Pegadas Fósseis com 10 Mil Anos Reveladas com Detalhes Incríveis

Um viajante pré-histórico transportou uma criança por uma paisagem lamacenta, regressando algumas horas depois de mãos vazias.

Wednesday, October 21, 2020,
Por Maya Wei-Haas
Há mais de 10 mil anos, uma mulher ou um jovem transportou uma criança por uma ...

Há mais de 10 mil anos, uma mulher ou um jovem transportou uma criança por uma extensão lamacenta onde hoje fica o Parque Nacional de White Sands, no Novo México. As suas pegadas estão a dar aos cientistas da atualidade uma janela para o passado.

Fotografia de NPS E UNIVERSIDADE DE BOURNEMOUTH

Há mais de 10 mil anos, uma mulher ou um jovem – com uma criança apoiada sobre a anca – partiu numa viagem apressada em direção a norte ao longo do atual Parque Nacional de White Sands, no Novo México. O rosto deste viajante pode ter sido atingido pela chuva enquanto os seus pés descalços deslizavam pela lama. Este viajante parou por breves momentos para colocar a criança no chão antes de prosseguir caminho; e um mamute-lanoso e uma preguiça-gigante caminharam pelos seus trilhos frescos. Várias horas depois, o viajante seguiu o mesmo caminho para sul, desta vez sozinho.

Agora, uma equipa de cientistas documentou mais de um quilómetro de pegadas fossilizadas desta aventura de ida e volta – o trilho humano mais longo, desta época, alguma vez encontrado. “Nunca vi nada parecido”, diz Kevin Hatala, biólogo evolucionário da Universidade de Chatham que não participou no estudo.

O trilho contém mais de 400 impressões humanas, incluindo várias impressões infantis minúsculas, conforme descrito num novo estudo publicado na Quaternary Science Reviews. Ao analisar a forma, a estrutura e a distribuição das pegadas, a equipa de investigação revelou uma imagem íntima da caminhada de uma pessoa da antiguidade por esta paisagem, com detalhes dos dedos dos pés a deslizarem pela superfície escorregadia.

Cientistas escavam cuidadosamente as pegadas antigas pressionadas na areia antes de as registarem em 3D. As estruturas são extremamente delicadas e quebram rapidamente quando expostas.

Fotografia de NPS E UNIVERSIDADE DE BOURNEMOUTH

A equipa também descobriu vestígios de um mamute e de uma preguiça-gigante a atravessarem a região depois de os humanos terem passado. O mamute não parecia preocupado com a possível presença de humanos, mas a preguiça-gigante provavelmente apercebeu-se da sua presença. As pegadas da preguiça sugerem que esta recuou sobre duas pernas, possivelmente para farejar a presença humana, semelhante ao comportamento observado nos ursos da atualidade.

“Isto dá-nos uma ideia dos humanos no seu ecossistema da antiguidade”, diz Sally Reynolds, autora do estudo e paleontóloga da Universidade de Bournemouth. Sally refere a aparente perceção que a preguiça teve dos humanos. “Esta é uma imagem que não poderíamos retirar de ossos.”

Pegadas fantasma
As pegadas fósseis são uma dádiva para os cientistas, preservando momentos impressionantes de comportamentos antigos que não podem ser extraídos de outros vestígios. “Os fósseis são obviamente a espinha dorsal da compreensão sobre a vida do passado”, diz o paleoantropólogo William Harcourt-Smith, da Universidade City de Nova Iorque, que não integrou a equipa do estudo. “Mas os sítios arqueológicos de pegadas são especiais porque revelam um momento no tempo.”

Este trilho recém-descoberto faz parte de um esforço que visa documentar o tesouro de impressões antigas do Parque Nacional de White Sands – um empreendimento impulsionado pelas observações cuidadosas de David Bustos,  gestor de programa de recursos do parque. As impressões superficiais são difíceis de detetar, e só são reveladas por leves alterações na humidade, que provocam ligeiras mudanças na cor.

“Ele reparou que estas pegadas fantasma, estes trilhos, continuavam a aparecer”, diz Sally Reynolds sobre as observações de David Bustos.

Em 2016, David falou com vários especialistas sobre os trilhos, incluindo o primeiro autor do novo estudo, Matthew Bennett, geólogo da Universidade de Bournemouth. Desde então, Matthew e colegas fizeram várias viagens até White Sands para documentarem uma variedade de impressões – tanto de humanos como de animais – em cada secção do parque.

As pegadas deste novo estudo foram comprimidas em areia fina, e é uma fina crosta de sal que consegue manter a sua forma unida, diz Sally. A equipa escavou cuidadosamente 140 trilhos, usando uma escova para revelar as estruturas delicadas. No entanto, estas formas frágeis quebram-se rapidamente quando são expostas, pelo que a equipa registou todas as impressões com uma série de fotografias para construir um modelo tridimensional, uma técnica conhecida por fotogrametria 3D.

“Assim que as expomos, começa uma corrida contra o tempo para as registarmos... antes de desaparecerem”, diz Sally.

Pegadas minúsculas
Ao estudar a forma, o tamanho e a distribuição das pegadas, os investigadores tentaram discernir o que aconteceu durante esta caminhada da antiguidade por solo lamacento. O responsável principal pelos trilhos pode ter sido uma rapariga de 12 anos ou mais, ou possivelmente um rapaz, com base na comparação do comprimento das pegadas com as dos humanos modernos. Em pelo menos três pontos ao longo deste trajeto, pegadas minúsculas juntam-se ao trilho principal, evidências de uma criança com menos de três anos.

O espaçamento das pegadas sugere que esta pessoa estava a viajar a cerca de seis quilómetros por hora. Apesar de não ser uma velocidade de corrida, era um ritmo apressado, considerando as condições lamacentas e a carga pesada, diz Kevin Hatala.

Em algumas zonas, as passadas do viajante eram invulgarmente longas, como se estivessem a pisar ou a saltar um obstáculo. “Podiam ser poças de água”, diz Sally. “Ou podiam ser dejetos frescos de mamute.”

Mas a criança só foi transportada numa direção. Durante a viagem para norte, os rastos do pé esquerdo são ligeiramente maiores, podendo ser o resultado do transporte da criança apoiada na anca. Entre as pegadas em direção a norte também há detalhes dos dedos do pé do viajante a deslizarem na superfície lamacenta, momentos em que o pé se arrasta para criar uma impressão em forma de banana. No entanto, quando regressou para sul, esta diferença de tamanho nos trilhos não é aparente e o deslizamento é muito menos frequente, sugerindo que o caminhante já não transportava peso adicional.

Os investigadores já tinham sugerido que as diferenças nas impressões dos pés esquerdo e direito podiam ser evidências de transporte de carga, mas era especulação. O novo estudo oferece agora mais algumas evidências: “Neste caso específico, vemos as pegadas de uma criança que aparecem de repente a meio do caminho”, diz Kevin.

As pegadas de animais ajudaram a equipa a estimar quando é que o aventureiro atravessou este terreno. Após a viagem para norte, o mamute e a preguiça-gigante atravessaram o trilho acabado de fazer, enquanto que as pegadas do humano para sul intersetam as dos animais. Esta sobreposição revela que todas as impressões foram estabelecidas poucas horas antes de a lama ter secado por completo. A presença destas criaturas agora extintas ao lado de humanos sugere que esta caminhada aconteceu há pelo menos 10 mil anos.

‘Tal como nós’
Em 2017, Sally Reynolds, que é casada com Matthew Bennett, estava grávida em casa quando o marido lhe telefonou para dar as notícias sobre a longa série de pegadas. “Ele estava na lua”, diz Sally. Eles estavam particularmente entusiasmados com a presença de uma criança no caminho. “Estas pegadas minúsculas eram muito inesperadas”, diz Sally. As pegadas foram batizadas com o nome de “trilho de Zoe”, o nome que tinham planeado dar à sua filha.

Ainda há muitas incógnitas sobre este aventureiro da antiguidade. Para onde se dirigia? Qual era o propósito da caminhada? O que aconteceu à criança?

Quem fez as pegadas parecia conhecer bem o trajeto, diz Sally. “Talvez estivesse a seguir um caminho para o acampamento de outra família ou grupo de caça. Não parecem ter existido momentos de hesitação ou sinais de estar perdido.” Mas o destino desta jornada permanece desconhecido, uma vez que as impressões seguem na direção onde agora fica a Base de Mísseis de White Sands, que está interdita aos investigadores.

O comportamento registado nos trilhos talvez não seja surpreendente, diz William Harcourt-Smith. Era normal os humanos levarem crianças ao colo: “Todas as culturas fazem isso; os macacos fazem isso.” Mas, ao mesmo tempo, sentimos alguma proximidade e identificamo-nos com esta descoberta.

“Isto serve para nos lembrar que estas pessoas eram exatamente como nós. Talvez enfrentassem desafios diferentes no seu quotidiano – não temos mamutes a andarem por aí – mas andavam pela paisagem da mesma forma que o faríamos”, diz William.

A equipa de investigação continua o seu trabalho no Parque Nacional de White Sands, tentando apurar uma visão sobre os antigos habitantes desta região. “Estas pegadas são pequenos retratos da vida na antiguidade, das atitudes em relação a outros animais, e de paisagens que nunca pensámos ter acesso”, diz Sally. Com o passar do tempo, mais histórias – e certamente mais mistérios – serão descobertos.


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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