Quem Infetou o Presidente Trump? Esta Ferramenta Genética Consegue Identificar Facilmente a Fonte.

Se as autoridades da Casa Branca quiserem encontrar a origem do surto, podem usar a genómica viral para identificar a fonte e o local. Mas o tempo está a esgotar-se rapidamente.

Tuesday, October 13, 2020,
Por Lois Parshley
Amy Coney Barrett (à direita na imagem), juíza do Sétimo Circuito de Tribunais dos EUA, discursa ...

Amy Coney Barrett (à direita na imagem), juíza do Sétimo Circuito de Tribunais dos EUA, discursa depois de o presidente Donald Trump anunciar que ela será a sua nomeada para o Supremo Tribunal no Rose Garden da Casa Branca, no dia 26 de setembro de 2020, em Washington D.C. A 38 dias das eleições, Trump escolheu Amy Barrett para ser a sua terceira nomeada para o Supremo Tribunal em apenas quatro anos, e para substituir a falecida Ruth Bader Ginsburg.

Fotografia de Chip Somodevilla, Getty Images

Com o aumento de casos de COVID-19 na Casa Branca, os especialistas apelam ao rastreamento clássico de contactos para identificar quem pode estar em risco. Mas estas investigações podem ir ainda mais longe, recorrendo a uma técnica chamada sequenciamento de genoma viral. Esta técnica, muito usada no rastreio de doenças, pode responder à questão de quando e como é que o próprio presidente Donald Trump foi exposto.

Grande parte desta investigação centra-se num evento que decorreu no dia 26 de setembro no Rose Garden da Casa Branca, onde o presidente anunciou a nomeação da juíza Amy Coney Barrett para a vaga no Supremo Tribunal. O encontro foi descrito como um evento de “super-propagação” de vírus, dado que pelo menos uma dúzia de convidados apresentou resultados positivos desde então. Isto deu origem a um debate sobre se a Casa Branca fez o suficiente para rastrear os participantes; os convidados não foram notificados com antecedência, e o envolvimento dos Centros de Controlo e Prevenção de Doenças (CDC) dos EUA foi restringido. Entretanto, de acordo com um memorando da Agência Federal de Gestão de Emergências publicado no dia 7 de outubro, o grupo de contágio continua a aumentar e, até agora, 34 funcionários da Casa Branca e “outros contactos” estão infetados com o novo coronavírus, juntamente com o presidente, a primeira-dama, um almirante da Marinha e vários auxiliares da campanha eleitoral.

Mas Trump e a sua equipa podem ter estado expostos antes da cerimónia de nomeação de Amy Barrett, dado que o distanciamento social e o uso de máscara nem sempre são respeitados nos eventos de campanha de Trump. Recorrer ao sequenciamento de genoma viral pode não só ajudar as autoridades de saúde pública a esboçarem uma linha cronológica de como a doença se propagou, como também pode ajudar a descobrir se os afetados estiveram expostos em vários momentos e locais da campanha eleitoral, ou se estiveram todos expostos ao mesmo tempo.

Eis como este processo pode funcionar. O vírus que provoca a COVID-19 tem um genoma baseado em RNA que, tal como o ADN, é formado por uma sequência de “letras” químicas chamadas nucleótidos. À medida que o coronavírus invade as células de uma pessoa e se multiplica, comete naturalmente erros ao replicar o seu código genético, trocando algumas das referidas letras. “Imagine ter de copiar 30 mil letras à mão”, diz Stephanie Spielman, professora assistente de ciências biológicas na Universidade Rowan. “Podemos cometer um erro, e isso é uma mutação.”

(Relacionado: Por que razão as mutações deste coronavírus não são motivo para alarme.)

 

Um membro da equipa de limpeza da Casa Branca pulveriza um desinfetante na sala de Conferências de Imprensa James Brady, em Washington, na segunda-feira dia 5 de outubro de 2020.

Fotografia de Anna M​oneymaker, The New York Times via Redux

Assim que surge uma mutação, essa mutação permanece nas cópias futuras, criando uma linhagem chamada variante. Basta usar zaragatoas em vários narizes infetados, comparar as variantes e é possível rastrear a origem.

“Se tivermos grupos de pessoas com sequências semelhantes, isso é um forte indicador de que tiveram uma fonte comum”, diz Joshua Michaud, diretor associado de Política de Saúde Global da Fundação Família Kaiser. Este procedimento pode até identificar onde é que o contingente de Trump contraiu o coronavírus. (A National Geographic contactou a Casa Branca para comentar, mas não obteve resposta.)

O tempo é importante tanto para o rastreio de contactos como para o sequenciamento do genoma. Encontrar rapidamente os indivíduos que podem expor outras pessoas à infeção é fundamental para interromper as cadeias de transmissão. Um artigo publicado recentemente no The Lancet descobriu que a redução no tempo de rastreio de contactos após um teste positivo pode prevenir até 80% das novas infeções. É por isso que 10 departamentos de saúde na região da capital norte-americana – incluindo o Distrito de Colúmbia – tomaram a atitude invulgar de emitir uma carta aberta onde imploram a todos os funcionários da Casa Branca e às pessoas que participaram no evento de Rose Garden para procurarem orientação médica e fazer um teste à COVID-19.

Para o sequenciamento viral, “as amostras precisam de ser recolhidas enquanto as pessoas ainda estão ativamente infetadas”, explica Joshua Michaud. Mas ainda não é tarde demais para se tentar descobrir o que aconteceu de errado na Casa Branca.

Rastreio de vírus através de genes
O grupo de contágio da Casa Branca pode continuar a crescer – como uma teia de aranha em constante expansão – porque o coronavírus propaga-se facilmente e porque 9 em cada 10 americanos continuam suscetíveis ao vírus. Como o evento no Rose Garden envolveu mais de 150 pessoas, muitas das quais envolvidas nas inúmeras exigências sociais de uma campanha presidencial, os especialistas dizem que milhares de pessoas podem ter sido expostas quando os convidados regressaram às suas casas – dado que vivem em pelo menos 20 estados diferentes.

Mas no centro desta teia está a primeira pessoa que adoeceu, conhecida por caso índice. Embora as previsões dos modelos matemáticos revelem que uma pessoa infetada com o coronavírus o pode normalmente propagar por uma média de duas a três outras pessoas, os estudos de campo mostram que 10 a 20% dos casos podem ser responsáveis por até 80 a 90% de toda a cadeia de transmissão do coronavírus. Por outras palavras, os “super-propagadores” – casos que infetam mais de três pessoas – são normais.

“Na Nova Zelândia, dois focos recentes foram investigados através do sequenciamento de genoma, indicando uma tampa de um caixote do lixo e um botão de elevador como as fontes mais prováveis de transmissão.”

O sequenciamento viral já foi usado para decifrar incidentes de “super-propagação” noutras partes do mundo com grande sucesso. Na Nova Zelândia, por exemplo, dois focos recentes foram investigados através do sequenciamento de genoma, juntamente com rastreio de contactos e entrevistas, apontando eventualmente para uma tampa de um caixote do lixo e um botão de elevador como as fontes mais prováveis de transmissão. Outro dos exemplos vem da Alemanha, onde se descobriu que uma pessoa numa unidade de processamento de carne infetou mais de 60% dos seus colegas de trabalho em distâncias de mais de sete metros.

Esta técnica é particularmente útil em surtos onde podem existir várias fontes de transmissão, sejam locais de trabalho, voos ou em lares de idosos. Por exemplo, num estudo feito pelo CDC sobre um voo comercial australiano, nove passageiros tinham partido recentemente de um navio de cruzeiro onde se detetou um surto de coronavírus. Dois dias após o voo, outros 11 passageiros desenvolveram sintomas e testaram positivo para a COVID-19. O sequenciamento de genoma mostrou que a variante do vírus era a mesma no cruzeiro e no voo – e era uma variante completamente nova na Austrália.

Os estudos também mostram que o sequenciamento de genoma, quando usado com o rastreio clássico de contactos, pode tornar as intervenções mais precisas, ajudando a reduzir efetivamente os casos de transmissão. Num estudo feito em seis lares de idosos em Londres, onde 40% dos residentes estavam infetados, os sequenciadores de genoma identificaram que os residentes e funcionários assintomáticos estavam a agir como potenciais reservatórios, informações que levaram ao aumento de testes mesmo em pessoas que não pareciam doentes.

(Relacionado: Por que motivo existem sequer casos assintomáticos de COVID-19?)

 

“Existem focos distintos em Wisconsin, bem como em Washington e no Texas.”

por EMMA HODCROFT, UNIVERSIDADE DE BASILEIA, SUÍÇA

A genética também pode esclarecer como é que o vírus se está a mover pelos EUA – e pode apontar onde é que o presidente foi exposto. Emma Hodcroft, epidemiologista molecular da Universidade de Basileia, na Suíça, diz que algumas variantes do coronavírus podem ser rastreadas até estados específicos do país, ou até mesmo a condados. “Por exemplo, existem focos distintos em Wisconsin, bem como em Washington e no Texas.” Com o histórico de viagens do presidente, ou a lista de contactos, o sequenciamento de genoma pode potencialmente ligar a sua infeção a um determinado local. Em geral, o uso mais amplo do sequenciamento pode dizer às autoridades locais quem está a propagar o vírus “entre estados, entre cidades ou até mesmo dentro das cidades”, acrescenta Emma.

Por exemplo, a análise de 84 genomas SARS-CoV-2 no estado do Arizona revelou que durante fevereiro e março o vírus foi introduzido pelo menos 11 vezes neste estado. Mas nenhum destes focos de COVID-19 foram vinculados ao primeiro caso conhecido relacionado com as viagens dentro do Arizona, sugerindo que o confinamento precoce e a quarentena do primeiro caso conseguiram conter a transmissão. O estudo também descobriu que 80% das sequências descendem de variantes europeias, sugerindo que a interdição de viagens vindas da China não impediu a propagação precoce da doença no Arizona.

Se as autoridades da Casa Branca decidirem usar o sequenciamento genético, como foi pedido pelos especialistas, seria possível determinar uma forma mais adequada para impedir que o vírus se propague entre os líderes políticos do país.

Em relação aos 12 casos positivos do evento em Rose Garden, uma investigação de genómica poderia determinar as ações de rastreio de contactos. Se todas as pessoas tiverem a mesma variante viral, provavelmente foram expostas nesse evento pela primeira vez, e o ideal seria rastrear todos os contactos desde essa data. Mas se tiverem múltiplas variantes, isso pode significar que mais de uma pessoa levou COVID-19 para a Casa Branca – e muito mais pessoas precisariam de ser rastreadas.

Se não for possível rastrear, é preciso isolar
As questões que permanecem em aberto giram em torno da frequência com que o próprio presidente foi testado antes de contrair o coronavírus, ou quando o seu último teste deu negativo. Mas Marm Kilpatrick, investigador de doenças infecciosas da Universidade da Califórnia, em Santa Cruz, diz que o mais importante a reter desta situação é que não podemos simplesmente presumir que estamos bem depois de um resultado negativo.

Esta lição é ilustrada pela forma como o coronavírus contornou a vigilância sanitária de um dos edifícios mais seguros dos Estados Unidos – e por que razão os contactos potenciais do surto de Rose Garden precisam de isolamento durante 14 dias, independentemente de os testes serem positivos ou não.

A Casa Branca estava a contar com os testes rápidos dos Laboratórios Abbott, que receberam autorização de emergência da agência Food and Drug Administration dos EUA para uso em pessoas que exibiram sintomas durante cerca de sete dias. Mas a administração usou estes testes para fazer a triagem de todas as pessoas – incluindo os convidados que não apresentavam sinais aparentes de COVID-19.

Marm Kilpatrick diz que o problema reside no facto de o vírus se replicar exponencialmente dentro do corpo nos primeiros dias. Mesmo que a Casa Branca tivesse usado os testes de PCR mais sensíveis – que medem diretamente o material genético – as pessoas com baixos níveis de vírus ainda poderiam passar despercebidas. Para além disso, ainda não se sabe como é que a quantidade de coronavírus presente numa pessoa, conhecida por carga viral, varia desde o início da infeção até à fase contagiosa, incluindo o período de recuperação. E a probabilidade de testes positivos também depende se as amostras são retiradas do nariz, da garganta e da coleção aleatória de células que uma zaragatoa consegue recolher.

“Depois da semana que passou, devia ser óbvio que a dependência apenas de testes para prevenir a transmissão não é muito fiável”, diz Joshua Michaud. “Há outras medidas que são necessárias, como o uso de máscara, distanciamento social e os períodos de quarentena.”

Para dificultar ainda mais as coisas, o CDC estima que 50% da propagação do coronavírus acontece antes do aparecimento de sintomas, e há surpreendentemente poucos dados sobre a quantidade de carga viral que uma pessoa precisa de ter para ser infecciosa. Podem demorar entre dois a 14 dias para os sintomas começarem após a infeção, mas em média o período de incubação é de cerca de cinco dias. Contudo, Marm Kilpatrick e os colegas descobriram recentemente que, se o período de incubação for mais longo, o período infeccioso começa mais cedo em relação aos sintomas, o que significa que há mais dias em que uma pessoa assintomática pode infetar outras pessoas.

Marm Kilpatrick diz que, “levando tudo em consideração, não sabemos quais são as probabilidades de um teste identificar corretamente quando é que as pessoas são infecciosas”. Um teste negativo mostra o momento em que se recolhe uma amostra com uma zaragatoa, mas este cenário pode mudar numa questão de horas. Este momento é particularmente relevante para o presidente norte-americano poder retomar com segurança as suas aparições públicas.

Portanto, com as limitações apresentadas pelos testes e na ausência de um rastreio de contactos para o evento de Rose Garden, Marm Kilpatrick diz que é importante os convidados da Casa Branca se lembrarem que “um resultado negativo nos testes não faz com que o risco de transmissão seja zero – e era com isso que Trump estava a contar”.

Marm Kilpatrick diz que as pessoas se interrogam porque é que Trump foi infetado. “Mas, levando tudo em consideração, a pergunta correta seria: Como é que ele não foi infetado antes?”


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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