O que Dizem os Tratamentos de Emergência COVID-19 Sobre a Condição do Presidente Trump

Os medicamentos sugerem que o presidente tem pelo menos um caso moderado de COVID-19 – e mesmo depois de ter regressado à Casa Branca, há detalhes sobre a sua condição que ainda estão em falta.

Thursday, October 8, 2020,
Por Michael Greshko
As empresas farmacêuticas estão a desenvolver anticorpos “monoclonais” sintéticos que podem ajudar o corpo a criar ...

As empresas farmacêuticas estão a desenvolver anticorpos “monoclonais” sintéticos que podem ajudar o corpo a criar uma resposta precoce à COVID-19. O presidente Trump recebeu uma dose experimental destes anticorpos antes da conclusão dos ensaios clínicos.

Fotografia de KTSDESIGN, SCIENCE SOURCE (ILUSTRAÇÃO)

O diagnóstico de COVID-19 do presidente Donald Trump é a ameaça mais significativa à saúde presidencial dos EUA em décadas – e mais um caso entre os milhões registados até agora nos EUA.

Na segunda-feira, o presidente confirmou as suas intenções de regressar à Casa Branca, apenas um dia depois de os seus médicos revelarem que Trump já tinha necessitado de oxigénio suplementar duas vezes – uma na sexta-feira de manhã e outra no sábado – em resposta aos períodos em que os seus níveis de saturação de oxigénio no sangue caíram abaixo dos 94%. A saturação de oxigénio no sangue é um indicador da função pulmonar e, portanto, da gravidade de um caso de COVID-19.

Os médicos da Casa Branca estão a cuidar do presidente com uma mistura de medicamentos – incluindo um medicamento experimental conhecido por anticorpos monoclonais, um tratamento que tem levantado dúvidas porque a sua segurança e eficácia não estão completamente comprovadas.

Sean Conley (à direita), médico da Casa Branca, faz uma atualização sobre a condição do presidente dos EUA, Donald Trump, no dia 3 de outubro de 2020, no Centro Militar Nacional Walter Reed em Bethesda, Maryland.

Fotografia de Brendan Smialowski, AFP via Getty Images

“Estamos a testemunhar em tempo real a interseção entre uma crise nacional e o risco de emergência médica de uma pessoa”, diz Jeremy Faust, médico do Hospital Brigham and Women de Boston.

Espera-se que os anticorpos monoclonais ajudem o sistema imunitário a montar uma resposta precoce à COVID-19. O conceito é semelhante ao do plasma convalescente, mas em vez de ser um extrato retirado do sangue, os anticorpos monoclonais são um “bisturi” desenvolvido por bioengenharia que estabelece cuidadosamente um escudo de imunidade. Mas o medicamento em questão – o REGN-COV2, fornecido pela empresa de biotecnologia americana Regeneron – ainda não obteve os resultados completos dos ensaios clínicos que estão a decorrer.

A Regeneron disse à National Geographic através de comunicado que o presidente não é a única pessoa a receber REGN-COV2 ao abrigo do que se chama “uso compassivo”. Alexandra Bowie, porta-voz da Regeneron, disse que menos de 10 outras pessoas receberam este tratamento em “circunstâncias raras e excecionais”.

Alexandra recusou comentar se a primeira-dama Melania Trump ou outros altos funcionários do governo que testaram positivo receberam uma dose, citando a privacidade médica. “Continuaremos a avaliar cada pedido individualmente, de acordo com os seus próprios méritos”, disse Alexandra Bowie.

Qual é a condição do presidente Trump?
O presidente faz um exame físico anual e as informações divulgadas a partir destas análises oferecem uma imagem difusa sobre o seu risco de coronavírus.

O presidente tem 74 anos e está numa faixa etária onde cerca de um em cada 500 casos de COVID-19 resulta numa doença grave o suficiente para exigir hospitalização. A altura e o peso de Trump – reportados neste verão em 1,90 metros e 110 quilos – também significam que pode ser considerado um pouco acima do peso, ou obeso, outro fator de risco para as complicações com o vírus. Os médicos do presidente – incluindo Sean Conley, o comandante da Marinha atualmente nomeado – descreveram a saúde cardíaca de Trump como sendo normal. A seu favor, o presidente não consome álcool nem tabaco, reduziu o colesterol e manteve a pressão arterial limítrofe normal nos últimos três anos.

“As pessoas que têm estes dados demográficos são precisamente as pessoas que mais precisamos de proteger nesta crise”, diz Jeremy Faust.

A divulgação feita no domingo sobre a descida de oxigénio no sangue do presidente foi uma reviravolta em relação ao que tinha acontecido no início do fim de semana, quando Conley se esquivou de perguntas repetidas sobre a oxigenoterapia de Trump durante as conferências de imprensa no Centro Walter Reed em Maryland.

O presidente dos EUA Donald Trump, no Relvado Sul da Casa Branca no dia 2 de outubro de 2020, em Washington D.C., prepara-se para partir para o Centro Walter Reed. O presidente Trump e a primeira-dama Melania Trump testaram positivo para o coronavírus.

Fotografia de Drew Angerer, Getty Images

“Eu estava a tentar refletir a atitude positiva da equipa e o rumo da doença”, disse Conley durante a conferência de imprensa no domingo. “Não queria dar informações que pudessem indicar que o curso da doença seguia noutra direção.”

Nos casos mais graves de COVID-19, os níveis de oxigénio no sangue podem cair abaixo dos 94%, colocando os pacientes em risco de hipoxia nociva, mesmo que inicialmente ainda se consigam mover e respirar normalmente. Assim, os médicos de Trump administraram um tratamento com o esteroide dexametasona. Em junho, o ensaio RECOVERY do Reino Unido anunciou evidências de que este medicamento, que modifica o sistema imunitário, aumentava as probabilidades de sobrevivência nos casos graves de COVID-19, onde os pacientes precisavam de oxigénio suplementar ou de uma ventilação mais intensiva.

A prescrição de dexametasona pode indicar que Trump teve mais do que um caso moderado, ao contrário do que foi inicialmente relatado pelos seus médicos e funcionários da Casa Branca na sexta-feira. As diretrizes dos Institutos Nacionais de Saúde dos EUA recomendam o uso de dexametasona apenas se o paciente precisar de oxigénio suplementar ou ventilação mecânica. A Organização Mundial de Saúde também recomenda a dexametasona apenas em casos “graves” ou “críticos” de COVID-19 onde, no mínimo, os níveis de saturação de oxigénio no sangue caíram anormalmente abaixo dos 90%.

“As diretrizes dos Institutos Nacionais de Saúde dos EUA recomendam o uso de dexametasona apenas se o paciente precisar de oxigénio suplementar ou ventilação mecânica. A Organização Mundial de Saúde também recomenda a dexametasona apenas em casos “graves” ou “críticos” de COVID-19.”

Saber se o presidente necessitou de oxigénio suplementar de forma consistente é uma questão crucial: a exigência deste tratamento é encarada como uma bifurcação no caminho entre uma infeção ligeira e outra mais grave.

Nos estágios finais dos casos graves de COVID-19, a maioria dos danos corporais não é infligida pelo vírus em si, mas sim por uma resposta imunitária excessiva, ou tempestade de citocinas. Acredita-se que a dexametasona ajuda a conter esta tempestade, diminuindo os danos provocados pela inflamação.

Administrar dexametasona num caso demasiado ligeiro pode enfraquecer as capacidades de combate ao vírus de um paciente. No ensaio RECOVERY do Reino Unido, os pacientes com COVID-19 que não precisavam de oxigénio suplementar morreram mais frequentemente com a dexametasona do que sem ela. Os médicos começaram a dar dexametasona a Trump na manhã de sábado, dois dias depois de o presidente ter alegadamente começado a apresentar sintomas.

(Relacionado: Estes tratamentos promissores para o coronavírus estão a salvar vidas.)

Tendo por base esta linha cronológica, Trump recebeu dexametasona num estágio inicial da doença: no ensaio RECOVERY, os pacientes que receberam dexametasona sete dias após apresentarem os primeiros sintomas não obtiveram muitos benefícios com o uso deste medicamento. “Analisámos os dados e decidimos que preferíamos seguir em frente, em vez de esperarmos e arriscar um caso mais grave”, disse Conley no comunicado que fez na segunda-feira.

Os médicos do presidente acrescentaram que Trump ia continuar os tratamentos na Casa Branca, que tem a sua própria unidade médica. Conley também continuou a evitar duas perguntas: os detalhes sobre os trabalhos de imagiologia aos pulmões de Trump, que podem mostrar sinais de danos ou de pneumonia mesmo quando os sintomas são ligeiros, e a data do seu último teste negativo, que pode sugerir há quanto tempo é que o presidente está infetado.

“Todos nós permanecemos cautelosamente otimistas e vigilantes. Estamos em território desconhecido quando se trata de um paciente que recebeu este tipo de terapia nos estágios iniciais”, disse Conley na segunda-feira. “Aguardamos para ver o que acontece durante este fim de semana. Se conseguirmos chegar até segunda-feira com o presidente a permanecer na mesma, ou até a melhorar, então poderemos dar todos aquele suspiro final de alívio.”

O que são anticorpos monoclonais e como são produzidos?
Os anticorpos são proteínas em forma de Y que o sistema imunitário produz em resposta a um patógeno estranho. Os anticorpos desempenham duas funções vitais: quando são atraídos em número suficiente por um vírus, o invasor não consegue penetrar nas células e multiplicar-se. Os anticorpos também podem assinalar um germe para ser destruído por outras partes do sistema imunitário.

As vacinas funcionam, em parte, persuadindo o corpo a produzir os seus próprios anticorpos. Os tratamentos com anticorpos monoclonais e plasma convalescente introduzem anticorpos no corpo do paciente. O objetivo: dar ao sistema imunitário uma vantagem no seu esforço para identificar e combater uma infeção.

Trump está numa corrida em que o seu sistema imunitário está a competir contra o vírus e, se o vírus vencer, podemos ter consequências terríveis”, disse à CNN na noite de sexta-feira Len Schleifer, o CEO da Regeneron. “O que os nossos anticorpos fazem é tornar a luta mais justa.”

Ao contrário do plasma convalescente – que é um extrato de sangue de pacientes  recuperados de COVID-19 que pode conter uma mistura de vários anticorpos – os anticorpos monoclonais são projetados com muito mais precisão. Estes medicamentos são projetados para evitar que o vírus SARS-CoV-2 se desenvolva no nariz e na boca, antes de se estabelecer nos pulmões e dar origem a um caso mais grave.

“A ideia teórica é a de que nenhum vírus chega aos pulmões”, diz Myron Cohen, médico infeciologista da Universidade da Carolina do Norte-Chapel Hill e colíder da Rede de Ensaios de Prevenção COVID-19 (CoVPN). “O problema não é a infeção nasal, o problema é a infeção respiratória inferior.”

Muitas empresas, como a Eli Lilly, desenvolvem candidatos a anticorpos analisando o sangue de pacientes recuperados de COVID-19. No caso da Regeneron, a empresa usa ratos de laboratório que são projetados para terem um sistema imunitário semelhante ao dos humanos. Este ajuste permite aos investigadores infetar os ratos com SARS-CoV-2 e, de seguida, extrair as células do sistema imunitário humano que produzem anticorpos para o vírus.

Os cientistas avaliam quais são as células que conseguem fazer um tipo único de anticorpo que se liga melhor às proteínas espigão do vírus, as proteínas que são usadas pelo vírus para entrar nas células humanas.

É este processo de triagem que torna os anticorpos “monoclonais”. O objetivo é estabelecer linhas de reprodução distintas – feitas de células clonadas – onde cada uma produz um tipo específico de anticorpo.

Como escreveu recentemente Carolyn Johnson no Washington Post, os bioengenheiros da Regeneron usam células de ovários de hamsters para produzir anticorpos em massa, fermentando-os em tanques enormes e, de seguida, extraindo os anticorpos para a medicina.

O resultado final, o REGN-COV2, contém dois anticorpos monoclonais, e cada um liga-se ao vírus de maneiras ligeiramente diferentes. Da mesma forma que um “cocktail” de antivirais trata efetivamente o VIH, acredita-se que uma dupla de anticorpos tenha mais probabilidades de se ligar ao vírus SARS-CoV-2.

Este tratamento experimental funciona? É seguro? Como foi administrado?
O REGN-COV2 está classificado como terapia experimental porque ainda não se sabe se consegue atacar com segurança a COVID-19. A agência Food and Drug Administration (FDA) dos EUA não emitiu uma autorização de uso de emergência para este tratamento, como fez para o plasma convalescente ou o remdesivir.

Os ensaios clínicos são o padrão de ouro para verificar qualquer tratamento médico no qual os pacientes recebem um medicamento aleatoriamente ou um placebo aparentemente ineficaz. A Regeneron está a executar os primeiros estágios destes ensaios para o REGN-COV2. Mas os resultados completos ainda não foram publicados, deixando alguns especialistas de pé atrás em relação ao seu uso em pacientes, muito menos num líder mundial.

“Os médicos de Trump estão tão preocupados que, mesmo que este tratamento seja prejudicial, ou mesmo que não faça nada, eles usam-no na mesma”, acrescenta Jeremy Faust. “Isto não augura nada de positivo.”

Durante um comunicado feito no dia 29 de setembro para investidores e comunicação social, a Regeneron anunciou os resultados preliminares dos primeiros 275 pacientes de um ensaio clínico em andamento. Nas pessoas que ainda não tinham produzido muitos dos seus próprios anticorpos, uma dose de oito gramas de REGN-COV2 (infundida nas veias) reduziu a quantidade de vírus no nariz dos pacientes. A empresa indicou uma tendência de melhoria nos sintomas, embora estes resultados ainda não sejam estatisticamente significativos. A Regeneron disse que publicaria formalmente os seus resultados o mais rápido possível.

Myron Cohen, que está a fazer parceria com a Regeneron para testar o REGN-COV2 enquanto tratamento preventivo, diz que os anticorpos monoclonais aparentam ser seguros até agora, “e não existam razões para que não o serem”, diz Myron. “Isto está a atacar a proteína espigão do vírus, pelo que temos todos os motivos para acreditar que não interage com os tecidos humanos.”

Mas há uma preocupação com os tratamentos de anticorpos. Em determinadas circunstâncias, estes tratamentos podem aumentar inadvertidamente a capacidade de um vírus se ligar às células humanas, tornando a infeção ainda mais grave.

Até ao momento, este efeito paradoxal no REGN-COV2 – chamado realce dependente de anticorpos (ADE) – não apareceu nos testes com animais, embora os resultados ainda não tenham sido revistos por pares.

Em comunicado, Alexandra Bowie disse que mais de 2 mil pessoas tinham participado nos testes até agora, e um conselho independente que monitoriza os dados não levantou questões de segurança. “A segurança é uma preocupação primordial e estamos sempre a observar com atenção, mas para já as coisas parecem boas.”

Há questões em aberto relativamente à utilização deste tratamento no presidente. Por um lado, os primeiros resultados do ensaio da Regeneron envolveram pacientes que tinham em média 44 anos, três décadas mais jovens do que Trump. A Regeneron diz que ainda não tem dados suficientes para dizer se o medicamento provoca respostas diferentes em grupos de diferentes idades. Mas Myron Cohen supõe que os adultos mais velhos podem beneficiar mais desta medicação porque o sistema imunitário fica mais lento e enfraquece com a idade.

Quais são os outros medicamentos que Trump está a tomar?
Num memorando publicado na sexta-feira, Conley, o médico do presidente, disse que para além do REGN-COV2 Trump estava a tomar uma variedade de suplementos e outros medicamentos.

A vitamina D e o zinco são estimulantes gerais para o sistema imunitário, embora o zinco também tenha ligações com o agora desacreditado tratamento com hidroxicloroquina. Trump também está a tomar uma dose baixa diária de aspirina, que é um medicamento de rotina para pessoas mais velhas para evitar doenças cardíacas – condições pré-existentes que podem piorar os resultados da COVID-19. Trump está neste regime desde pelo menos o seu primeiro exame físico presidencial em 2018.

Para além do REGN-COV2, o regime de cuidados de emergência de Trump inclui três outros medicamentos atualmente em testes, mas que não foram completamente aprovados para uso com a COVID-19. Dois deles – a melatonina, para regular o sono, e o Pepcid, um medicamento para a azia – ainda estão nos estágios iniciais de investigação, mas são considerados redutores de inflamação, uma complicação frequente com esta doença infecciosa.

Trump também está a tomar remdesivir, um antiviral redirecionado que recebeu autorização para uso de emergência por parte da agência FDA. Até agora, os dados clínicos mostram que o remdesivir pode reduzir ligeiramente o tempo de recuperação.

Na conferência de imprensa de segunda-feira, Brian Garibaldi, membro da equipa médica do presidente, disse que Trump iria receber na noite de terça-feira, já na Casa Branca, a sua quinta e última dose de remdesivir.


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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