda chegou perto do asteroide, a NASA descobriu que Bennu está na realidade coberto por blocos de pedra.

A OSIRIS-REx foi projetada para terreno muito menos acidentado, pelo que a equipa de engenharia teve de atualizar o software de navegação da nave a meio da missão. Para dar a este novo software o máximo de informações possível, a equipa da sonda mapeou toda a superfície do asteroide com uma precisão de cinco centímetros – de longe o mapa global mais detalhado que uma sonda alguma vez fez de um corpo celeste. “Tivemos mesmo de afiar os nossos lápis”, diz Mark Fisher, da Lockheed Martin e engenheiro-chefe da OSIRIS-REx.

Trazer tudo de regresso a casa
Embora a equipa ainda precise de confirmar a recolha de amostras, os dados recolhidos pela sonda revelam que se encontram moléculas portadoras de carbono, necessárias para a vida, por toda a superfície de Bennu, incluindo no local de amostragem, denominado Nightingale. Os investigadores já estão a preparar laboratórios pelo mundo inteiro para estudar este material à procura de pistas sobre as origens da vida no sistema solar.

“Bennu acabou por ser tudo o que eu esperava que fosse”, diz Dante Lauretta. “Cientificamente, é literalmente uma recompensa em poeira.”

Outras duas missões anteriores de recolha de amostras em asteroides, as primeiras de sempre, realizadas pelas sondas japonesas Hayabusa e Hayabusa 2, cimentaram as bases para a OSIRIS-REx. A Hayabusa enviou a primeira amostra de asteroides em 2010, e a Hayabusa 2 vai enviar a sua carga – uma cápsula com vários gramas recolhidos no asteroide Ryugu – para o deserto australiano no dia 6 de dezembro.

Estas missões japonesas recolheram pequenas quantidades de material de granulação fina. Por outro lado, a OSIRIS-REx foi projetada para recolher até dois quilos de material de tamanhos variados – desde grãos minúsculos a seixos com dois centímetros de comprimento.

No dia 11 de fevereiro de 2016, a OSIRIS-REx fez testes ambientais numa câmara térmica de vácuo nas instalações da Lockheed Martin. Lançada quase sete meses depois, no dia 8 de setembro de 2016, a sonda está agora a mais de 320 milhões de quilómetros da Terra – e depois de recolher uma amostra com sucesso na superfície de outro mundo, vai regressar a casa.

Fotografia de Lockheed Martin

Jamie Elsila, cientista de investigação do Centro de Voo Espacial Goddard da NASA, em Maryland, está interessada nos aminoácidos – blocos de construção de proteínas – que se formaram na poeira de Bennu através de processos químicos abióticos. A vida na Terra usa 20 aminoácidos, mas já foram encontrados muitos outros tipos de aminoácidos em meteoritos que caíram no nosso planeta. As amostras virgens de Bennu podem esclarecer quais eram os aminoácidos presentes nos primórdios do sistema solar e como as suas proporções podem ter afetado as origens da vida na Terra.

Apenas o começo
O sucesso do evento de aproximação ao asteroide é um motivo de alívio, mas a equipa ainda não está pronta para abrir o champanhe. A semana e meia que se segue é crucial para verificar se a OSIRIS-REx conseguiu realmente recolher material em Bennu conforme planeado.

Nos próximos dias, os investigadores vão emitir um comando para a sonda fazer uma rotação com o braço robótico estendido. Quanto mais detritos o braço robótico tiver recolhido, mais força será necessária para acelerar a rotação da OSIRIS-REx, permitindo aos investigadores estimar a carga de amostra com uma precisão de alguns gramas. No dia 30 de outubro, Thomas Zurbuchen irá decidir se a sonda armazena as amostras para regressar à Terra, ou se regressa a Bennu para uma segunda tentativa de amostragem.

Neste momento já estão em andamento mais missões para visitar outros pequenos mundos primordiais, como um voo que está planeado para o asteroide metálico Psique. A Lockheed Martin, onde o controlo de missão da OSIRIS-Rex está instalado, também está a construir a próxima sonda Lucy da NASA, que será lançada em finais de 2021 para visitar os asteroides Troianos que orbitam ao lado de Júpiter.

Estes pequenos mundos podem ajudar a decifrar alguns dos maiores mistérios cósmicos e, como um detetive impaciente que investiga o caso da sua vida, Dante Lauretta está ansioso para ver as pistas que Bennu irá oferecer. “Mal posso esperar para receber estas amostras. Vamos divertir-nos muito.”


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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