Salto Surpreendente na Tecnologia Humana da Antiguidade Ligado a Alterações Ambientais

As evidências apresentadas por um núcleo de sedimentos revelam os fatores críticos que podem ter dado origem a comportamentos incrivelmente complexos, há cerca de 320.000 anos, na época em que surgiram os primeiros membros da nossa espécie.

Monday, October 26, 2020,
Por Maya Wei-Haas
Para compreender o pano de fundo ecológico que levou a uma alteração dramática no comportamento humano ...

Para compreender o pano de fundo ecológico que levou a uma alteração dramática no comportamento humano da antiguidade, uma equipa de investigadores trabalhou com uma empresa de Nairobi para perfurar o leito de um antigo lago, a cerca de 25 quilómetros de onde foi encontrada uma variedade surpreendente de ferramentas de pedra. Com o envolvimento e o apoio dos Museus Nacionais do Quénia e da comunidade local de Oldonyo Nyokie, os investigadores recolheram um núcleo de 140 metros de comprimento que abrange quase um milhão de anos de história.

Fotografia de Human Origins Program, Smithsonian

Durante 700.000 anos, os antigos parentes da nossa espécie em África Oriental tiveram vidas bastante estáveis, dependendo de um conjunto duradouro de aptidões e estratégias de sobrevivência. Estes seres fizeram machados simples com pedras encontradas nas proximidades, e podem tê-los usado para fatiar animais, cortar ramos de árvores ou para cavar tubérculos.

Porém, há cerca de 320.000 anos – mais ou menos na mesma época das evidências fósseis mais antigas de Homo sapiens – estes primeiros humanos mudaram drasticamente os seus hábitos e começaram a criar objetos mais pequenos e ágeis, que podiam ser arremessados como projéteis, alguns feitos de obsidiana recolhida a muitos quilómetros de distância. E recolhiam pigmentos vermelhos e pretos – substâncias que mais tarde os humanos iriam usar frequentemente de formas simbólicas, para fazer pinturas rupestres, por exemplo.

Agora, um novo estudo publicado na Science Advances sugere que uma das principais razões para esta mudança repentina no comportamento está no subsolo: atividade tectónica que fragmentou a paisagem.

Os cientistas há muito que apontam as alterações no clima, como por exemplo o início de períodos húmidos ou secos, como a principal força motriz para a adaptação dos nossos antepassados primordiais. Este novo estudo testa essa teoria examinando um registo detalhado das alterações ambientais ao longo de quase um milhão de anos, alterações que ficaram gravadas num núcleo de 140 metros de comprimento que contém camadas de sedimentos extraídas de um antigo lago.

Durante cerca de 700.000 anos, os antigos humanos na região de Olorgesailie usaram enormes ferramentas feitas com pedras encontradas nas redondezas. Contudo, há 320.000 anos, estas ferramentas mudaram completamente. Os objetos tornaram-se muito mais pequenos e podem ter sido fixados em projéteis. Para algumas destas ferramentas foi usada obsidiana, que consegue produzir arestas excecionalmente afiadas, mas a obsidiana precisava de ser obtida a quilómetros de distância. Os primeiros humanos também começaram a usar pigmentos coloridos nessa época, sugerindo indícios de uma comunicação simbólica.

Fotografia de HUMAN ORIGINS PROGRAM, SMITHSONIAN

O registo geológico do lago revela várias alterações ecológicas na mesma época em que as novas tecnologias aparecem no registo arqueológico. Um clima variável e uma paisagem em constante mudança causaram um fluxo e refluxo de recursos alimentares e hídricos, que outrora eram estáveis, podendo ter afetado dramaticamente a vida dos primeiros humanos em África Oriental, forçando-os a inovar e a adaptarem-se.

“A adaptabilidade é, creio eu, a característica basilar da nossa espécie”, diz Rick Potts, autor principal do estudo e paleoantropólogo do Museu Nacional de História Natural Smithsonian.

A flexibilidade do Homo sapiens face a novos desafios pode ter sido uma das razões vitais para a espécie ter sobrevivido mais tempo do que outros hominídeos. O que outrora era uma árvore genealógica retorcida de diferentes tipos de humanos – Denisova, neandertais, Homo erectus e outros – acabou por divergir para um único ramo. “Somos os últimos bípedes que restam, como gosto de nos chamar”, diz Rick.

Como é óbvio, há muitos mistérios por desvendar sobre as origens da nossa espécie. Os autores do estudo referem que o seu trabalho não consegue identificar a origem dos comportamentos modernos, ou o local de onde o Homo sapiens surgiu. Mas esta investigação oferece uma visão extremamente detalhada das alterações nas paisagens da antiguidade que prepararam o terreno para o desenvolvimento de alguns comportamentos fundamentalmente humanos.

‘O mundo desabou’
A reconstrução deste estudo sobre as antigas condições ambientais centra-se numa bacia conhecida por Olorgesailie, no sul do Quénia, que foi escavada pela primeira vez na década de 1940 pelos paleoantropólogos britânicos Mary e Louis Leakey. Rick Potts começou a trabalhar neste local quando se juntou ao Instituto Smithsonian em 1985. “Achei que era um projeto para durar cerca de três anos. Mas já vai na sua terceira década.”

Os avanços nas técnicas de datação revelaram que Olorgesailie continha uma variedade de ferramentas de hominídeos que datam de há cerca de 1.2 milhões de anos. Mas, à medida que os investigadores foram examinando cuidadosamente as camadas de sedimentos depositadas ao longo do tempo, depararam-se com uma incongruência. “Estavam em falta 180.000 anos”, diz Rick.

Há cerca de 500.000 anos, o movimento ao longo de enormes fraturas remodelou a paisagem. O que antigamente era uma bacia tornou-se num ponto elevado de terra, ficando exposto ao vento e à água que erodiu até um ponto em branco no registo geológico, há cerca de 320.000 anos. Durante este intervalo, diz Rick, “o mundo desabou e algo mudou profundamente no comportamento dos hominídeos”.

Os vislumbres sobre a vida dos nossos antepassados revelam que estes eram surpreendentemente avançados para uma era tão antiga. As suas ferramentas eram diversas e muito mais compactas, incluindo pequenas pontas de pedra triangulares que podiam ser usadas como projéteis. “As coisas começaram grandes e desajeitadas e tornaram-se pequenas e portáteis”, diz Rick sobre as alterações. “É uma espécie de história da tecnologia desde então.”

O mundo em torno destes primeiros humanos também se transformou. Antes de esta alteração no comportamento humano, animais de grande porte pastavam pela região – “cortadores de relva do Pleistoceno”, diz Rick – incluindo o Palaeoloxodon recki, um dos maiores elefantes que já caminhou pela Terra; o Theropithecus oswaldi, um parente gigante dos atuais babuínos africanos; e o Hippopotamus gorgops, um primo antigo e robusto dos hipopótamos. Mas, há 320 mil anos, cerca de 85% das espécies de mamíferos desta região desapareceram, e uma coleção de criaturas modernas com corpos mais pequenos surgiu no seu lugar.

Em setembro de 2012, para compreender melhor os catalisadores responsáveis por esta mudança, a equipa de investigadores começou a perfurar uma planície que outrora continha um antigo lago, perto do local de estudo. “Foi muito trabalho de especulação, mas especulámos bem”, diz Rick sobre o local de perfuração.

A equipa retirou um núcleo de lama do lago, com 140 metros de comprimento, que apresentava camadas de cinza vulcânica que ajudaram a datar os segmentos em pontos específicos no tempo. O núcleo abrange um período desde há aproximadamente um milhão de anos até há 83.000 anos – incluindo os 180.000 anos em falta.

O tempo em falta
Com uma bateria de testes, os investigadores desvendaram a complexa história da paisagem, que foi pontuada por agitação tectónica. A região está situada na zona do Rifte de África Oriental, onde a placa tectónica continental se está a dividir em dois pedaços. À medida que a terra se estende, estica e quebra, formando novos vales e colinas onde antigamente havia uma extensão plana – e um período-chave desta divisão começou há cerca de 500.000 anos, de acordo com investigações anteriores.

Os vales recém-formados exacerbaram todas as mudanças com as chuvas, de acordo com a análise da equipa, provocando oscilações frequentes entre o solo inundado e o solo seco, começando há cerca de 400.000 anos. A vegetação também oscilou descontroladamente à medida que a disponibilidade de água aumentava. Estas condições em constante mutação deram provavelmente início ao salto no comportamento dos hominídeos, diz Rick.

“A disponibilidade de água é essencial para a sobrevivência”, diz Kristin Krueger, paleoantropóloga da Universidade Loyola que não participou no estudo. “Se isso mudar, os organismos têm três escolhas básicas: migração, adaptação ou extinção.”

Com a escassez ou fluxo de recursos, os antigos humanos provavelmente foram forçados a viajar distâncias maiores. “Será que isso fez com que descobrissem diferentes tipos de recursos? Será que deu origem a uma maior cooperação com outros grupos para sobreviverem? Será que levou a avanços na tecnologia para se sustentarem?”, pergunta Kristin Krueger. “Estas são as questões que este estudo está a explorar.”

Existe muito entrelaçamento nos ramos da árvore genealógica dos hominídeos, e as ligações entre cada um parecem tornar-se mais complicadas à medida que os investigadores encontram mais pistas. Uma das partes complicadas da história de Olorgesailie recai sobre a ausência de restos mortais humanos, diz John Stewart, paleoecologista evolucionário da Universidade de Bournemouth, que também não participou no estudo. “Podemos ter mais coisas a acontecer do que conseguimos observar”, diz John.

Estudar a ecologia antiga noutros locais de África pode ajudar os investigadores a compreender melhor os fatores que podem ter impulsionado a evolução dos hominídeos ao longo do tempo, diz Isaiah Nengo, paleontólogo do Instituto Turkana Basin da Universidade Stony Brook, que não participou no novo estudo. Isaiah está a liderar uma equipa para analisar como é que as influências tectónicas e climáticas podem ter moldado a evolução no norte do Quénia, começando numa época antes de os primeiros hominídeos terem sequer tomado forma.

“Ter este registo refinado de dados é muito interessante”, diz Isaiah. “Pode ser que eles estejam no caminho certo.”


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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