Revelados os Primeiros Fósseis de Embriões de Tiranossauro

Novos exames de um maxilar e garra do Cretáceo minúsculos mostram que os pequenos tiranossauros começavam a vida do tamanho de um pequeno cão.

Published 22/10/2020, 14:56 WEST, Updated 5/11/2020, 05:59 WET
Esta ilustração mostra a aparência das crias de Tyrannosaurus rex. Os fósseis embrionários recém-descritos não pertenciam ...

Esta ilustração mostra a aparência das crias de Tyrannosaurus rex. Os fósseis embrionários recém-descritos não pertenciam ao T. rex, mas sim a uma espécie anterior de tiranossauro relacionado que ainda não foi identificado.

Fotografia de JULIUS CSOTONYI (ILUSTRAÇÃO)

Os primeiros fósseis conhecidos de crias de tiranossauro revelam que alguns dos maiores predadores que já caminharam pela Terra começavam a sua vida do tamanho de um Chihuahua – com uma cauda muito longa.

Os fósseis – uma garra de um pé e um maxilar inferior – pertencem a tiranossauros ainda em estágio embrionário, quando estes dinossauros ainda estavam confortavelmente em desenvolvimento no interior dos seus ovos. Encontrados em diferentes locais de fósseis no oeste da América do Norte, ambos datam de há cerca de 71 a 75 milhões de anos, quando os tiranossauros tinham acabado de se tornar no predador de topo no seu ambiente.

A garra foi descoberta em 2018 na Formação de Horseshoe Canyon, nas terras da Primeira Nação, em Alberta. O maxilar também foi encontrado em terras indígenas, na Formação Two Medicine de Montana em 1983. Ambos foram descritos na semana passada por Gregory Funston, paleontólogo da Universidade de Edimburgo, na reunião anual da Sociedade de Paleontologia de Vertebrados que se realizou virtualmente.

A importância dos ossos não foi imediatamente percetível quando foram descobertos. Gregory Funston, estudante de pós-graduação em Alberta, estava a investigar a identidade da garra quando o seu orientador, Philip Currie, lhe mostrou um pedaço de maxilar envolto em pedra, um fóssil que era demasiado delicado para se remover da rocha. “Eu não estava convencido de que era um tiranossauro”, diz Gregory. Mas depois de uma análise 3D e posterior reconstrução para revelar todos os detalhes do maxilar, Gregory mudou de ideias.

Na parte inferior da imagem vemos uma reconstrução em 3D do maxilar do tiranossauro embrionário, comparada com os ossos dos maxilares de outros tiranossauros conhecidos. A imagem mostra o maxilar ampliado 10 vezes para comparar a escala com as outras imagens, e a pequena silhueta a negro mostra o tamanho do espécime em comparação com os outros maxilares.

Fotografia de Gregory Funston, 2020

Evan Johnson-Ransom, paleontólogo da Universidade Estadual de Oklahoma que não participou na investigação, concorda que os ossos são “diagnosticáveis e discerníveis” de outros dinossauros. O maxilar, em particular, faz lembrar os dos tiranossauros conhecidos.

“Percebemos que tínhamos a possibilidade de aprender muito sobre as crias de tiranossauro, que até então eram um mistério”, diz Gregory Funston. A maior parte do registo fóssil de tiranossauros consiste em animais jovens adultos ou mais velhos. Os paleontólogos fizeram reconstruções especulativas sobre as crias de tiranossauro, mas ninguém sabia exatamente como eram. A garra e o maxilar permitiram finalmente aos especialistas comparar o registo fóssil com as suas teorias.

Bebé tirano
Os novos fósseis revelam que as crias de tiranossauro eram minúsculas em comparação com os adultos – cerca de um décimo do tamanho dos tiranossauros crescidos. Por exemplo, uma cria de elefante tem cerca de um quarto da altura de um elefante adulto. O maxilar pertencia a um tiranossauro com cerca de 75 centímetros de comprimento, e a garra pertencia a um animal com pouco mais de 90 centímetros de comprimento.

Embora uma cria com quase um metro de comprimento possa parecer grande para os nossos padrões, os dinossauros eclodiam incrivelmente pequenos ao lado dos adultos, que atingiam os nove metros de comprimento e pesavam quase três toneladas. O maxilar tem dentes minúsculos que correspondem ao que os especialistas denominam de “dentes de geração nula”, ou os primeiros dentes que rapidamente são substituídos por um conjunto completamente funcional à medida que os animais crescem.

Com os seus pequenos maxilares e dentes em forma de lâmina, as crias de tiranossauro provavelmente comiam insetos e lagartos. Os animais que caçavam continuavam a mudar conforme os dinossauros cresciam. Os espécimes de T. rex, por exemplo, indicam que estes carnívoros, quando atingiam os 11 anos de idade, atacavam pequenos dinossauros – e quando chegavam aos 22 anos de idade, conseguiam esmagar os ossos de grandes herbívoros e até mesmo de outros tiranossauros.

“Os tiranossauros embrionários dão-nos uma ideia não só sobre o tamanho de uma cria, mas também sobre o tamanho dos ovos dos tiranossauros”, diz Evan Johnson-Ransom. Ainda ninguém conseguiu identificar positivamente ovos ou crias de tiranossauro, mas o tamanho dos novos dinossauros embrionários está alinhado  com o tamanho de ovos grandes e alongados que os paleontólogos já encontraram anteriormente. A julgar pelo tamanho dos embriões, os investigadores acreditam que os tiranossauros ficavam enroscados nos ovos, que medem cerca de 40 centímetros de comprimento.

À procura de pequenos fósseis
Os novos fósseis oferecem aos investigadores algumas pistas para procurarem mais tiranossauros embrionários e recém-nascidos. Até agora, os investigadores estavam perplexos em relação ao motivo pelo qual ainda não tinham sido encontrado jovens tiranossauros. Não se sabia se as mães de T. rex faziam ninhos em lugares diferentes, ou se alguma outra coisa estava a obscurecer os sinais da sua prole, apesar de os paleontólogos já terem descoberto ovos e crias de outras espécies, como os dinossauros de bico de pato.

Aparentemente, os tiranossauros estavam escondidos à vista de todos. Tanto a garra como o maxilar foram descobertos em locais onde ovos e ossos de outras espécies já tinham sido encontrados.

“Considerando que encontrámos ambos os ossos embrionários em sítios onde já tínhamos encontrado ossos embrionários de outros tipos de dinossauros, isso dá-nos uma boa indicação de que os tiranossauros faziam ninhos nas mesmas áreas que outras espécies”, diz Gregory Funston.

Os paleontólogos costumam recolher vários espécimes numa incursão, mas não têm tempo para os estudar em detalhe naquele ponto, pelo que podem existir outros fósseis de crias de tiranossauro escondidos em coleções de museus. “Esperamos que estes novos ossos ajudem a refinar a procura por fósseis adicionais”, diz Gregory, que também planeia investigar locais conhecidos para obter mais materiais com a sua equipa.

“Em alguns locais só descobrimos a ponta do icebergue”, acrescenta Gregory, “e todos os anos estamos a encontrar cada vez mais”.


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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