O que É Preciso Para Ser Astronauta? Eis as Respostas da NASA.

O grupo dos próximos astronautas será selecionado a partir de milhares de candidatos. Alguns deles podem vir a andar na lua ou até mesmo serem os primeiros a pisar Marte.

Publicado 20/10/2020, 16:42
Anne Roemer, responsável pela seleção de astronautas da NASA, com a turma mais recente de candidatos ...

Anne Roemer, responsável pela seleção de astronautas da NASA, com a turma mais recente de candidatos a astronautas selecionados em 2017 de entre mais de 18.000 candidatos. A turma de 2017 formou-se este ano.

 

Fotografia de ROBERT MARKOWITZ, NASA

Os próximos viajantes espaciais da NASA estão a disputar um lugar – aos milhares. Durante um breve período em março, 12.040 candidatos inscreveram-se para serem os futuros astronautas desta agência espacial.

A primeira ronda de entrevistas presenciais, originalmente agendada para finais de setembro ou início de outubro, foi adiada para a primavera de 2021 devido à pandemia, diz Anne Roemer, responsável pela seleção de astronautas da NASA. “Agora, temos mais tempo para examinar as candidaturas.”

Mesmo sem uma pandemia na equação, a escolha de viajantes espaciais da NASA não é um processo simples. Os astronautas precisam de ser disciplinados, mas flexíveis, precisam de ser aventureiros, mas devem levar em consideração os protocolos de segurança, e devem ser capazes de liderar e seguir ordens. Estes candidatos devem possuir um determinado je ne sais quoi – por outras palavras, são os “eleitos”.

Para encontrar os candidatos ideais, Anne Roemer e um painel de astronautas atuais estão a examinar milhares de candidaturas para identificar uma dezena ou mais com a combinação certa de características e experiências, para integrarem o que pode ser o corpo mais exclusivo da Terra. Um dos selecionados pode até vir a ser o primeiro humano a andar em Marte.

Anne Roemer conversou com a National Geographic sobre a forma como a NASA escolhe os seus astronautas, o que procura nos candidatos e o que pensa sobre estar no interior da atual frota de cápsulas espaciais. A entrevista que se segue foi editada por questões de extensão e clareza.

Quantas pessoas espera selecionar para a próxima turma de astronautas?
Nós deixamos sempre algum espaço de manobra para conseguirmos acompanhar o desgaste – quem abandonou a profissão, quem se aposentou, quem nos disse que não queria voar de novo, etc. Eu diria que partimos com uma estimativa aproximada de oito a 12 pessoas, e quanto mais pressionamos para tomar uma decisão, esse número pode aproximar-se mais de uma dúzia.

Como é o processo de seleção?
Nós começamos por rever os materiais escritos nas candidaturas, e essa é a nossa primeira janela sobre cada candidato. Depois, fazemos algumas verificações de referência à medida que reduzimos o número de candidatos. Eventualmente, chegamos a um ponto em que convidamos cerca de 120 pessoas para a primeira ronda de entrevistas. Começamos por fazer algumas análises de aptidões e alguns testes médicos básicos, e depois acabamos por convidar novamente entre 40 a 60 pessoas para uma segunda ronda de entrevistas.

Durante a segunda ronda, os candidatos passam cerca de uma semana connosco. Fazemos alguns exercícios de reação em equipa, exercícios de desempenho individual e várias coisas para avaliar se têm as competências que procuramos para se ser um bom astronauta.

Desta vez, os critérios para as candidaturas foram diferentes – o que mudou, e porquê?
No ciclo de seleção anterior, recebemos mais de 18.000 inscrições. Este ano, exigimos um mestrado. Sempre dissemos que preferíamos um mestrado, mas [desta vez] fomos mais claros porque, quando olhámos para as nossas últimas turmas, não tínhamos selecionado ninguém que tivesse apenas um bacharelato.

O que ajuda um candidato a distinguir-se quando revê 12.000 candidaturas?
Geralmente concentramo-nos na experiência operacional onde os candidatos têm de tomar decisões em tempo real num ambiente de stress relativamente elevado. Nem todas as pessoas têm experiências operacionais no decorrer do seu trabalho diário, mas existem formas de se conseguir isso. Vemos muitas pessoas que vão para a Antártida ou que fazem operações de resgate em áreas selvagens. E muitas delas optam por obter uma licença privada de piloto. O trabalho em equipa e a experiência de liderança ao longo de todo o currículo também são importantes.

Para ser sincera, quando estamos a analisar tantos currículos, são as coisas invulgares que nos chamam a atenção. Damos aos candidatos uma secção para nos falarem sobre os seus passatempos e interesses, e vemos pessoas que fizeram todos os tipos de coisas, seja correr 25 maratonas ou completar 300 mergulhos submarinos.

Quais são alguns dos passatempos mais memoráveis que já encontrou?
Vemos muitas pessoas que procuram esforços atléticos de alto risco. Alguns dos candidatos têm como passatempo belas-artes, para além de serem obviamente muito científicos e de se aplicarem na vertente STEM.

Já vi um pouco de tudo. Provavelmente, um dos currículos preferidos que li – antes de aplicarmos qualquer tipo de triagem – foi uma candidatura de escrita criativa. O candidato tinha-se formado em Hogwarts. E o seu primeiro trabalho tinha sido na SNASA, que era a versão secreta da NASA.

Quais são os traços de personalidade que procura?
As capacidades interpessoais são fundamentais: trabalho em equipa, seguir ordens, liderança, aptidões de comunicação – não só em situações ideais, mas também na forma como comunicam com outras pessoas sob stress. Estamos realmente à procura de tudo isso. Penso que, quando falamos com outros astronautas que já voaram, eles resumem tudo isso com uma pergunta: Será que eu gostaria de voar com aquela pessoa?

Quando se trata de planear missões à lua e no nosso objetivo para chegar a Marte, estamos na realidade a falar de missões de longa duração. Portanto, acho que eles estão a avaliar uma situação onde podem ficar trancados numa lata com uma determinada pessoa e será que se vão sentir seguros? Será que estão em boas mãos? Será que se vão realmente dar bem com essa pessoa e ter uma relação cordial?

Quais são algumas das características que ajudam as pessoas a adaptarem-se melhor às missões de longa duração?
Penso que provavelmente é a paixão que sentem em geral. Vemos muitas pessoas que têm experiência em ambientes extremos e que trabalham bem em equipa mas, se for necessário, também conseguem sobreviver e agir individualmente. Acho que é um pouco de tudo isso.

Há momentos, como numa situação de emergência, em que precisamos de ser a pessoa responsável e a que dá as ordens e impõe respeito. Há outros momentos em que podemos estar a seguir as ordens que o controlo de missão envia. Isto envolve saber como devemos modular o nosso conjunto de aptidões, e talvez até a nossa personalidade, para estarmos preparados para o que é necessário naquele momento.

A equipa que organiza as tripulações de missão diz-lhe se há alguma lacuna em específico que eles estão a tentar preencher?
Sim, na medida do possível. Um exemplo são os pilotos em particular. Embora não estejamos a voar no vaivém espacial, os astronautas ainda dependem muito dos voos no jato T-38 enquanto veículo de formação. Portanto, há um forte desejo de ter vários astronautas pilotos que consigam voar com outros membros da tripulação.

Procura algum tipo específico de formação científica ou em engenharia?
Se regressarmos às missões planetárias ou de superfície, talvez. Na era Apollo, eles sabiam que queriam enviar um geólogo para a superfície da lua. Portanto, acho que é sempre uma possibilidade.

Com o aumento na variedade de naves que os astronautas podem pilotar, isso faz com que as pessoas sejam escolhidas de forma diferente do que se voassem no mesmo tipo de veículo?
Na realidade, não. Do ponto de vista de seleção, a variedade abriu um pouco a janela no que diz respeito à antropometria. Se continuássemos a voar apenas na Soyuz [cápsula espacial russa], teríamos limitações de altura e peso muito rígidas, como o comprimento do fémur dos astronautas. Se forem muito altos, podem carregar acidentalmente em botões que não devem tocar. Portanto, de uma perspetiva de altura e tamanho, ter novamente uma variedade nas naves abriu realmente a porta.

Isso é algo em que eu nunca tinha pensado.
Sim, a Soyuz era provavelmente a que tinha mais restrições. Não sei se você já a viu por dentro, mas eu não entrava naquilo nem que me pagassem um milhão de dólares.

E entraria numa cápsula SpaceX Dragon, agora que estas naves são tripuladas?
Comparada com a Soyuz, parece muito espaçosa. Sou um pouco claustrofóbica, pelo que prefiro estar no chão e poder abrir a janela e sair quando quiser. Estou feliz na Terra.

Quando olha para estes candidatos, pensa que poderão potencialmente ser os primeiros humanos em Marte? Ou essas pessoas já estão no corpo de astronautas?
Provavelmente ambos. Quando olhamos para um regresso à lua em 2024, falamos de alguém que já está connosco. Acho que todos esperamos que alguém da turma mais recente, ou da próxima, seja a primeira pessoa em Marte.


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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