Superfungo Resistente a Medicamentos Prospera nos Hospitais Mais Atingidos Pela COVID-19

Os médicos temem que uma infeção perigosa, que pode colonizar a pele sem gerar sintomas, esteja a aumentar devido à sobrelotação dos centros hospitalares.

Friday, October 30, 2020,
Por Sophie Cousins
Ilustração feita em computador do fungo unicelular Candida auris, fungo identificado pela primeira vez em 2009. ...

Ilustração feita em computador do fungo unicelular Candida auris, fungo identificado pela primeira vez em 2009. Este fungo gera infeções graves que são resistentes a medicamentos em pacientes hospitalizados, e tem taxas de mortalidade elevadas. Este superfungo provoca infeções na corrente sanguínea, infeções cutâneas e nos ouvidos e também já foi isolado em amostras respiratórias e de urina.

Fotografia de SCIENCE PHOTO LIBRARY / ALAMY STOCK PHOTO (ILUSTRAÇÃO)

Durante as férias de Natal de 2015, Johanna Rhodes recebeu um email alarmante de um médico que trabalhava no Hospital Royal Brompton, o maior centro cardíaco e pulmonar do Reino Unido. Uma infeção terrível estava a invadir a pele dos pacientes, propagando-se pela unidade de cuidados intensivos, embora o hospital mantivesse protocolos rigorosos de controlo de infeções.

“O médico pediu-me para eu dar uma vista de olhos... pensei que não podia ser assim tão mau”, recorda Johanna Rhodes, especialista em doenças infecciosas do Imperial College de Londres que estuda a resistência antifúngica. Johanna interveio para ajudar um dos melhores hospitais de cardiologia do mundo a identificar o patógeno e para o remover das instalações. O germe era o Candida auris, pouco conhecido na altura. O que Johanna viu foi surpreendente: “Pensamos que a COVID-19 é má, mas esperem até ver o Candida auris”.

O Candida auris é um superfungo, um patógeno que consegue eludir os medicamentos feitos para o matar – e os primeiros sinais sugerem que a pandemia de COVID-19 pode estar a impulsionar as infeções deste fungo altamente perigoso. Isto porque o C. auris é particularmente proeminente nos ambientes hospitalares, que este ano foram inundados com pacientes devido ao coronavírus.

Este superfungo fica teimosamente colado a superfícies como lençóis, apoios de camas, portas e dispositivos médicos – facilitando a colonização da pele de uma pessoa e a transmissão para outras. Para além disso, os pacientes intubados, que têm por exemplo cateteres para os ajudar a respirar ou para se alimentarem, correm mais riscos de infeção por C. auris. Estes procedimentos invasivos tornaram-se mais comuns devido à insuficiência respiratória associada à COVID-19.

“Infelizmente, temos assistido a um ressurgimento do C. auris em alguns lugares”, diz Tom Chiller, chefe do departamento de doenças micóticas dos Centros de Controlo e Prevenção de Doenças (CDC) dos EUA. “Também temos observado isto a entrar em alguns dos hospitais de cuidados intensivos e em algumas unidades de COVID-19... estamos preocupados porque, assim que o superfungo se estabelece num local, é muito difícil livrarmo-nos dele.”

Antes de emergir em 2009, os fungos do género Candida eram mais conhecidos por provocarem casos benignos de cândida, inchaços esbranquiçados na língua ou nos órgãos genitais. Desde então, alguns milhares de infeções por C. auris propagaram-se em pelo menos 40 países, onde foram associadas a mortes em 30% a 60% dos casos. Em comparação, o coronavírus mata cerca de 1% dos infetados, mas atingiu um grande número de pessoas num curto espaço de tempo.

A preocupação é a de que se o C. auris se torne mais comum nos hospitais ou no público em geral, algo que pode impulsionar a crescente crise de superbactérias que já infetam milhões de pessoas pelo mundo inteiro. No ano passado, os CDC classificaram o C. auris como uma das maiores ameaças resistentes a medicamentos na América. Neste momento, apesar de ainda ser muito cedo para se confirmar um efeito direto, os EUA já registam 1272 casos confirmados de C. auris só este ano, um aumento de 400% em relação ao total registado durante todo o ano de 2018, o ano mais recente para o qual existem dados disponíveis.

Contudo, o número real pode ser muito maior, dado que a pandemia de COVID-19 interrompeu grande parte da vigilância sobre o C. auris nos hospitais, e porque o germe pode frequentemente colonizar a pele de uma pessoa sem gerar sintomas.

Estes superfungos também podem estar a contribuir para o excesso de dezenas de milhares de mortes verificadas durante uma era de COVID-19. É por esta razão que os médicos de todo o mundo estão a soar o alarme.

“Como é que o podemos tratar?”
Em 2011, Anuradha Chowdhary estava a trabalhar no seu laboratório, em Nova Deli, quando recebeu uma quantidade inesperada de amostras de sangue de dois hospitais da cidade. Infeções fúngicas misteriosas estavam a surgir nas unidades de cuidados intensivos e enfermarias neonatais, pelo que Anuradha, professora de micologia médica do Instituto Vallabhbhai Patel Chest da Universidade de Deli, foi recrutada para identificar o germe através de triagem genética e para recomendar o melhor medicamento para o respetivo tratamento. Os resultados deixaram-na perplexa.

As amostras recolhidas de pacientes – conhecidas por isolados – não constavam no sistema de identificação que os laboratórios de microbiologia usam para rastrear infeções fúngicas, diz Anuradha. “Era Candida auris. Tive de perguntar o que era Candida auris.

Este superfungo tinha sido identificado pela primeira vez dois anos antes no ouvido de um paciente (“auris” significa ouvido em latim), mas Anuradha nunca tinha visto algo assim. O mais surpreendente foi todas as amostras serem resistentes ao fluconazol – um fármaco de primeira linha para o tratamento de uma variedade de infeções fúngicas. Desde que Anuradha e o seu grupo publicaram um estudo sobre o surto de Nova Deli em 2013, os investigadores descobriram que o C. auris é quase sempre resistente a este medicamento e aos seus parentes químicos – conhecidos por azólicos. Algumas variantes também são imunes a outras duas classes principais de medicamentos antifúngicos.

É por esta razão que Anuradha voltou agora as suas atenções para o tratamento de pacientes com COVID-19 em estado crítico que foram admitidos numa unidade de cuidados intensivos em Deli, pacientes que contraíram candidemia, uma infeção fúngica na corrente sanguínea. Num pequeno estudo publicado no dia 27 de agosto, a equipa de Anuradha descobriu que 10 dos 15 pacientes tinham C. auris resistente a medicamentos – e que provavelmente foram infetados dentro do hospital.

Todas as amostras conseguiam ignorar os efeitos de fluconazol, mas quatro dos isolados de C. auris também eram resistentes à Anfotericina B, um antifúngico de segunda linha. A resistência a duas classes de medicamentos é particularmente preocupante porque a Índia tem acesso limitado à terceira opção de tratamento antifúngico: as equinocandinas. Seis dos pacientes morreram.

“Neste momento, estamos preocupados porque estamos a observar casos de pacientes com COVID-19 e outras infeções fúngicas, e pessoas que adoecem bastante e morrem”, diz Johanna Rhodes, enquanto o Reino Unido enfrenta um aumento outonal de coronavírus. “Esperamos ver o mesmo a acontecer com o C. auris.”

Johanna Rhodes e Anuradha Chowdhary enfatizam a importância dos testes e do rastreio de contactos – intervenções-chave no controlo de COVID-19 que também são vitais na luta contra a propagação de C. auris. Ambas estão a fazer pressão para que os pacientes sejam rotineiramente examinados para a presença deste superfungo, algo que envolve a recolha de uma amostra de pele, sangue ou urina, para testar o ADN da infeção. Quando o teste de um paciente dá positivo para C. auris, é feito um procedimento médico conhecido por teste de suscetibilidade, para determinar se alguma das três classes de medicamentos antifúngicos consegue mitigar a infeção.

Estes procedimentos podem ajudar a rastrear as mortes provocadas pelo superfungo, um processo que geralmente é complicado porque o germe tende a ser adquirido nos hospitais entre pessoas que já padecem de outras doenças.

“Se não o identificarmos, não sabemos se um paciente está a morrer de COVID-19 ou devido a outra infeção”, diz Anuradha, “mas, se for resistente aos medicamentos, como é que o podemos tratar?”

Duelo pandémico
Em 2019, a Organização Mundial de Saúde classificou a resistência antimicrobiana como uma das dez maiores ameaças à saúde global. A agência receia que a humanidade esteja a regressar a uma época em que as infeções facilmente tratáveis – como tuberculose e gonorreia – não possam ser mantidas sob controlo.

O uso global excessivo de medicamentos antimicrobianos em animais de criação e na medicina humana tem sido apontado como a causa para o aparecimento de superfungos. Mas olhando para o futuro, Ramanan Laxminarayan, fundador e diretor do Centro para Dinâmicas de Doença, Economia e Política em Washington D.C., diz que ele e outros investigadores estão preocupados com o papel que as alterações climáticas podem desempenhar na disseminação de infeções fúngicas.

“Os investigadores estão preocupados com o papel que as alterações climáticas podem desempenhar na disseminação de infeções fúngicas.”

Uma revisão de investigação publicada no ano passado na mBio, uma revista da Sociedade Americana de Microbiologia, sugere que o C. auris “pode ser o primeiro exemplo de uma nova doença fúngica a emergir das alterações climáticas”. Quando os humanos sofrem uma infeção, geralmente desenvolvem febre como uma forma de defesa. As temperaturas elevadas ajudam a matar os germes, um conceito conhecido por zona de restrição térmica dos mamíferos. O relatório argumenta que, à medida que espécies de fungos como o C. auris se adaptam a temperaturas ambientais mais elevadas devido ao aquecimento global, conseguem quebrar esta defesa térmica. Isto significa que, no futuro, poderemos assistir à propagação de infeções fúngicas já existentes e ao surgimento de novas infeções em humanos.

“A resistência fúngica pode ser tão perigosa quanto a resistência a antibióticos”, diz Ramanan Laxminarayan, referindo superbactérias como a Clostridioides difficile ou a tuberculose multirresistente. Estas bactérias potentes são responsáveis por 99% das 2.8 milhões de infeções por superbactérias relatadas todos os anos nos EUA, o que leva a aproximadamente 35.000 mortes.

(Relacionado: ‘Superantigénios’ ligados a síndrome misteriosa de COVID-19 em crianças.)

A Índia é há muito tempo encarada como um foco de resistência a medicamentos, e agora o país tornou-se no epicentro asiático de COVID-19. Em Nova Deli, metade da equipa do laboratório de Anuradha Chowdhary testou recentemente positivo para a COVID-19. Dois investigadores faleceram. Apesar das dificuldades pessoais, Anuradha está grata porque as pessoas estão finalmente a acordar para o perigo que o C. auris representa.

“Inicialmente, todos pensavam que este era um problema centrado na Índia – que não era problema seu”, diz Anuradha. “Eu estava a enfrentar dificuldades e a trabalhar sozinha, mas agora que o mundo está a trabalhar nisto, estou mais aliviada. As infeções fúngicas não devem ser negligenciadas.”


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com e revisto a 2 de novembro de 2020 para a correta designação do C. auris como um superfungo.

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